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Final Fantasy VII Remake escancara o luxo e a favela que existem em Midgar

Cloud em um dos trechos da cidade de Midgar - Reprodução
Cloud em um dos trechos da cidade de Midgar
Imagem: Reprodução

Bruno Izidro

Do START, em São Paulo

24/04/2020 04h00

Imaginem uma gigantesca cidade suspensa nos céus, dividida em oito setores e sendo um símbolo de progresso e modernidade. Embaixo dessa estrutura, há outra cidade, povoada por quem não tem condições de viver na estrutura superior. Assim é Midgar, de Final Fantasy VII. Com o remake do jogo, minha expectativa era conhecer e explorar mais desse lugar que só visitamos brevemente no original.

Não foi do jeito que esperava, mas a decepção fez cair a ficha sobre a real mensagem que o jogo passa em Midgar. Uma crítica que é logo aparente na forma como a cidade é mostrada, mas que me surpreendeu por ser tão imersiva, transformando o lugar em uma versão virtual do contraste que vimos e sentimos na realidade.

Construindo um mundo real e imperfeito

FF VII Remake Midgar - Divulgação/Square Enix - Divulgação/Square Enix
A parte de cima (e rica) de Midgar recriada em Final Fantasy VII Remake
Imagem: Divulgação/Square Enix

O conceito por trás de Midgar está longe de ser original e é até bem comum em obras de ficção científica. O mangá Gunnm (adaptado para cinema no filme Alita: Anjo de Combate), por exemplo, lançado no começo dos anos 1990, já apresentava a cidade flutuante de Zelom e sua contraparte feita de ferro-velho abaixo. A metrópole de Final Fantasy VII, aliás, tem semelhanças até demais com o lugar.

Também é possível encontrar essa ambientação, de forma mais ou menos aparente, em filmes como Jogos Vorazes, Expresso do Amanhã e na série brasileira 3%.

Alita cidade - Reprodução - Reprodução
A cidade suspensa de Zalem no filme Alita: Anjo de Combate
Imagem: Reprodução

E o que faz de Midgar tão especial? Estar em um videogame. Por ser uma mídia interativa, fica mais fácil imergir em mundos fantásticos e, quando bem construídos e trabalhados, eles se tornam qualidades poderosas, ainda mais em um gênero como o RPG, em que a história e os personagens são bem importantes.

The Witcher, Fallout, Persona e outros RPGs de sucesso não seriam metade do que são see nós, jogadores, não nos sentíssemos pertencentes aos mundos que apresentam, reais ou fictícios.

Final fantasy Midgar Slums 7 - Reprodução - Reprodução
Slums do setor 7 de Midgar na versão original de FF VII
Imagem: Reprodução
Na versão original de Final Fantasy VII, Midgar já proporcionava isso. Ainda mais por ser a área inicial do game, a gigantesca cidade gerava um impacto tremendo e marcava qualquer um que jogasse. Porém, a estadia por lá era curta, de apenas algumas horas de jogo, e bem limitada sobre o que podíamos ver e explorar.

Com um cenário tão rico, a cidade deixava abertura para o que mais poderia oferecer de lugares interessantes: O que será que tem no setor 2, por exemplo? Seria uma área mais industrial? Ou como seriam as Slums do setor 8? Será que a área boêmia da parte de cima tinha influência para quem vivia embaixo?

Eis então que Final Fantasy VII remake é lançado, e a nova versão agora se passa toda em Midgar. Com isso, havia muita possibilidade para conteúdos interessantes em lugares não explorados, seja em cima ou embaixo da cidade. Essa sensação ficava mais clara quando a abertura do jogo mostra muito da vida e rotina de Midgar.

Pena que não foi bem isso o que aconteceu.

O de cima sobe

Com algumas poucas exceções, o remake segue o mesmo roteiro do original: passando brevemente na cidade alta do setor 8 de Midgar e com uma exploração mais aberta somente nas Slums (que receberam o nome de comunidade ou cidade baixa na versão em português) dos setores sete, cinco e o Wall Market.

São nesses momentos mais livres nas Slums em que aparecem missões paralelas, por exemplo, e também quando Midgar se mostra mais viva e imersiva do que nunca.

Um breve passeio pelas cidades baixas é descobrir pequenos detalhes que deixam aquele mundo mais atraente: as vendas de brechó nas barracas, as crianças brincando no chão de terra, os moradores fofocando e fazendo comentários sobre os acontecimentos da cidade.

Alguns apoiam ou repudiam os atos da Avalanche, o grupo dos protagonistas, enquanto outros estão mais preocupados em como vão trabalhar, já que os trens para a cidade de cima estão parados.

Toda essa atenção e esforço de construção de mundo só aumentavam minha frustração por estar preso somente na parte baixa. O que queria era explorar a parte de cima de Midgar e me senti também pertencente ao mundo de progresso. Mas isso não acontecia.

A vontade ficava maior pela enorme plataforma está ali, sempre presente ao olhar para os céus, como uma enorme nave de Star Wars.

FF VII remake cidade baixa 7 - Reprodução - Reprodução
Vista da plataforma de Midgar na cidade baixa
Imagem: Reprodução

Midgar era um objetivo tão distante, um lugar quase impossível de alcançar... Assim como era para os moradores das Slums. Foi aí que a ficha caiu.

A cidade de baixo do setor 5 se transforma realmente em um grande lixão dos restos que caem da cidade a cima. A parte de baixo do setor 6 é uma grande ruína depois que a plataforma superior caiu anos atrás e os escombros continuam por lá

E o de baixo desce

Não explorar a cidade de cima e rica de Midgar como se fosse um mundo aberto foi o tapa na cara que o jogo me deu para lembrar que Cloud, por mais que seja o protagonista, ainda é um "Zé-ninguém", que mora de favor e nem tem grana para colocar textura na porta bugada da quitinete em que mora.

Muito mais que isso, ele escancara uma crítica por meio do contraste social em Midgar de uma forma bem mais impactante.

Midgar vista de cima - Reprodução - Reprodução
Vista da cidade baixa nas estruturas da plataforma de Midgar
Imagem: Reprodução

O jogo de 1997 já cutucava esses temas, dos efeitos colaterais do progresso na vida das pessoas sem condições de aproveitá-las, o que está presente na própria construção geográfica de Midgar, com os céus pertencente aos ricos e o chão cheio de restos aos pobres. Porém, assim como outros aspectos no game original, são abordadas superficialmente.

Com o remake, os assuntos são desenvolvidos e aprofundados de maneira mais forte. Além de usar de todo o avanço tecnológico de mais de 20 que separam as duas versões para expor mais essas mensagem, de forma visual e narrativa.

A cidade de baixo do setor 5 se transforma realmente em um grande lixão dos restos que caem da cidade a cima. A parte de baixo do setor 6 é uma grande ruína depois que a plataforma superior caiu anos atrás e os escombros continuam por lá.

Final Fantasy VII cidade baixa 5 - Reprodução - Reprodução
Cloud e Aerith na Cidade Baixa do setor 5
Imagem: Reprodução

Nessas conversas de canto de ouvido dos moradores, há diálogos interessante de empregados da Shinra, a megacorporação dona de Midgar e antagonista no game, que sonham com uma promoção para conseguir se mudarem para a cidade de cima.

Nas periferias que são as Slums de Migdar, eles são representações de muitos que acordam cedo e passam horas em transporte público todos os dias para trabalhar e querer uma vida melhor.

Cidade de fantasia e contrastes

O contraste social é ainda mais sentido quando, ainda na primeira metade do game, visitamos finalmente um novo local na cidade alta: uma área residencial no setor 7, lar para funcionários mais importantes da Shinra.

FF VII area residencial - Reprodução - Reprodução
Área residencial na cidade alta do setor 7 de Midgar
Imagem: Reprodução

É uma visita curta e presa a narrativa do game, mas é o suficiente para ver o outro lado, do conforto e segurança das pessoas privilegiadas daquele mundo.

Foi assim que Midgar e suas duas metades se mostraram uma versão do que vimos em casos como as do bairro Morumbi ao lado da favela de Paraisópolis, ambos em São Paulo. Em dezembro de 2019, os bairros vizinhos chamaram a atenção pelas diferenças tão grandes no modo de vida de quem mora por lá. A foto mostrando as duas realidades lado a lado choca e impressiona.

Paraisopolis Morombi - Tuca Vieira/Folhapress - Tuca Vieira/Folhapress
Paraisópolis (esquerda) ao lado de um condomínio de luxo do bairro Morombi (direita)
Imagem: Tuca Vieira/Folhapress

Ainda mais impressionante é perceber como essa realidade é retratada em toda a qualidade gráfica de um jogo que, ironicamente, tem a palavra fantasia no nome. Claro que esse retrato de contrastes é bem mais caricato e mesmo romantizado em Final Fantasy VII Reamke, mas ainda não deixa de provocar uma reflexão, mesmo que mínima, por quem joga.

Talvez esse comentário social mais forte nem tenha sido a real intenção dos criadores de Final Fantasy VII Remake. No final das contas, o game ainda é sobre essa releitura dos personagens, suas relações e conflitos.

Talvez tudo isso seja mais eu enxergando algo que não está realmente lá, fica margens para interpretações, mas se pelo menos conseguiu provocar algo, uma visão mais crítica, então acho que valeu a experiência.

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