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"Mais seguro que no Brasil", diz psicólogo de eSports que estuda na Coreia

O psicólogo Rafael Pereira foi para a Coreia do Sul se especializar no estudo dos eSports - Arquivo Pessoal
O psicólogo Rafael Pereira foi para a Coreia do Sul se especializar no estudo dos eSports Imagem: Arquivo Pessoal

Gabriel Oliveira

Colaboração para o START

21/03/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Rafael Pereira, de 33 anos, estuda em Seul e exalta a postura das autoridades e a disciplina dos coreanos
  • No Brasil ele passou por CNB e KaBuM, e faz Doutorado em Psicologia com ênfase em eSports
  • Ele conta que teve a chance de retornar ao Brasil, mas preferiu a segurança de continuar na Coreia do Sul

Uma das nações mais afetadas pelo novo coronavírus, a Coreia do Sul tornou-se exemplo no combate à disseminação da doença, com medidas extremas que envolveram restrições à circulação, testagem em massa e monitoramento dos cidadãos infectados. Um brasileiro testemunhou tudo isso: o psicólogo e pesquisador Rafael Pereira, de 33 anos, é especialista em eSports e estuda em Seul. Ele exalta a postura das autoridades e a disciplina dos coreanos. Com a opção de retornar ao Brasil quando o surto explodiu por lá, preferiu permanecer no país asiático, onde se sente mais seguro.

Rafael conversou com o START pela internet e contou como tem sido a rotina na capital sul-coreana em meio à crise da COVID-19: ruas vazias, lojas e escolas fechadas, eventos cancelados, trabalho de casa, aulas online e isolamento social.

Rafael morava em Daegu, a cidade que se tornou epicentro da epidemia, mas se mudou antes de o vírus se alastrar por lá - Rafael Pereira/Arquivo Pessoal
Rafael morava em Daegu, a cidade que se tornou epicentro da epidemia, mas se mudou antes de o vírus se alastrar por lá
Imagem: Rafael Pereira/Arquivo Pessoal
O pesquisador está na Coreia do Sul desde setembro de 2018 para fazer Doutorado em Psicologia, com bolsa de estudo do governo sul-coreano. Ele, que , passou primeiro por um curso do idioma local e, neste ano, iniciou as aulas da Pós-Graduação. Só que pela web.

"As aulas deveriam ter começado em 2 de março, mas foram adiadas para o dia 16. Até o dia 28, serão todas online. Já tive aulas ao vivo e gravadas, depende do professor", relata Rafael, que mora em um dormitório da universidade onde estuda, a Chung-Ang University.

Inicialmente, o psicólogo residia em Daegu, a cidade que se tornou epicentro da epidemia. Ele se mudou antes de o vírus se alastrar por lá. A Coreia do Sul possui mais de 8,6 mil casos confirmados, mas uma das menores taxas de letalidade do mundo. Houve 94 óbitos.

Seul durante o coronavírus: ruas vazias e orientações à população

Medidas extremas

Essa discrepância se deve a precauções tomadas pelas autoridades e seguidas à risca pela maioria da população. Uma delas é a recomendação para que as pessoas não saiam de casa, somente em casos de extrema necessidade.

"Até vemos pessoas nas ruas, mas acho que 95% delas usando máscara. O número diminuiu muito. Mesmo em horários de pico, o metrô não fica lotado. O trabalho está sendo, essencialmente, home office", explica Rafael.

Outra medida adotada, bastante elogiada pela comunidade internacional, é a testagem em massa, em uma busca proativa para encontrar os cidadãos infectados e, assim, conseguir isolá-los do convívio social.

Postos de auto-atendimento permite que as pessoas chequem a temperatura - Rafael Pereira/Arquivo Pessoal
Postos de auto-atendimento permite que as pessoas chequem a temperatura
Imagem: Rafael Pereira/Arquivo Pessoal

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que todos os pacientes com suspeita de COVID-19 façam exames. Na contramão disso, o Ministério da Saúde do Brasil adotou o protocolo de só testar os casos graves, o que pode comprometer o acompanhamento da epidemia.

"Todos temos a recomendação básica: evitar sair e, caso saia, usar máscara e álcool em gel. Se tivermos sintomas, podemos ligar para um telefone exclusivo do coronavírus. Caso haja suspeita, agentes de saúde vão até você", conta Rafael sobre o serviço de saúde na Coreia.

Há postos de testagem para o novo coronavírus espalhados pelas ruas e até drive-thru, no qual a pessoa passa de carro e realiza o teste.

"Diagnosticar os pacientes nos estágios iniciais [da doença] é muito importante", justificou o ministro da Saúde sul-coreano, Park Neunghoo, em entrevista à rede de televisão norte-americana CNN.

Monitoramento ativo

Prédio interditado: população recebe alertas de áreas em que pessoas infectadas estiveram - Rafael Pereira/Arquivo Pessoal
Prédio interditado: população recebe alertas de áreas em que pessoas infectadas estiveram
Imagem: Rafael Pereira/Arquivo Pessoal

Os cidadãos infectados são ativamente monitorados por meio do celular, e a localização deles é mostrada a outras pessoas para que elas possam saber as áreas de maior possibilidade de contaminação e se precaver. A medida é polêmica e recebeu críticas.

"Tem o sistema no site do Centro de Controle de Doenças da Coreia que mostra onde foram os casos e os trajetos das pessoas doentes antes de serem isoladas. Recebemos no celular, dependendo do bairro em que estamos, as ocorrências daquela região. Por exemplo, se estou perto de uma estação de metrô onde uma pessoa com o vírus passou, sou avisado por mensagem SMS do caminho dela e a que horas será realizada a desinfecção do local", explica Rafael.

Segundo o pesquisador, a campanha de conscientização do governo é massiva, com informações sobre a doença, as maneiras de prevenção e as ações que estão sendo tomadas. Na imprensa sul-coreana, o novo coronavírus também é o assunto dominante no noticiário.

Assim, o psicólogo entende que o assunto está sendo tratado com muita transparência, o que ajuda no combate à enfermidade. "Mesmo que os números assustem, pelo menos sabemos exatamente o que está acontecendo".

Depois do pico de infecções no fim de fevereiro e no início de março, o número de novos casos passou a cair dia a dia. Desde 14 de março são registradas menos de 100 infecções diárias.

O atendimento, o cuidado e a seriedade com que tratam o assunto são muito melhores. Eu me senti mais seguro aqui do que no Brasil
Psicólogo Rafael Pereira

As ruas seguem vazias e, segundo Rafael, o metrô não fica lotado nem nos horários de pico - Rafael Pereira/Arquivo Pessoal
As ruas seguem vazias e, segundo Rafael, o metrô não fica lotado nem nos horários de pico
Imagem: Rafael Pereira/Arquivo Pessoal

Colaboração da população

É claro que as medidas das autoridades de saúde não surtiriam o efeito esperado se não fosse a colaboração do disciplinado povo coreano. Mesmo sem uma proibição expressa, as pessoas não saem às ruas. Equipamentos públicos, lojas e escolas estão fechados. Até as famosas lan houses suspenderam as atividades.

Além disso, em qualquer época, é hábito na Coreia do Sul (e em outros países da Ásia) o uso de máscaras por quem se sente doente. Por trás desta atitude está o respeito ao próximo, visto que os cidadãos se preocupam em não infectar os demais. Com a crise do novo coronavírus, a precaução aumentou ainda mais.

"Praticamente todos usam", relata Rafael. "Nos prédios aqui da universidade, não autorizam a entrada sem máscara e sem passar álcool em gel nas mãos".

O governo até agiu para garantir o suprimento de máscaras, segundo conta o brasileiro. "Como estava acabando o estoque e o preço aumentando, o governo impôs limite na quantidade de exportação, fazendo com que mais máscaras fiquem no comércio interno, limitou para as compras e reduziu o preço. Cada pessoa pode comprar duas por semana e o valor ficou o original, baratinho mesmo".

Retorno ao Brasil? Não

Quando o surto eclodiu na Coreia do Sul, o pesquisador teve a opção de trancar a bolsa de estudo e voltar para o Brasil por um ou dois semestres. Ele preferiu continuar por lá.

Ele confessa que o isolamento é entediante, mas ressalta que tem cumprido as recomendações.

"Eu esperava explorar as milhares de coisas que se tem para fazer em Seul, mas tem sido tranquilo por enquanto. Tem loja de conveniência dentro do prédio do dormitório e posso pedir comida online. Quando quero dar uma voltinha para pegar um ar, é só seguir as recomendações de higiene", diz Rafael.

Preocupação da família

Os parentes do brasileiro, que moram em Itapema (SC), se preocuparam com a situação na Coreia do Sul, onde o novo coronavírus chegou antes do que no Brasil, mas logo se tranquilizaram.

"Eles também acharam que era melhor ficar aqui do que voltar para o Brasil. Mas eu me preocupo muito com eles. Minha irmã é jovem, porém, meus pais estão no grupo de risco. Como lá não se tem a mesma cultura de cuidado do que aqui, eu me preocupo com a possibilidade de contágio rápido", lamenta Rafael.

Eu vim para a Coreia por ser um dos primeiros países a reconhecer e tratar o eSport como ciência. A universidade que eu faço parte foi a primeira também na Coreia a oferecer bolsas esportivas para cyber-atletas. Sendo aqui o centro da alta performance em eSports, decidi que seria o melhor país para seguir com minha pesquisa
Psicólogo Rafael Pereira

Ensinamentos coreanos

Ele faz um desabafo ao ser questionado sobre as lições que a cultura e o povo coreanos podem dar aos brasileiros no enfrentamento da COVID-19.

"Tem que respeitar a seriedade da doença. Mesmo que a taxa de mortalidade seja baixa, a facilidade e a velocidade de contaminação são muito altas. É necessário respeitar a saúde própria e do outro, seguindo as recomendações dos especialistas de não aglomerar, não participar de eventos e manter os hábitos de higiene", inicia o pesquisador.

Ele complementa: "É também saber que todos precisam ter acesso aos materiais necessários, como máscara e álcool em gel. Não superfaturar os valores, pois se parte da população não tiver acesso, essa parte vai levar a doença para os outros de qualquer jeito. O trabalho precisa ser conjunto".

Rafael com Peanut, pro-player de League of Legends coreano, atualmente jogando na China - Rafael Pereira/Arquivo Pessoal
Rafael com Peanut, pro-player de League of Legends coreano, atualmente jogando na China
Imagem: Rafael Pereira/Arquivo Pessoal
Apesar da necessidade do envolvimento coletivo, Rafael destaca a importância da ação individual. Ele ressalta que, na Coreia do Sul, uma mulher com sintomas que se recusou a fazer o exame, bem no início do surto, acabou sendo responsável pela explosão de casos em Daegu. Ela participou de cultos do grupo religioso do qual faz parte e esteve em outros eventos, transmitindo o novo coronavírus para centenas de pessoas. O número de doentes cresceu exponencialmente a partir daí.

"Foi necessário somente uma pessoa não seguir as regras para a quantidade de casos subir de 50 para 4 mil em uma semana. Faz diferença, sim, cada um seguir as regras direitinho", alerta o pesquisador brasileiro, que está vivendo uma experiência difícil, mas ao mesmo tempo enriquecedora.

Antes de ir para a Coreia do Sul, Rafael trabalhou como psicólogo em clubes brasileiros como CNB e-Sports Club e KaBuM. Ele tem Graduação e Mestrado em Psicologia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com pesquisa na área de eSports.

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