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Ministry of Broadcast: 1984 encontra Prince of Persia em um game sinistro

O "herói" do jogo é Laranja, apenas um dos vários participantes de um relaity show com ares de campo de concentração - Divulgação
O "herói" do jogo é Laranja, apenas um dos vários participantes de um relaity show com ares de campo de concentração
Imagem: Divulgação

Makson Lima

Colaboração para o START

24/02/2020 04h00

Vindo diretamente da República Tcheca, Ministry of Broadcast (PC, Nintendo Switch) é o primeiro jogo de um grupo de quatro desenvolvedores "que dividem os mesmos ideais, sonhos, visões e amor pela profanidade da internet", diz o site dos caras. Direto e singelo.

O jogo pega emprestado de duas fontes inesgotáveis de inspiração, seja no passado, seja no presente (e talvez futuro): 1984, obra seminal e cada vez mais atual de George Orwell, e Prince of Persia, o clássico game de Jordan Mechner. Com atmosfera opressora e texto sarcástico, ele faz você pensar bastante sobre o mundo em que vivemos —esteja você na República Tcheca ou no Brasil.

Além dos muros, além das câmeras

Entre altos muros cinzentos, devidamente embalados em arame farpado e neve, muita neve, um atropelamento marca o começo do jogo. De um caminhão impune surge nosso protagonista, um sujeito ruivo, sem nome e sem identidade. "Qual é o meu papel nisso tudo?". Você conviverá com essa dúvida, assim como "Laranja", como o 'herói" passa a ser chamado por seus colegas de causa.

Acontece que, como o próprio nome do jogo sugere, estamos prestes a embarcar num reality show. Tendo em vista o aniversário recente de The Sims e sua ascensão atrelada a essa forma de se fazer entretenimento, temos aqui um perspectiva um tanto quanto oposta.

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O reality show é comandado por cientistas, com objetivos experimentais e uma premiação um tanto quanto dúbia. O vencedor poderá reencontrar sua família, mas em nenhum momento parece haver revolta ou repúdio de nosso herói em fazer parte disso tudo, só como exercício de pensamento. Ir para além dos muros rege sua força de vontade, mas e a dos demais participantes?

O reality show é comandado por cientistas, com objetivos experimentais e uma premiação um tanto quanto dúbia. O vencedor poderá reencontrar sua família, mas em nenhum momento parece haver revolta ou repúdio de nosso herói em fazer parte disso tudo

Luz, câmera, tentativa e erro

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Quando analisado sob essa ótica, o gameplay funciona como idiossincrasia à sua proposta básica. Trata-se de um jogo sem qualquer espaço criativo, com tentativa e erro elevadas à enésima potência. Algo mais recente, como Limbo, vem à mente, mas só quanto a frustração na forma como atribui dificuldade.

Laranja corre, pula, caminha, empurra caixas e se dependura com a destreza do Príncipe de vestes brancas (e que completou trinta anos em 2019). É deliberadamente rudimentar, grosso e abarrotado de arestas, assim como o regime autoritário que rege o lugar. É um O Show de Truman sem ingenuidade, pois foi tudo acordado de antemão. Na verdade, eu, jogador, senti o olhar compenetrado e onipresente do Grande Irmão sobre mim. E dá até um arrepio de pensar.

Assim como me arrepia (e da pior forma possível) relembrar determinadas sequências de Ministry of Broadcast. Não culpo os controles por permanecer mais tempo do que gostaria numa fuga desenfreada por andaimes em queda, mas sim os fundamentos básicos do jogo em si. É uma experiência de saltos cirúrgicos, tempo impecável e quebra-cabeças rasos, mesmo quando ligados à forma como, vez ou outra, precisamos soltar os cachorros (literal e visceralmente) em nossos amigos.

Em pouco tempo, tudo parece se repetir. É outra a demão de tinta, porém talvez tudo seja, sim, maquiavelicamente deliberado, como estátuas de granito do que só poderia ser um diabólico ditador.

Ministry of Broadcast

Tortura pornográfica

Dentro de uma rotina regrada - onde está seu passe? Indaga o mesmo oficial, dia após dia - e qualquer semelhança do espaço confinado a campos de concentração nazista não é mera coincidência, Laranja precisa superar obstáculos. Ministry of Broadcast se trata disso, é o entretenimento pela dor e sofrimento.

A atmosfera opressora é posta em cheque com um texto sarcástico, embaralhado pela presença de um corvo falante e sua sede de morte. É ele, e apenas ele, quem acode Laranja em seu leito de morte - e serão vários os leitos, pois morrer faz parte deste reality show, assim como a busca constante por um par de botas decente. Atribuir ao corvo o papel de consciência, parece ser pueril demais.

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Outros e outras fazem parte do experimento. Ao contrário do nosso herói, seus colegas transpiram revolta contra o vil programa de TV. Suas vestimentas e atitudes denotam o inconformismo, e este, cada vez mais enraizado em Laranja, cada vez mais visto como traidor. Cuidado quando voltar ao alojamento para concluir o dia...

Sua ingenuidade chega a ser odiosa, pois é necessário - e o jogo jamais abre espaço para escolha, com exceção de seu dicotômico desfecho - seguir em frente, não importa como e nem a que custo, e isso significa transformar a rebeldia dos participantes em uma ponte de carcaças. É grotesco, mas é TV, ou seja, mágica, em outras palavras: mentira!

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Lançamento: 30/01/2020
Plataforma: PC, Nintendo Switch
Preço sugerido: R$ 28,99 (Steam)
Classificação indicativa: 14 anos (violência, linguagem imprópria, conteúdo sexual)
Desenvolvimento: Ministry of Broadcast Studios
Publicação: Hitcents
Jogue também: Limbo, Inside, Prince of Persia, Another World

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