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CSGO: "Ninguém quer passar por isso de novo", diz TACO sobre o 2019 da MiBR

Epitácio "TACO" de Melo, 24 anos, com o gorro que é sua marca registrada - Keiny Andrade/UOL
Epitácio "TACO" de Melo, 24 anos, com o gorro que é sua marca registrada
Imagem: Keiny Andrade/UOL

Renato Bueno

Do START, em São Paulo

31/12/2019 04h00

O ano de 2019 não foi bom para a MiBR (Made in Brazil), equipe de Counter-Strike que pode ser considerada a seleção brasileira da modalidade, e o recifense Epitácio "TACO" de Melo sabe disso.

Aos 24 anos, TACO fez uma breve passagem pelo Brasil em dezembro, e falou com o START sobre os momentos difíceis da equipe em 2019, sua relação com Coldzera, que deixou o time de maneira turbulenta, e dos planos para 2020.

Um ano para relembrar

TACO vê 2019 como um ano de aprendizado - Keiny Andrade/UOL
TACO vê 2019 como um ano de aprendizado
Imagem: Keiny Andrade/UOL
Em 2019, a MiBR decepcionou nos principais torneios que disputou, trocou de escalação diversas vezes e terminou a temporada em 14º lugar no ranking global da HLTV, principal referência no cenário de CS. Para quem já viu jogadores como Fallen, Coldzera e TACO brilhando entre 2016 e 2018 pela SK Gaming, conquistando torneios "Major" e jogando o fino do Counter-Strike, ficou a sensação de que havia algo muito errado.

Segundo TACO, foram diversos fatores envolvidos, mas o principal deles aconteceu logo no começo do ano, quando o time definiu uma agenda intensa de competições. "A gente fez algumas loucuras de viagens internacionais como ir para a Polônia, ir para a China, para o Brasil, voltar para a China, voltar para a Europa e depois para Los Angeles, tudo isso no espaço de um mês", explica.

Quando você joga em um time como a MiBR, com o investimento que a gente tem, com as condições de jogo que eles nos dão, com tudo o que tem disponível, ter performances ruins em campeonatos não é aceitável.

Foi nessa época que a MiBR aproveitou a rara oportunidade de disputar um torneio no Brasil. O time jogou a BLAST, no Ginásio do Ibirapuera, mas terminou a competição em último lugar, sem vitórias.

"É muito exaustivo, você começa a ter um desempenho mais fraco, começa a ter menos tempo de treinamento", diz TACO sobre a rotina de viagens. "Cai seu nível dentro do jogo, e você às vezes não tem a clareza necessária para analisar a situação e perceber que não é que o time é ruim ou que os jogadores estão jogando mal."

Apesar da frustração, ele reconhece que estão todos no mesmo barco. "É uma culpa compartilhada, porque também quando a gente faz a agenda do ano tem o voto de todo mundo, e quando a gente fez a agenda foi um consenso de que era a melhor decisão".

Keiny Andrade/UOL
Imagem: Keiny Andrade/UOL

A MiBR também foi criticada ao longo do ano por trocar "demais" de jogadores em curto espaço de tempo. TACO não entra em detalhes, mas reconhece que a agenda não foi o único erro. "Teve outros erros, mas esse [a agenda] foi o maior deles. Se eu for listar todos eles, a gente vai passar bastante tempo aqui", diz, com uma descontração quase envergonhada.

Para TACO, é hora de levantar a cabeça. E ele não quer esquecer o ano ruim: "Eu não gosto de falar que [o ano] foi negativo, porque eu acho que foram aprendizados. Experiências que, se tudo der certo, vamos usar nos momentos bons para lembrar daquele ano que foi ruim", disse.

TACO passou por times como SK Gaming e Team Liquid antes de se juntar à MiBR - Keiny Andrade/UOL
TACO passou por times como SK Gaming e Team Liquid antes de se juntar à MiBR
Imagem: Keiny Andrade/UOL

Quem é que entra? Quem é que sai?

A line-up da MiBR mudou bastante em 2019. João "felps" Vasconcellos entrou em janeiro e ficou até junho. Lucas "LUCAS1" Teles entrou em junho e saiu em dezembro, quando deu lugar ao argentino Ignacio "meyern" Meyer. Mas a mudança mais traumática foi a saída de Marcelo "coldzera" David, parceiro constante de TACO e eleito melhor do mundo por diversas premiações entre 2016 e 2017.

Quando coldzera anunciou sua decisão de deixar o time, ele se dispôs a continuar jogando até que a equipe encontrasse um substituto, mas a MiBR decidiu jogar com o técnico Wilton "zews" Prado. Posteriormente, coldzera se disse desanimado com a situação do time, dizendo que havia decidido "seguir seu coração". Em setembro, ele anunciou sua mudança para a organização europeia FaZe Clan.

"Lógico, é muito chato você mudar tanto de jogador assim, não é o cenário ideal, mas às vezes eu acho que é necessário", diz TACO. "Apesar de eu ter meu voto, eu confio nas pessoas ao meu lado, e tudo que está sendo realizado é em nome de um bem maior no futuro."

Depois de deixar a MiBR em julho, coldzera fechou com os europeus da FaZe Clan em setembro - Divulgação/MIBR
Depois de deixar a MiBR em julho, coldzera fechou com os europeus da FaZe Clan em setembro
Imagem: Divulgação/MIBR

Em relação a coldzera, ele diz que continuam amigos. "O Cold é um dos meus melhores amigos na vida, e isso não mudou. Provavelmente não vai mudar, independentemente do time em que a gente jogue, juntos ou separados."

O contato, agora, acontece mais pelas redes sociais e WhatsApp, com eventuais encontros em torneios ou bootcamps. "Eu estava com ele agora na Dinamarca, a gente colocou o papo em dia. Entre eu e o Cold, entre meu time e o Cold, não tem nenhum problema, é todo mundo muito amigo e se respeita".

As pessoas criam muito boato, às vezes parece que torcem contra. Mas não tem como destruir, tanto o nosso lado profissional, com tantas conquistas, quanto o nosso lado pessoal.

Calibrando o futuro

Mouse e mouse pad estão sempre na mochila de TACO, como se ele estivesse pronto para jogar CS a qualquer momento - Keiny Andrade/UOL
Mouse e mouse pad estão sempre na mochila de TACO, como se ele estivesse pronto para jogar CS a qualquer momento
Imagem: Keiny Andrade/UOL

TACO tem uma postura tímida, um sorriso amigo e é extremamente cuidadoso com as palavras, como se buscasse a expressão mais justa possível para encaixar em cada resposta. Como ele vê seu papel no time? "A gente está num processo de adaptação de várias coisas, e eu consigo trazer pro time muita clareza nas decisões", explica. "Eu consigo ser a voz mais... como se fala? 'Average'?... Equilibrada, ponderada, para o time."

A gente está passando por um processo de transição de várias coisas. É um processo importantíssimo, e ter ciência disso é o primeiro passo para o sucesso.

Ele revela que a obsessão por Counter-Strike o acompanha. "Eu sou um pouco louco em relação a dedicação. Então todas as vezes que eu jogo outro jogo, eu penso que eu estou perdendo tempo que eu poderia usar para melhorar em algum ponto específico no CS."

Em maio de 2020, a principal chance de redenção de TACO e da MiBR: um torneio Major sendo realizado no Brasil pela primeira vez. "Esse major no Brasil é nossa chance de nos reerguer. Sempre foi um sonho para mim e para meus teammates jogar um major no Brasil, hoje é a nossa prioridade número 1. A gente nunca conseguiu ganhar um campeonato em casa, e vencer um campeonato mundial realizado no Brasil... se tem uma coisa que falta na minha carreira é isso."

Vai ser um trabalho muito longo, mas está todo mundo bem fechado e bem confiante para fazer um 2020 diferente. Ninguém quer passar por isso de novo.

TACO no escritório de seus agentes, em São Paulo - Keiny Andrade/UOL
TACO no escritório de seus agentes, em São Paulo
Imagem: Keiny Andrade/UOL

JOGO RÁPIDO

START: O que você jogava quando era pequeno?

TACO: Eu sempre gostei de jogar jogos casualmente, acho que como todo adolescente que cresceu na minha geração. Jogar os consoles, o computador tava chegando, era novidade, todo mundo queria jogar. Eu adorava Nintendo. Mario, Mario Kart, todos esses jogos. 007, Fifa — mas aquele Fifa bem antigo ainda.

START: Como era a cena de CS no Recife?

TACO: Quando comecei a jogar CS, era uma região desfavorecida. Por causa da distância, da latência do jogo. Você tem mais vantagem se você joga mais no centro do Brasil. Eu sempre tive um pouco dessa desvantagem. É lógico que era algo que me atrapalhava, mas acho que a vontade e o talento falaram mais alto. A cena de CS em Recife era boa, mas não era comparável à cena do Rio, de São Paulo, de Brasília. Então foi mais difícil que o normal.

Quando eu era moleque, meu quarto era uma zona, minha cama eu não fazia. Minha mãe tinha que ir lá e limpar as coisas

Brasilzão #tbt #caldicana #gelado

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START: Quanto tempo por ano você passa no Brasil?

TACO: Este ano eu passei, em média, 30 dias no Brasil. Isso porque a gente teve um campeonato para jogar [a BLAST, em São Paulo]. Não dá para aproveitar tanto o país assim. Dá tempo de ver família, mas a gente tem que separar entre família, amigos, responsabilidades, saúde, um tempo para você descansar sozinho.

Todas as vezes que eu jogo outro jogo, eu penso que eu estou perdendo tempo que eu poderia usar para melhorar em algum ponto específico no CS

START: Onde você busca inspiração nos momentos difíceis?

TACO: A gente teve uma experiência recente com o nosso psicólogo, em que a gente estava tentando recuperar pessoas que nos inspiram. E as primeiras pessoas que vieram na minha cabeça foram meus teammates e eu mesmo, de alguns anos atrás. O jeito como a gente conseguiu as coisas, as dificuldades que a gente teve que passar, tudo isso é muito motivador. E, muitas vezes, quando você atinge um certo nível de sucesso, você acaba esquecendo dessas coisas. Então acho que também é justo nos usar como inspiração.

TACO ao lado de Coldzera em uma das formações da MiBR - Divulgação
TACO ao lado de Coldzera em uma das formações da MiBR
Imagem: Divulgação

START: O que você aprendeu visitando outros países e jogando com pessoas de outras culturas?

TACO: Um exemplo simples que eu poderia dar é que os americanos crescem muito organizados com as coisas de casa: arrumar sua cama, seu guarda-roupa, deixar seu quarto sempre organizado. Isso é muito básico para eles, mas para nós, brasileiros, não é uma coisa tão básica assim. Quando eu era moleque, meu quarto era uma zona, minha cama eu não fazia. Minha mãe tinha que ir lá e limpar as coisas.

START: Quais dificuldades você se lembra de ter passado?

TACO: Viajar para campeonato sem dinheiro para voltar para casa, tendo que ganhar o campeonato para pegar a premiação e ter dinheiro para comprar passagem. Dormir no aeroporto, passar 15 horas em aeroporto, depois de jogar um campeonato virado, porque você não tem hotel para ficar. Muitas vezes, não almoçar no campeonato para poder jantar, porque o dinheiro estava contado.

Keiny Andrade/UOL
Imagem: Keiny Andrade/UOL

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