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A melhor missão de CoD: Modern Warfare só reforça o que o jogo tem de pior

Novo Modern Warfare tem momentos tensos e problemáticos - Reprodução
Novo Modern Warfare tem momentos tensos e problemáticos Imagem: Reprodução

Bruno Izidro

Do START, em São Paulo

28/11/2019 04h00

"Terra Natal", a nona missão da campanha de "Call of Duty: Modern Warfare", apresenta uma abordagem diferente no jogo, tanto em jogabilidade quanto em narrativa.

A fase é cheia de momentos fortes e desesperadores, colocando o jogador em uma perspectiva bem longe da típica posição de poder com arma em mãos. Só que ela também escancara a falsa moralidade do jogo em situações sensíveis, principalmente com o que é mostrado logo na missão seguinte.

"O propósito da narrativa é, sendo bem sincero, construir empatia. É o que estamos tentando fazer. Nós queremos que os jogadores tenham empatia pelos personagens que encarnam e jogam juntos". A fala é de Taylor Kurosaki, diretor de narrativa do novo Modern Warfare, em entrevista ao site Gamespot.

Esse intuito está bem claro em "Terra Natal". A missão é um flashback de Farah Karim, uma das quatro personagens principais da trama e líder de uma resistência de libertação no fictício país Urziquistão, no Oriente Médio.

No controle de uma Farah ainda criança, presenciamos a invasão de forças militares da Rússia ao país, atirando em inocentes e lançando gases venenosos nas ruas. É como se estivéssemos na famigerada missão "No Russian" de "Modern Warfare 2", só que do lado de quem estava sendo massacrado pelos tiros.

Em termos de narrativa, "Terra Natal" é importante para a construção da personagem de Farah, a única que tem algo próximo de um arco de desenvolvimento na campanha do jogo. Diferentemente dos demais protagonistas, que seguem o padrão "Call of Duty" de avatar de soldado durão (incluindo o famoso Capitão Price), Farah tem suas motivações e origem bem exploradas aqui.

Mesmo que a campanha de "Modern Warfare" siga a estrutura comum da série de passar o controle do jogador para diferentes personagens ao longo da narrativa, "Terra Natal" consegue reforçar o papel de maior protagonismo para Farah, enquanto estabelece bastante do que é a personagem, que sabe o que é a guerra desde cedo.

Farah é verdadeira protagonista de Modern Warfare - Reprodução
Farah é verdadeira protagonista de Modern Warfare
Imagem: Reprodução

Não é à toa que muito da trama do game gira em torno dela e do irmão Hadir, quase como se os demais personagens servissem como coadjuvantes na história. Para completar, soldados mulheres são raras em "Call of Duty" e Farah tem força e personalidade o bastante para se colocar entre os personagens memoráveis da série.

Fugindo da morte na própria casa

"Terra Natal" também é mais um exemplo de fase que explora outras mecânicas no jogo, dando um tempo na rotina de só atirar em tudo e todos. Missões anteriores já brincam com outras mecânicas, como em "A Embaixada", em que o jogador precisa guiar uma refém em fuga utilizando as câmeras de segurança.

Aqui, temos praticamente uma missão stealth, enquanto nos escondemos de um soldado russo dentro de uma casa, usando pequenas aberturas entre os cômodos para atacá-lo no momento certo.

O Pique-esconde mais tenso - Reprodução
O Pique-esconde mais tenso
Imagem: Reprodução

Na mesma entrevista para o Gamespot, Kurosaki fala como seu trabalho é fazer a narrativa andar de mãos dadas com o gameplay. "A narrativa amplifica a forma como o jogador se sente no controle e boas mecânicas também realçam a narrativa", diz o desenvolvedor.

Talvez "Terra Natal" seja o momento em que essa fórmula é mais bem aplicada em todo o jogo, porque a jogabilidade furtiva ganha ainda mais significado pelo contexto em que é usada, ao deixar o jogador acuado, aflito e quase impotente no papel de uma criança que acabou de ver o pai sendo morto.

Pais ou terroristas?

Mesmo com todas essas características que fazem de "Terra Natal" a melhor missão de "Call of Duty: Modern Warfare", ela escancara um dos problemas na abordagem do jogo.

O momento de maior tensão na fase é quando um soldado invade a casa e o pai, tentando proteger os filhos, o ataca. Vemos tudo da perspectiva de Farah e, nessa hora, o inimigo é o soldado.

Um pai protegendo o filho - Reprodução
Um pai protegendo o filho
Imagem: Reprodução

Já na missão seguinte, "Covil do Lobo", controlamos o soldado inglês Kyle Garrick em uma invasão ao esconderijo de um dos vilões do game, que fica em Urziquistão. A fase é mais um exemplo de missão baseada em acontecimentos reais e que Modern Warfare retrata alterando alguns detalhes.

No caso de "Covil do Lobo", ela é baseada na operação real que resultou na morte de Osama Bin Laden pelas forças americanas, em 2011. Tanto que o grupo terrorista perseguido no game se chama Al-Qatala, uma clara alusão à Al-Qaeda de Bin Laden.

O momento de maior tensão na fase é quando um soldado invade a casa e uma mãe, tentando proteger o filho, é morta. Agora vemos tudo da perspectiva do soldado Garrick e, nessa hora, o inimigo é a mãe.

Uma mãe protegendo o filho - Reprodução
Uma mãe protegendo o filho
Imagem: Reprodução

Enquanto o jogador invade a casa, a mãe pede para o filho não ter medo. As últimas palavras da mulher foram "Vão embora... deixem a gente em paz!" e o silêncio do protagonista assistindo ao filho chorar pela mãe morta é ensurdecedor.

Não há a empatia que o diretor de narrativa do jogo insistiu em enfatizar antes, e a narrativa abandona de vez a mão do gameplay. Só o que resta é uma voz no rádio mandando o soldado seguir o próximo objetivo, o próximo item riscado na lista para terminar a missão.

O fato de esse momento acontecer logo depois do que foi visto em "Terra Natal" só o torna mais problemático. A moralidade do jogo muda completamente para favorecer uma narrativa de que ocidentais são sempre os salvadores limpando a sujeira do mundo.

Matar uma mãe na frente do filho é permitido se ela estiver com uma arma em mãos porque, a partir daí, ela se torna terrorista. Simples assim. E essa não é a única vez que Modern Warfare tem esse problema.

Missões anteriores, como "Casa Limpa", fazem até questão de usar essa linha tênue entre inocentes e terroristas como mecânica de dificuldade e tensão, mas retratando isso sempre na figura de estrangeiros e imigrantes.

"Vão embora... deixem a gente em paz!" - Reprodução
"Vão embora... deixem a gente em paz!"
Imagem: Reprodução

Modern Warfare definitivamente tem uma das melhores campanhas de um Call of Duty em muito tempo, e o salto de qualidade em explorar novas jogabilidades é bem-vindo, ainda mais apresentando personagens mais diversos e bem trabalhados como Farah Karim.

Porém, os conflitos representados no novo "Modern Warfare" não são muito diferentes do jogo original, de 2007. Da mesma forma, o pensamento dos desenvolvedores na Infinity Ward não evoluiu nesse tempo, ao insistirem em dizer que o jogo não é político, mesmo que a diferença entre pais protegendo os filhos e terroristas que precisam ser mortos seja ditada não pelo jogador, mas pelo ponto de vista de quem é o dono do jogo.

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