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"Devo isso a todas as mulheres", diz primeira "caster" de Rainbow Six Siege

Victória "Viic" Rodrigues em sua estreia como caster de Rainbow Six, ao lado de Ricardo Fugi - Reprodução/YouTube
Victória "Viic" Rodrigues em sua estreia como caster de Rainbow Six, ao lado de Ricardo Fugi Imagem: Reprodução/YouTube

Gabriel Oliveira

Colaboração para o START

06/11/2019 04h00

Pela primeira vez, o "Rainbow Six: Siege" terá uma voz feminina nas transmissões dos principais campeonatos do Brasil e do exterior. A brasileira Victória "Viic" Rodrigues, de 24 anos, é a primeira mulher contratada como "caster" pela Ubisoft em todo o mundo.

Viic estreou como comentarista da Ubisoft no Brasil na repescagem da 10ª temporada da Pro League - Latin America, na semana passada. Mas a vitrine mais importante será a transmissão em português da Pro League, a principal competição de "Rainbow Six" do cenário internacional, disputada no Japão, nos próximos sábado (9) e domingo (10).

Jornalista, a jovem começou a comentar em streams por acaso, tomou gosto pelo ofício e se destacou. Diante da maior oportunidade da carreira, admite sentir o peso da responsabilidade de ser pioneira. "Se der certo, isso pode abrir portas. Se der errado, pode ser que fechem todas as portas para outras mulheres".

De diversão a profissão

Viic é jornalista, e começou a participar de streams por acaso - Arquivo pessoal
Viic é jornalista, e começou a participar de streams por acaso
Imagem: Arquivo pessoal
"É a realização de um sonho aquela criança de 10 anos que jogava no videogame poder hoje falar que trabalha com isso. Transformei a minha paixão de sempre em profissão", comemora Viic. Ela tem esperanças de que sua visibilidade encoraje outras mulheres que também tenham como meta trabalhar com eSports.

Viic conta que sempre jogou videogame, e começou a acompanhar o cenário competitivo de "Counter-Strike: Global Offensive" em 2014. Três anos depois, incentivada por amigos, comprou o "Rainbow Six" e, por ser formada em Jornalismo, passou a escrever sobre os torneios da modalidade.

É a realização de um sonho aquela criança de 10 anos que jogava no videogame poder hoje falar que trabalha com isso. Transformei a minha paixão de sempre em profissão

Viic escrevia sobre "Rainbow Six" à noite e nos finais de semana, enquanto mantinha outros empregos na área de Comunicação, em horário comercial. "Era cansativo, mas dava para conciliar", relembra a jovem, que se envolveu com narração por acaso.

Ela recebeu o convite para integrar a Super Liga Feminina, a primeira competição amadora de "Rainbow Six" para mulheres do Brasil, em 2018. O trabalho seria escrever sobre as partidas, entrevistar as competidoras e divulgar o evento. Mas, uma semana antes do campeonato, as duas casters contratadas cancelaram participação, e a organização chamou Viic às pressas para ser comentarista. Uma função que ela nunca tinha pensado em desempenhar.

"A princípio eu iria ficar por duas rodadas, enquanto encontravam outra pessoa. Deu certo. O pessoal gostou, rolou feedback legal e eu acabei permanecendo o campeonato inteiro. Foi quando percebi que poderia trabalhar com isso e comecei a ser chamada para fazer várias competições", conta Viic.

Ela comprou um computador mais potente e investiu em equipamentos, como microfone e webcam, para participar das transmissões. Já são 14 torneios na carreira. "Montei um mini estúdio na minha casa", relata Viic, moradora de Santos (SP).

Primeira caster mulher no mundo

O convite para ser comentarista oficial da Ubisoft veio em uma reunião no escritório da empresa, em São Paulo. Ela entrou no lugar de Guilherme "GuizaO" Kemen, que se afastou das transmissões após ser contratado como embaixador do Made in Brazil (MiBR).

"Quando a Ubisoft me chamou, eu achava que iam me convidar para algum campeonato, mas nunca pensei que fosse para fazer parte da equipe oficial. Fiquei um pouco em choque. Eu até brinco que eles devem achar que eu não tinha gostado do convite, não sabia o que fazer", relembra Viic. "Depois que a ficha caiu, fiquei muito feliz, porque mostra que todo o investimento que eu fiz, de ter emprego regular e trabalhar com isso no meu tempo livre, valeu a pena".

Ela pediu para sair do trabalho de analista de comunicação em uma escola de Santos e, a partir de 2020, se dedicará exclusivamente aos eSports.

Quando a Ubisoft me chamou, eu achava que iam me convidar para algum campeonato, mas nunca pensei que fosse para fazer parte da equipe oficial. Fiquei um pouco em choque

"Há um tempo vínhamos acompanhando a participação da Victória em transmissões. Notamos que ela tinha uma visão de jogo diferenciada, além de clareza nos comentários", comenta o diretor de eSports da Ubisoft para América Latina, Marcio Canosa, sobre a contratação da jovem. "Junto com outras mulheres que já trabalham com eSports, a Viic é mais um exemplo do talento feminino e a prova de que elas são parte desta comunidade e merecedoras de reconhecimento".

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Oportunidade para mulheres

Viic espera que a oportunidade que está tendo represente uma abertura maior para as mulheres. Ela não é apenas a primeira caster de "Rainbow Six" no Brasil, mas também no mundo. "Eu não ligo de ser a primeira, mas não gostaria de ser a única. Quero que mais mulheres apareçam. Muitas acabam desistindo pela dificuldade. Se eu cheguei aqui, qualquer uma pode conseguir".

Ela destaca que, embora acredite ter sofrido menos do que outras mulheres, ainda assim enfrentou preconceito e desconfiança no seu caminho profissional. "Nós temos de nos provar o tempo inteiro. Nossa capacidade é colocada em dúvida apenas por sermos mulheres, Na primeira transmissão, muita gente duvidou de mim. No final, as pessoas falavam: 'não acreditei que você fala tão bem e conhece do jogo'. Temos pouco espaço para errar".

A Viic é mais um exemplo do talento feminino e a prova de que elas são parte desta comunidade e merecedoras de reconhecimento
Marcio Canosa, diretor de eSports da Ubisoft

É nesse contexto que Viic confessa sentir o peso de ser a primeira caster de competições oficiais de "Rainbow Six" no mundo. "Eu acho que carrego um fardo a mais", admite. "Se der certo, isso pode abrir portas. Se der errado, pode ser que fechem portas para outras mulheres. Eu preciso fazer bem o meu trabalho. Devo isso a todas as mulheres, representá-las bem para que isso, de fato, seja uma abertura. Para que vejam que eu sou mulher e consigo fazer meu trabalho".

Desde o anúncio de sua contratação, porém, a caster vem recebendo uma enxurrada de mensagens positivas e carinhosas. "É lógico que vai haver pessoas que não gostam de mim, não conseguimos agradar a todo mundo. Fiz minha primeira transmissão oficial no Relegation, houve um feedback muito positivo. Tem uma resistência ainda, pessoas destilando ódio gratuito na internet, mas eu tenho que agradecer o carinho da comunidade. Eu me senti muito acolhida".

No próximo fim de semana, as principais equipes de "Rainbow Six", incluindo as brasileiras Ninjas in Pyjamas (NiP) e FaZe Clan, estarão no Japão para a disputa das finais da 10ª temporada da Pro League. Viic tem se preparado com sessões de fonoaudiologia e estudo dos times participantes e das estatísticas para brilhar, desta vez na transmissão do principal campeonato do mundo, ao lado de André "Meligeni" Santos, Otávio "Retalha" Ceschi e Ricardo "qeP" Fugi. "Estou tranquila e confiante".

Na primeira transmissão, muita gente duvidou de mim. No final, as pessoas falavam: 'não acreditei que você fala tão bem e conhece do jogo'. Temos pouco espaço para errar

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