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OPINIÃO

Eu acabei com o capitalismo em The Outer Worlds e me tornei um monstro

The Outer Worlds - Reprodução
The Outer Worlds Imagem: Reprodução

Bruno Izidro

Do START, em São Paulo

05/11/2019 04h00

Um espectro ronda o Vale Esmeralda, a região inicial do recém-lançado RPG "The Outer Worlds". É o espectro da companhia Primícias Espaciais (ou Spacer's Choice, na versão original) e sua exploração de trabalhadores na fábrica da cidade de Pontágua (Edgewater).

Ainda bem que os moradores têm a mim, o protagonista dessa aventura, para acabar com tanta opressão. Foi isso que eu fiz: pus fim ao capitalismo. Só não contava que as minhas ações me transformariam não em um revolucionário, mas em um genocida de uma cidade inteira.

Antes de contar essa experiência em "The Outer Worlds", é bom contextualizar algumas características do jogo. Ele é ambientado em um futuro alternativo e distópico, e segue a premissa de dar liberdade de decisão aos jogadores.

Distopias em que o mundo é controlado por megacorporações sempre foram um terreno fértil para jogos: "Deus Ex", "Final Fantasy VII" e "Borderlands" estão aí para provar isso. "The Outer Worlds" segue o exemplo, e esse aspecto é bem importante para todo o desenrolar da história do RPG da Obsidian.

O game se passa em um futuro distante, no ano de 2355, em Bonança (Halcyon), um sistema solar nos confins do universo que foi vendido para um conglomerado de empresas, chamado de Conselho, para ser colonizado e explorado.

Assim, planetas inteiros pertencem a uma companhia, por exemplo, e a maioria dos seus habitantes não são mais do que uma força de trabalho barata.

Os desenvolvedores da Obsidian usam esse contexto para criar alegorias sobre o sistema capitalista exploratório, comunidades socialistas e outros assuntos políticos, colocando o jogador no meio de decisões morais, éticas e com consequências inesperadas ? o que já era de se esperar dos criadores de "Fallout: New Vegas".

Viver pra trabalhar

The Outer Worlds Pontagua - Reprodução - Reprodução
Pontágua é a primeira cidade do jogo
Imagem: Reprodução

Pontágua é uma cidadezinha de uma região esquecida por deus de Vale Esmeralda, no planeta Terra 2. É lá que a protagonista de "The Outer Worlds" inicia sua aventura, como uma forma de grande tutorial para o jogo.

Todos os habitantes de Pontágua são funcionários da companhia Primícias Espaciais e empregados na fábrica de comida enlatada do local, em uma representação do que seria uma cidade industrial no século 18, inclusive com a falta de diretos trabalhistas e exploração de mão de obra barata. Parece que, não importa quantos anos no futuro, a humanidade sempre vai cometer os mesmo erros.

Como em todo RPG, é sempre bom passar um tempo na cidade inicial, conversando com o NPCs locais para saber qual é a do lugar. E, logo de cara, havia algo que não cheirava bem em Pontágua. Os habitantes eram tratados como uma propriedade da empresa, e em cada visita ao lugar ecoavam rumores sobre peste e desertores.

"A história de todas as sociedades é a história da luta de classes", já dizia Karl Marx no Manifesto Comunista. Isso vale também para "The Outer Worlds". Aos poucos, as condições de trabalho quase escravo revoltaram alguns habitantes, que desertam e criam uma comunidade independente em um laboratório botânico abandonado no outro lado do Vale Esmeralda.

O contraste entre os dois locais é tanto visual quanto ideológico, com a fumaça e o cinza da cidade dando lugar ao verde das árvores e à cooperação quase igualitária entre ex-empregados da fábrica. Ou seja, é uma comunidade socialista contra uma cidade capitalista.

Outer Worlds Botanical Lab - Reprodução - Reprodução
Comunidade de desertores vive em uma laboratório abandonado e com muito verde
Imagem: Reprodução

É nesse momento que fica mais claro também o sistema de facções em "The Outer Worlds", uma herança da época de "Fallout: New Vegas", em que ações a favor ou contra um dos grupos geram consequências para o jogador. Quanto mais amigável a protagonista for com uma das facções, mas barato serão os itens e armas vendidos por eles, por exemplo.

É nesse cenário que "The Outer Worlds" confronta o jogador a escolher entre salvar ou destruir um dos dois lados ao desviar a energia de uma geotérmica para um dos locais. Mas nem precisou disso para eu dizimar toda uma população.

Capitalismo selvagem

Quanto mais eu conhecia a população de Pontágua, mais eu ficava indignado com o que era retratado: os trabalhadores culpavam os desertores por não estarem trabalhando mais. Assim, a fábrica não conseguia atingir as metas de produção, o que ameaçava o fechamento da cidade e a perda de empregos.

O tema ainda ressoava particularmente em mim por eu, na vida real e em um passado hoje bem distante, também já ter trabalhado em fábricas e ter visto, de forma menos intensa, é verdade, situações parecidas. Claro que tudo é apresentado com certo grau de exagero e que beira o absurdo no jogo, mas é justamente por isso que consegue provocar reações como as que tive ao jogar.

Em Pontágua, todos pareciam ter sofrido uma lavagem cerebral para acharem que ser explorado pela Primícias Espaciais era algo bom, com se suas vidas tivessem sido salvas. É assim que Amelia Kim, a atendente do bar da cidade, diz ter desistido do sonho de ser uma cientista.

Trabalhar em laboratório não é para mim. Nunca foi. Nunca será. A Primícias Espaciais me colocou no meu lugar

Talvez a história mais triste e desumana seja de Parvati, a mecânica que pode virar sua companheira de time durante a aventura. Sem dar muito spoilers na história, só vale dizer que a mãe dela era obrigada, por contrato, a entregar qualquer filho ou filha para a empresa. Ela se tornou, assim, mais uma propriedade da companhia antes mesmo de nascer.

Meritocracia da Saúde

Outer Worlds doente - Reprodução - Reprodução
Uma das trabalhadores com a peste em Pontágua
Imagem: Reprodução

A gota d'água da minha indignação aconteceu assim que entrei na enfermaria de Pontágua. Isso porque os habitantes estavam sofrendo com uma peste e muitos estavam doentes, só que eles não estavam recebendo tratamento da companhia por não merecem.

A política da Primícias Espaciais diz que somente aqueles que se esforçarem e trabalharem duro têm direito a receber tratamento médico. Foi assim que Conrad, outro habitante da cidade, conseguiu se curar, e agora era o barbeiro de Pontágua.

Já Rosemary Kwan não teve tanta sorte e era uma das doentes na enfermaria, que parecia mais uma câmara da morte, dormindo entre os ratos. Ninguém ali esperava viver por mais tempo.

A empresa sempre nos diz: um espírito fraco torna o corpo fraco. Se eu não quisesse ter ficado doente da peste, talvez devesse ter trabalhado mais. Talvez eu devesse ter mais orgulho do meu trabalho

Quem era o responsável por tudo aquilo? Quem decidia quem morria ou vivia? A resposta estava em Reed Tobson, o chefe da fábrica de enlatados e, logo, também era o prefeito de Pontágua.

Ele era o representante maior da empresa no local. Acabar com ele era o mesmo que acabar com todo aquele sistema exploratório do lugar. Foi com esse pensamento que, acompanhado de Parvati, pegamos o elevador para a torre mais alta da cidade, onde ficava o escritório de Reed. Um único tiro e o capitalismo estava morto em Pontágua.

Foi então que o jogo começou a quebrar a imersão para mim quando Parvati me confrontou sobre a morte do seu agora ex-patrão. Somente com um teste simples de Determinação, um dos atributos do meu personagem de RPG, eu a convenci de continuar ao meu lado.

Revolução ou massacre?

Enquanto descia de volta no elevador, já conseguia ouvir em minha cabeça os primeiros acordes do famoso hino comunista A Internacional. A revolução do proletariado de Pontágua tinha começado.

Só que a trilha logo foi interrompida e trocado pelo som pavoroso de um filme de terror, porque as minhas ações fizeram com que todos os habitantes de Pontágua se tornassem inimigos. Aqueles que conseguiam empunhar uma arma começaram a atirar em minha direção.

Um por um, aqueles NPCs que com quem eu tinha conversado caíam na mira da minha arma. E também na arma de Parvati, em uma dissonância ludonarrativa que só me deixou desapontado com o jogo.

Outer Worlds massacre - Reprodução - Reprodução
População partiu pra cima quando o prefeito-patrão foi morto
Imagem: Reprodução

Amelia, a atendente do bar, nunca mais seria uma cientista; Conrad, o barbeiro, não teria uma chance de melhorar de vida; Martin, um senhor que tinha dado uma missão para achar remédios para curá-lo da peste, também estava morto (e a missão que ele tinha dado estava fracassada, assim como todas as missões dadas por alguém em Pontágua).

Pontágua morreu. A Fábrica de conservas foi fechada e o revolucionário se tornou um monstro, responsável pelo massacre de uma população inteira.

As consequências não foram só de peso moral como também mais práticas dentro do jogo, já que minha reputação com a facção das Primícias Espaciais passou a ser de inimigo número 1. O resultado foi que todas as máquinas de venda da região passaram a me cobrar o dobro pelas armas, itens e munições que eu decidisse comprar dali em diante.

É o alto preço por tentar acabar com o capitalismo em "The Outer Worlds".

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