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Por dentro do Mine Gala, um festival de música em Minecraft

Matheus Fernandes

Colaboração para o START

19/10/2019 04h00

Em seus 10 anos de história, o Minecraft já foi utilizado para todo tipo de funcionalidade diferente: emular jogos antigos, recriar lugares da vida real e até um celular funcional. Isso sem falar nas aplicações artísticas e educacionais do jogo. Desta vez, um grupo de amigos resolveu usar o jogo para realizar festivais de música.

Em um final de semana de setembro ocorreu o terceiro festival do grupo Open Pit, o Mine Gala, versão em blocos dos tradicionais bailes como o Met Gala. Com dezenas de milhares de participantes — foram mais de 100 mil ouvintes na stream oficial —, o evento trouxe nomes consolidados nesse cenário, como Amanaguchi, 100 gecs, Iglooghost e Y2K.

O START participou dessa festa, e conta como uma ideia inusitada acabou reunindo representantes da música pop e eletrônica em torno de uma comunidade.

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Uma piada interna que saiu de controle

O estudante canadense de arquitetura e responsável pelo marketing do festival, Max Schramp, conta que a ideia do festival surgiu em maio de 2018, como uma piada para comemorar seu aniversário de 21 anos: uma festa dentro de Minecraft com seus amigos tocando. O que era para ser uma piada interna acabou reunindo mais de 400 pessoas, dando o início à organização de outros festivais.

O primeiro festival, Coalchella, trocadilho com carvão ("coal" em inglês) e o nome do festival californiano, reuniu em setembro de 2018 25 mil pessoas para assistir a 59 DJs. Quatro meses depois, mais de 80 mil pessoas compareceram ao Fire Festival, homenagem ao festival famoso por dar errado, tema dos documentários "Fyre" e "Fyre Fraud".

A acessibilidade que um festival realizado pela internet proporciona é essencial para Schramp: "Festivais como o Coachella são notórios pela comercialização excessiva e por servirem exclusivamente os ultra privilegiados, seja financeiramente, socialmente ou geograficamente. Nós reduzimos os requisitos para participação a uma conta do Minecraft, algo que a maioria das pessoas - ou seus primos mais jovens - possuem". Max diz que não esperava um sucesso tão grande, mas que todos na equipe continuam "fazendo o que estamos fazendo, porque as pessoas parecem amar".

A pose clássica dos eventos de gala - Reprodução
A pose clássica dos eventos de gala
Imagem: Reprodução

Para quem tem Minecraft, o acesso ao festival é completamente grátis. Há uma espécie de passe VIP, que libera alguns itens estéticos para os compradores, mas toda a arrecadação é destinada à instituição de caridade Rainbow Railroad, que protege pessoas LGBT em países onde elas não têm direitos. "Nós gastamos bastante de nosso próprio dinheiro para pagar pela hospedagem do servidor, vídeos e outros custos variados, mas a caridade fortalece nossa comunidade, além de dar um precedente para futuros festivais online", explica Max. "Nossos valores e visão para esses eventos consolidaram nosso lugar em uma indústria em expansão, e nós temos uma voz em moldá-la para ser o melhor possível".

O START recebeu um convite personalizado para o evento - Reprodução
O START recebeu um convite personalizado para o evento
Imagem: Reprodução

E, como tudo em Minecraft, as coisas precisaram ser construídas. Mais de 50 pessoas trabalharam na construção virtual, segundo os organizadores. O resultado ao ultrapassar os portais do festival, é a surreal experiência de um festival de música, amplificada em algumas centenas de vezes e sem as restrições orçamentárias ou das próprias leis da física. Uma Hatsune Miku, popstar virtual japonesa, de tamanho colossal, divide espaço com um palácio chinês, um Super Mario, uma lata gigante de energético e um drone da Amazon. No céu, o logo do Mine Gala flutua. Tudo isso polvilhado por dezenas de bandeiras LGBT. É quase um Burning Man, mas feito por fãs de anime e repleto de referências irônicas ao capitalismo - nenhuma das marcas que aparecem têm qualquer envolvimento com o festival, herança da gravadora PC Music, da qual fazem parte alguns dos organizadores.

Alguns dos itens desbloqueados pelo passe VIP. Como nos festivais reais, as lembranças são valorizadas pelos frequentadores - Reprodução
Alguns dos itens desbloqueados pelo passe VIP. Como nos festivais reais, as lembranças são valorizadas pelos frequentadores
Imagem: Reprodução

Além do cenário e da música, há diversas outras atividades no espaço, desde raids onde os fãs se organizam e correm de um lado para outro enfrentando chefões com nomes como "Jeff Bezos", "eboy" e "Ronald McDonald", até concursos de melhor fantasia, com vencedores como um grupo de Garfields ou um cosplay da capa do novo álbum da cantora Charli XCX, por exemplo.

Se eventos virtuais são uma parte inevitável do futuro e já são utilizados como estratégia de marketing por grandes nomes da indústria - como por exemplo, a apresentação de Marshmello dentro do jogo Fortnite, que causou controvérsia ao se declarar "o primeiro show virtual da história", ignorando eventos como o Coalchella e seus predecessores, como o SPF420 - a Open Pit tenta manter uma abordagem de base, amparada na caridade e na noção de comunidade, utilizando os jogos para recriar um ambiente praticamente extinto pelos mega eventos de grandes corporações.

Jeff Bezos: o CEO da Amazon em sua versão vilão do Minecraft - Reprodução
Jeff Bezos: o CEO da Amazon em sua versão vilão do Minecraft
Imagem: Reprodução

Bloco Musical

As apresentações ocorrem em dois palcos temáticos, Industry e Plant, decorados respectivamente com temas temas fabris e da natureza. O nome dos palcos é uma brincadeira com o termo "industry plant", usado para se referir pejorativamente a artistas que supostamente seriam inseridos pela indústria musical em cenas independentes.

No som, divididos em sets de 20 minutos, o que rolava era a mistura abrasiva de gêneros eletrônicos como hardcore e eurodance com hip-hop e pop mainstream que habita sites como o Soundcloud e lançamentos de gravadoras como PC Music. Grandes hits da atualidade, como Old Town Road, de Lil Nas X, e Lalala, de Y2K e bbno$ - y2k se apresentou no festival no segundo dia - também eram presença garantida nos sets, lado a lado com remixes dos sucessos mais excêntricos dos anos 2000, como 3OH!3, Avril Lavigne e Slipknot. Em um momento da noite rolou espaço até para um clássico do nosso funk: Lança de Coco, canção de 2014 do MC Bin Laden.

O público, vestido com skins de personagens de jogos e animes, dançava e pulava ao mesmo tempo em que usava o chat do jogo para cantar junto, interagir com os artistas - um dos grandes momentos foi a aparição da cantora Charlie XCX - , exigir direitos para as pessoas trans e criticar Notch, criador do Minecraft, que causou controvérsia no início do ano com uma série de tweets transfóbicos.

A produtora britânica GFOTY, uma das mentes por trás do fenômeno PC Music, conversou com a reportagem por e-mail antes de sua apresentação, onde rolou de uma versão eletrônica de Creep, do Radiohead, a remixes de The Offspring e efeitos tirados diretamente de Super Mario 64. "Eu nunca toquei em algo assim conscientemente, estou muito animada! Espero que algum dia possa ver essas pessoas de lugares distantes pessoalmente", diz. Sobre sua relação pessoal com o jogo, afirmou: "Eu não jogo Minecraft, eu vivo Minecraft".

A DJ, em uma versão que ninguém sabe se é real, na plateia do festival - Reprodução
A DJ, em uma versão que ninguém sabe se é real, na plateia do festival
Imagem: Reprodução

Pintura

Um dos usos recorrentes do minecraft é o artístico. Nada mais justo então que explorar esse lado do jogo no evento. Além das instalações descritas anteriormente, há uma galeria de arte na mansão em que estão os palcos. Em seus vários andares, a exposição se divide em seções com temas como arte de computadores, capas de disco e métodos tradicionais, sempre acompanhados de manifestos que conclamam a audiência a se tornarem artistas.

A curadora da galeria, a estudante de moda Elena Fortune, explica que a ideia era enaltecer peças que fazem parte do nosso cotidiano, em nossos feeds infinitos, mas que não são consideradas como arte por estarem fora de museus ou galerias. "As peças que consumimos sem pensar duas vezes são tão bem feitas e capturaram tão bem essa nova onda de consumo de arte e estilos que eu acredito que somos sortudos de sermos expostos à elas regularmente".

Elena conta que a ideia da galeria era expôr a maior quantidade de peças da maior quantidade de pessoas possível. "Acredito que toda pessoa que usou seu tempo para criar algo de que se orgulha merece ter sua criação exposta em uma galeria", diz. A estudante também é entusiasta do potencial artístico do jogo: "A arte aparece em muitas formas diferentes, em todo lugar que olhamos. O Minecraft é definitivamente um veículo para a arte. Há muito valor e potencial em um programa de construção virtual online, amplamente acessível e com milhares de blocos. Há muita coisa a ser explorada!", diz Elena. "Assim como esse festival, o Minecraft está disponível há 10 anos e só estamos fazendo isso agora. Há muitas possibilidades que nós ainda nem pensamos".

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