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Conheça o THUG Pro, mod que coloca Sonic e Counter-Strike em "Tony Hawk"

No mundo dos mods, tudo é possível -- até mesmo Darth Maul fazendo manobras com seu sabre - Divulgação/THUG Pro
No mundo dos mods, tudo é possível -- até mesmo Darth Maul fazendo manobras com seu sabre Imagem: Divulgação/THUG Pro

Matheus Fernandes

Colaboração para o START

22/08/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Modificação de "Tony Hawk's Underground 2" surgiu em 2013 para reunir os "órfãos" da franquia
  • Criações da comunidade vão desde mapas de Counter-Strike até personagens como Kratos e Sonic
  • Brasileiros começaram a criar a Avenida Paulista, com direito a pista de skate no topo do MASP

Quem não se abalou com o vídeo de um skatista fazendo manobras em dust_2, o clássico mapa de "Counter-Strike"? Em vez de rushar B ou acertar headshots de AWP, o personagem mostra um arsenal de impossibles, heel flips e manuals. Essa mistura estranha de tiroteio com o esporte do poeta Chorão é real, e existe graças a um mod para o jogo "Tony Hawk Underground 2", de 2004.

Estamos falando do THUG Pro, que atualmente é o maior responsável por manter viva a série de jogos de skate. Essa modificação, que poderia estar entre os mods mais engraçados, surgiu em 2013, com a intenção de reunir os "órfãos" que estavam há anos esperando uma nova versão dos games com assinatura da lenda Tony Hawk. O START bateu um papo com os criadores de THUG Pro para entender a história do mod e também mostrar as criações mais surreais que existem por lá.

Órfãos de Tony Hawk

Mesmo em sua versão original, "Tony Hawk's Underground 2" já não era dos mais convencionais - Divulgação
Mesmo em sua versão original, "Tony Hawk's Underground 2" já não era dos mais convencionais
Imagem: Divulgação

A série Tony Hawk, que formou o gosto musical e as cicatrizes dos tombos na galera que cresceu nos anos 2000, começou com o game "Tony Hawk's Pro Skater", em 1999, mesmo ano em que o atleta acertou a manobra "900" pela primeira vez na história e mudou para sempre o esporte. Mas em 2013 ela estava abandonada pelos estúdios, com os jogadores que sobraram espalhados entre os diversos jogos da série.

O norueguês Morten, um dos desenvolvedores do mod, conta para o START que o THUG Pro começou com a ideia de transpor mapas de um jogo para outro e facilitar ajustes, mas veio numa época importante, quando o GameSpy, plataforma que possibilitava o modo online nos jogos, estava sendo desativado.

"A quantidade de jogadores estava diminuindo de forma veloz. As pessoas também estavam espalhadas por diferentes plataformas, principalmente PC e PS2. Então algo tinha de ser feito para unir os jogadores remanescentes, e tornar mais fácil para novos ou velhos jogadores voltarem para o jogo", diz. O mod acabou sendo esse lugar de união para os fãs.

Como ninguém nunca pensou em colocar skates e pizza em Doom antes? - Divulgação/THUG Pro
Como ninguém nunca pensou em colocar skates e pizza em Doom antes?
Imagem: Divulgação/THUG Pro

Um mod sem limites

Além de desenvolver um modo online para substituir o anterior, o mod conserta bugs, adiciona suporte aos controles modernos e ainda traz quase todos mapas e personagens da série - até os mais estranhos, como o ogro Shrek, personagem desbloqueável do "Tony Hawk Underground 2" original, e Andy's Room, mapa inspirado no filme Toy Story, presente no jogo "Disney's Extreme Skate Adventures".

Mas o que torna THUG Pro capaz de unir skate e "Counter-Strike" é o suporte a mapas e skins da comunidade. Além de dust_2, é possível fazer sua session em cenários variados como City Escape, de "Sonic Adventure 2", o skatepark de Los Santos, de "GTA San Andreas", e Delfino Plaza, de "Super Mario Sunshine". Tudo isso com uma variedade impressionante de personagens criados pelos fãs.

Essas criações são reunidas em um espaço chamado The Vault, no site THPSX. O administrador do site, o americano Andy "sk8ace", conta que o site começou como um hub para os fãs da franquia, lugar onde eles poderiam postar mapas personalizados. Para ele, o THPSX pode ser definido como uma comunidade, já que o grupo expandiu e agora se reúne em um servidor do Discord. "Normalmente, alguém interessado em criar conteúdo para o THUG Pro encontra nosso servidor do Discord e aprende o que é preciso para completar o projeto". Andy explica que o perfil dos modders é diverso: "Alguns têm experiência em desenvolvimento de jogos, outros são completamente novos na modelagem".

Não poderia faltar um Kratos dando um rolê de skate - Divulgação/THUG Pro
Não poderia faltar um Kratos dando um rolê de skate
Imagem: Divulgação/THUG Pro

As criações citadas como favoritas pelos envolvidos são as que levam a engine do jogo ao extremo, ou usam de base para outras coisas, como mapas de puzzle, mini-games e até um experimento com a perspectiva sidescroller. "É muito legal ver mapas que tentam adicionar algo a mais no gameplay", diz Morten.

E por que as pessoas ainda são tão apaixonadas por uma franquia de 20 anos atrás? Para Morten, as pessoas curtem jogos que proporcionam liberdade em termos de movimento e de expressão in-game, caso dos primeiros jogos da série. "Há algo simplesmente prazeroso em se mover nesse jogo. Tem a ver com a maneira com que o design dos levels é feito e com o feeling dos controles. É algo atemporal'. E isso é capaz de manter o interesse mesmo quando os gráficos são ultrapassados ou o contexto não é mais o mesmo. Krad, um dos fundadores do THPSX, complementa: "O jogo permite uma liberdade muito grande em escolher como você quer jogar. O controle extremo que você tem sobre seu skatista é extraordinário por si só".

Tem a ver com a maneira com que o design dos levels é feito e com o feeling dos controles. É algo atemporal
Morten, um dos criadores do mod THUG Pro

A série Tony Hawk está oficialmente parada desde que acabou o contrato entre o skatista e a publisher Activision, mas o mod já recebeu reconhecimento de alguns dos desenvolvedores. Em 2017, a Robomodo, responsável pelos games pós-2008, mencionou o mod no Twitter como resposta a um fã que pedia novos jogos da série. "Eles têm conhecimento de que isso existe e que as pessoas estão jogando", afirma Morten.

O mod é totalmente grátis e todos os envolvidos afirmam que levam como um hobby, apesar da quantidade de tempo dedicada ao projeto. Para jogar o THUG Pro, é necessário o jogo base "Tony Hawk Underground 2", game de 2004 em que o jogador causa caos ao redor do mundo junto de Tony Hawk e Bam Margera. O problema é que o jogo, assim como todo o resto da série, não está disponível em nenhuma das plataformas de distribuição online como Steam ou GOG, ou seja: resta aos players buscarem cópias de segunda-mão da versão em CD-ROM do jogo.

Um rolê virtual de skate pelo Brasil

A região do MASP, na Avenida Paulista, é um dos mapas personalizados criado por brasileiros - Divulgação/Raphael Papini
A região do MASP, na Avenida Paulista, é um dos mapas personalizados criado por brasileiros
Imagem: Divulgação/Raphael Papini

O Brasil é representado na série (e no mod) com, além do skatista Bob Burnquist, o mapa Rio, inspirado na capital fluminense e originalmente parte do game "Tony Hawk Pro Skater 3". Mas na comunidade do THUG Pro há também brasileiros querendo fazer mapas inspirados em nossa realidade. O responsável pela empreitada é o jovem modder Raphael Papini, o JOOj, que também é modelador chefe em um dos mods brasileiros mais maneiros da história recente, o GTA Brasil.

O primeiro cenário escolhido para ganhar uma versão virtual é um grande conhecido dos skatistas locais: a Avenida Paulista, mais especificamente, a região do MASP, com direito a uma pista de skate no teto do icônico museu projetado por Lina Bo Bardi. O projeto está atualmente em hiato devido à mudança de país do criador, que trocou o Brasil pelo Reino Unido, terra de pistas como South Bank e Stock Well, mas as imagens do que já rolou no desenvolvimento são promissoras.

Raphael conta que anda de skate desde criança, e nessa época sua vontade já era "criar jogos que se passam mais na minha realidade, no lugar de coisas americanas. Sempre achei que o Brasil tem um potencial legal, e deve ser valorizado também no mundo dos games". Já envolvido no mundo dos mods, ele teve a ideia veio no ano passado, enquanto andava de skate com um amigo. "Um dia fiquei pensando, 'por que não criar conteúdo de skate no Brasil em games?'", diz. Para isso, conta com a ajuda da comunidade do THPSX, onde tira suas dúvidas.

Antes de sair do Brasil eu estava morando na Baixada Santista, lá vi que o Chorão é como se fosse um Deus pra eles, então acabei conhecendo mais a história
Raphael Papini, modder que recria a Avenida Paulista no game

Além dos mapas, a ideia é levar pro jogo também alguns ícones do esporte no Brasil, como Luan de Oliveira, Thiago Lemos e Chorão. Sim, Chorão, o vocalista da banda Charlie Brown Jr, conhecido por sua relação com o esporte. "Antes de sair do Brasil eu estava morando na Baixada Santista, lá vi que o Chorão é como se fosse um Deus pra eles, então acabei conhecendo mais a história", explica Rafael.

Façanhas da arquitetura: nada como colcoar uma pista de skate no teto do MASP - Divulgação/Raphael Papini
Façanhas da arquitetura: nada como colcoar uma pista de skate no teto do MASP
Imagem: Divulgação/Raphael Papini

Cultura participativa

Para o professor do curso de estudos de mídia e da pós-graduação em Comunicação da UFF José Messias, essas comunidades onlines dedicadas a mods são um exemplo de cultura participativa, onde os jogadores, altamente motivados, encontram pessoas com os mesmos interesses e acesso a ferramentas técnicas e tutoriais. "O sentimento de nostalgia por produtos culturais de outras épocas tidas como superiores e uma geração atual de games cada vez mais restritiva do ponto de vista econômico e da jogabilidade, com práticas como o chamado 'pay to win', a obrigatoriedade de atualização online ou mesmo mecânicas ruins fazem com que esses usuários tecnologicamente capacitados e insatisfeitos busquem modificar os produtos culturais ou até criar formas de entretenimento a partir desses interesses", analisa Messias.

As misturas exóticas de personagens e cenários também estão ligadas a essa cultura. "Esses jogadores justamente por não estarem presos a nenhuma obrigação contratual podem brincar livremente com esses conteúdos. A cultura da participação é a cultura do remix, como dizem os autores da área". Para ele, essas referências já faziam parte do entretenimento, em episódios de Simpsons ou no cinema de Quentin Tarantino, por exemplo, o que muda aqui é que os próprios fãs podem criar os produtos e misturar seus diferentes fandoms.

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