Topo

Radar


Criadores do jogo "Fake News" usaram a família como cobaia

Fake News estava exposto no BIG Festival 2019 - André Lucas/UOL
Fake News estava exposto no BIG Festival 2019 Imagem: André Lucas/UOL

Bruno Izidro

Do START, em São Paulo

28/06/2019 10h00

Adler Castro é um dos criadores de "Fake News". Não, não dos boatos e notícias falsas que são compartilhadas no WhatsApp da família, mas de "Fake News! Isto não é um jogo", game mobile que pode ser jogado no BIG Festival 2019, evento de jogos independentes que rola em São Paulo até o próximo domingo (30).

Apesar de Adler considerar a criação uma "coletânea de pequenas narrativas", ele é, sim, um jogo. Tanto que está concorrendo aos prêmios de Melhor Jogo Brasileiro e Melhor Jogo Educacional no festival.

O game lembra o aplicativo de relacionamentos Tinder, mas aqui o resultado do match é um compromisso com a verdade: o usuário recebe notícias e desliza para a direita ou esquerda para julgar se são informações verdadeiras ou "fake".

O jogo foi desenvolvido por Adler e o Patada! Studios, de Belo Horizonte. O desenvolvedor conversou com o START durante o BIG Festival, e jurou que tudo o que disse a seguir é a mais pura verdade.

START - Como surgiu o jogo Fake News?

Adler Castro (direita) e Marcelo Gomes, do Patada! Studios - André Lucas/UOL
Adler Castro (direita) e Marcelo Gomes, do Patada! Studios
Imagem: André Lucas/UOL
Adler Castro: A gente fez o jogo em um hackathon (maratona de desenvolvimento de aplicativos e outros programas, incluindo games) da Controladoria Geral da União em parceria com o Sebrae, lá em BH, com o tema de soluções para educação, cidadania e análise de corrupção.

Pensando nisso, a gente decidiu fazer uma coisa diferente, porque todo mundo iria fazer (um aplicativo) sobre corrupção. Então, a gente pensou em fazer algo mais relacionado ao hoje que tá afetando a gente. Tinha acabado de acontecer as eleições, e todo mundo tinha um grupo da família no WhatsApp com notícias falsas sendo compartilhadas por tio, irmão, primo. Por isso criamos um jogo para sensibilizar as pessoas sobre essas notícias falsas.

A gente não esperava que o jogo iria ganhar todo esse alcance, porque criamos algo bem mais experimental do que estávamos acostumados, tanto que ele não tem apelo comercial no mercado mobile, e a nossa ideia é vendê-lo como uma plataforma personalizada para instituições de governo, escolas e grupos de mídia.

Por que decidiram fazer um jogo que parece Tinder?

Adler: Desde o início queríamos fazer um jogo para a tia, o avô, o parente que tá mexendo no WhatsApp. Queríamos criar uma experiência que viesse daquilo, e o básico de manuseio de um celular é deslizar a tela para os lados.

A gente viu dando certo no Tinder ou no (jogo mobile) "Reigns", e usamos isso como referência principal. Então a ideia é que a pessoa está lendo a notícia como se fosse uma mensagem de WhatsApp e desliza para um lado ou para outro para interagir com a história, além de fazer sentido para obrigar o jogador a decidir se compartilha ou não a notícia.

Como os parentes do WhatsApp reagiram ao jogo?

Adler: Eles foram as primeiras cobaias do jogo. Na minha família tinha a galera do Bolsonaro e a galera do PT, e os dois lados estavam compartilhando notícias falsas. O engraçado é que quando jogaram, um grupo ficava acusando o outro.

No final, não surtiu muito efeito porque continuaram compartilhando notícias falsas. A gente até criticava, falava: "vocês não entenderam que têm que pesquisar?" Mas não teve jeito.

Na minha família tinha a galera do Bolsonaro e a galera do PT, e os dois lados estavam compartilhando notícias falsas. O engraçado é que quando jogaram, um grupo ficava acusando o outro.
Adler Castro

"Fake News" apresenta casos sobre saúde e política, e jogador precisa tomar decisões - Reprodução
"Fake News" apresenta casos sobre saúde e política, e jogador precisa tomar decisões
Imagem: Reprodução

O jogo tem um teor político claro, como vocês lidaram com isso?

Adler: A gente teve esse receio quando começamos a criar, todo mundo falando que era uma ferramenta política. A questão é que o hoje é muito mais do que isso, a gente não queria que o pessoal desmerecesse (o jogo) só pelo fato de ser político.

Notícias falsas impactam a nossa sociedade de todos os pontos, muito mais do que ser só político. Por isso a gente tentou não colocar notícias que fossem sobre o tema político, para não criar essa aversão, mas acontecia mesmo assim.

A premissa inicial era ser apolítico, mas não tinha como fugir disso. Então, sempre quando perguntam a gente fala que queríamos mesmo fazer uma diferença, é uma conscientização sobre o tema, fazer as pessoas entenderem e pesquisarem mais antes de sair compartilhando qualquer coisa.

A gente quer mostrar que vale a pena as pessoas perderem um pouco de tempo pesquisando sobre algo, para terem certeza se é falso ou verdadeiro. Essa é a experiência que queremos passar.
Adler Castro

Após o Fake News, você mudou o seu olhar para jogos como algo também político?

Adler: Acho que, como qualquer mídia e qualquer movimento de arte, (o jogo) traz a visão do criador. Então, é difícil falar que é completamente apolítico, independentemente do que está sendo feito.

A questão é que eu acho que tem uma visão ruim, pelo menos no Brasil, de coisas serem políticas, porque no caso de um jogo você está tentando vender para todo mundo. Se você fala que é 100% de direita ou de esquerda, você corta metade do seu público. Então é mais uma questão de marketing.

Quando o jogo será lançado?

Adler: A gente tem interesse de tentar um edital para aumentar o escopo do projeto, porque no momento ele está em alpha, só tem três histórias e não temos como comercializar. Se conseguirmos, poderemos colocar mais funcionalidades e elementos mais complexos, como histórias diárias que o jogador receberia como uma notificação de WhatsApp mesmo. Se não conseguirmos, da forma como tá hoje, a gente lança no final do ano, gratuito, como um experimento.

Radar