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Aos 5 anos, "Angry Birds" prova que grandes sucessos podem vir de fracassos

Pablo Miyazawa

Especial para o UOL

11/12/2014 08h53

Parece até que foi ontem, mas cinco anos se passaram desde que "Angry Birds" surgiu na loja de aplicativos da Apple. Em 11 de dezembro de 2009, a primeira versão do game foi lançada exclusivamente para o iPhone. E foi assim, quase sem querer, que um joguinho casual de apelo infantil se tornou uma das franquias multimídia mais bem sucedidas dos últimos tempos. Bem, na verdade não foi tão sem querer assim.

Foram necessários seis anos e 51 tentativas para a Rovio, um pequeno estúdio de games mobile da Finlândia, finalmente emplacar um sucesso global. E tal proeza não envolveu apenas sorte, mas também um tanto de persistência. Apesar de ter falhado em dezenas de projetos anteriores, a empresa se arriscou ao apostar todas suas últimas fichas em “Angry Birds”. Uma dezena de continuações e dois bilhões de downloads depois, dá para afirmar que a Rovio conseguiu acertar em cheio no alvo, com a precisão cirúrgica de uma caprichada estilingada.

Mesmo a essa altura da brincadeira, vale a pena explicar do que se trata o jogo. Em uma ilha paradisíaca, porcos inescrupulosos se divertem roubando ovos de passarinhos carrancudos. Buscando vingança, as aves partem para o ataque em investidas suicidas. E por não serem dotadas de asas, elas se utilizam de estilingues para voar. Enredo simplório à parte, “Angry Birds” é basicamente um exercício de física: o jogador desliza a ponta do dedo na tela sensível para ajustar a trajetória e a força do “tiro”. Destruir todos os suínos conduz a uma nova fase, e assim a experiência segue, quase que infinitamente. É tão intuitivo quanto genial, e tão viciante que se alastrou organicamente pelo mundo, arrebatando todos os tipos de público e faixas-etárias.

Não que alguém pudesse prever esse fenômeno. Quem em sã consciência imaginaria o sucesso de um game ambientado em uma ensolarada ilha nos trópicos que foi produzido em uma cidade cinzenta e gelada na Finlândia?

  • Divulgação

    Com mecânica fácil e envolvente, "Angry Birds" se lançou contra os porquinhos - e para o topo da loja de aplicativos da Apple - em pouco tempo

O jogo certo na hora certa

As pistas de um futuro brilhante ainda não eram evidentes quando a Rovio foi fundada (então com o nome Relude) em 2003, a partir da iniciativa dos primos Niklas e Mikael Hed. Kaj, o pai de Mikael, era um investidor com experiência em start-ups e aceitou investir 1 milhão de euros na empreitada familiar. Como acontece frequentemente no mundo da tecnologia, as expectativas eram maiores do que a realidade conseguia cumprir. Os primeiros anos foram difíceis, com projetos naufragados, contas no vermelho e o encolhimento de uma equipe já minúscula. No início de 2009, havia sérias chances de a empresa decretar falência e encerrar as atividades.

Foi nesse contexto empresarial desesperador que “Angry Birds” pousou na loja virtual da Apple --era “apenas” o 52º game lançado pela Rovio. O tão almejado sucesso foi se construindo aos poucos e se consolidou em definitivo seis meses após a estreia. Desde então, nada mais foi como antes. O impacto foi tamanho que transformou em definitivo a natureza inicial da companhia: de mera criadora de diversões mobile, tornou-se um avassalador conglomerado de entretenimento de alcance global, sempre ligado ao tema de seu título mais famoso. Ou seja, o negócio ainda era joguinhos, mas não mais só isso.

Será que o sucesso teria vindo antes, caso as decisões tomadas pela Rovio fossem diferentes? É impossível saber, mas dá para imaginar que não. Se a empresa precisou errar muito até acertar, é porque ainda não estava apta a criar um jogo tão impactante. E sem as ferramentas tecnológicas adequadas à disposição (no caso, o iPhone), o público consumidor não estava preparado para abraçar a causa dos passarinhos vingativos com tanta paixão. Ou seja, o sucesso de “Angry Birds” só aconteceu porque era a hora certa para acontecer.

"ANGRY BIRDS STAR WARS"É O 1º CROSSOVER DA SÉRIE

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Maior que Mario e Mickey?

Já faz tempo que os Angry Birds saíram do espectro virtual e invadiram literalmente o mundo real. Hoje eles estampam mais de 30 mil produtos consumíveis, entre brinquedos, pelúcias, material escolar, bebidas, peças de vestuário e outras bugigangas. Nas lojas, é mais fácil encontrar as aves mal-humoradas nas prateleiras do que qualquer produto decorado pelo Super Mario. Também há Angry Birds em livros e revistas, parques temáticos e programas de TV. Um longa de animação para os cinemas está previsto para 2016. Não surpreende o fato de quase metade dos rendimentos da Rovio ser gerada por esse mercado que vai muito além dos games.

E por falar em Super Mario, o mais famoso personagem do entretenimento eletrônico é uma óbvia referência quando analisamos a estratégia da Rovio para capitalizar em cima de suas criaturas. “Para falar a verdade, a maneira como a Nintendo desenvolveu a marca Super Mario é muito parecida com a forma como fizemos 'Angry Birds' crescer”, confirma Peter Vesterbacka, diretor de marketing da Rovio, em entrevista ao UOL Jogos. “Nos anos 1980 e 1990, eles tinham produtos de todos os tipos com as marcas do Mario, desde brinquedos até animações. O mesmo, claro, vale para a Disney com o Mickey Mouse no século passado.”

Para Vesterbacka (que prefere atender pelo apelido Mighty Eagle, ou “águia poderosa”), o ambiente em que “Angry Birds” se desenvolve atualmente é mais favorável ao surgimento de uma febre multimídia. “A diferença entre Super Mario, Mickey Mouse e os Angry Birds é que nós já trabalhamos em um mundo totalmente conectado, em que fazer uma marca crescer é muito mais fácil”, explica. “Antigamente, era preciso se preocupar com o número de unidades de um jogo que você produzia. Hoje, com a distribuição digital, isso não é um problema. Auxiliados por um mundo muito mais conectado e com uma série de tecnologias trabalhando a nosso favor, conseguimos nos tornar uma marca grande mais rápido do que esses outros exemplos.”

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    No Brasil, o sucesso de "Angry Birds" rende até parques temáticos em shopping centers

Atualmente, os Angry Birds estão consolidados, são onipresentes na cultura pop e detém uma popularidade inabalável. Mas será que irão resistir à passagem de tempo? Em um futuro não muito distante, será que os carismáticos passarinhos vão integrar o seleto grupo dos personagens eternos do qual Mario e Mickey já fazem parte? A Rovio acredita que sim –-mesmo que esse não seja o objetivo principal da empreitada.

“Sim, acho que é possível que os Angry Birds se tornem maiores que o Mario. Mas, para ser sincero, não é nisso que nos focamos na Rovio”, despista o executivo. “Nosso objetivo é apenas entregar experiências legais para nossos fãs, que eles se divirtam. Queremos que 'Angry Birds' seja uma marca que se torne parte da cultura popular e que continue existindo por décadas. Mas que não necessariamente seja maior do que o Mickey ou o Mario.”

A modéstia de Vesterbacka pode até ser sincera. Mas, se os Angry Birds eventualmente se tornarem maiores do que os ícones veteranos, ninguém poderá dizer que foi pego de surpresa.

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