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Brasileiros contam como é estudar na DigiPen, escola de games dos EUA

Théo Azevedo

Do UOL, em São Paulo

16/04/2014 14h57

Você deixaria família e amigos para trás e investiria suas economias para mudar de país e estudar desenvolvimento de games na mais tradicional faculdade do setor? Foi o que quatro brasileiros fizeram em busca de um sonho: colocar no currículo a DigiPen, que fica em Redmond, no estado de Washington, Estados Unidos.

Com cerca de mil estudantes nos dias atuais, a DigiPen vem formando desde 1988 um sem número de profissionais que atuaram em, literalmente, milhares de jogos (veja mais informações sobre a universidade no box abaixo). A faculdade possui um índice de contratação de 80% dos profissionais pelo mercado cerca de um ano após a conclusão de um dos cursos oferecidos.

Conheça a historia de quatro brasileiros que passaram pela DigiPen. Eles falam sobre os altos e baixos dos cursos, das desistências que acontecem no meio do caminho e os desafios que enfrentaram:

Acervo pessoal

Paulo Lafeta
28 anos, Belo Horizonte (MG)

Cursou Mestrado em Ciências da Computação

"Conheci a DigiPen quando eu tinha apenas 12 anos, em uma matéria na revista Nintendo World. Na época tive um certo pressentimento de que um dia estudaria lá. Sempre quis trabalhar com jogos. Só não sabia como.

Descobri minha aptidão para tecnologia e ciências exatas e decidi estudar Ciência da Computação, na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Prestes a me formar, queria aprofundar mais os estudos e, ao mesmo tempo, encarar novos desafios. Disso surgiu a ideia de fazer um mestrado com foco na área de jogos fora do país. Corri atrás de toda a documentação, papelada e fiz o processo de seleção em três faculdades, mas escolhi a DigiPen por ser uma das melhores e mais tradicionais escolas do ramo. Além da cidade de Seattle ser linda, fica perto de grandes estúdios como Microsoft, Nintendo, Valve, Bungie etc.

Isso é DigiPen

• Fundada em 1988;
• A sede fica em Redmond, no estado de Washington, mas há filiais em Singapura e Espanha (Bilbao);
• Possui 1.029 estudantes;
• 11% dos estudantes vêm de 58 países que não os EUA;
• Cursos mais procurados: Ciência da Computação: Simulação Interativa em Tempo Real, Game Design e Belas-Artes - Artes Digitais;
• Milhares de games da indústria tiveram envolvimento de estudantes da DigiPen;
• Professores, muitos deles com PhD, vêm de empresas como Disney, Microsoft, Nintendo, PopCap, Atari, Sucker Punch Studios, Activision e Pixar.

Tive que deixar pessoas queridas no Brasil, vender meu carro e recomeçar a vida do zero. No início dividia um apartamento pequeno com outros três americanos e tive que fazer novos documentos. Havia também a barreira inicial da língua. Não foi fácil, mas o desafio é o que nos move. Fiz novos amigos e tudo foi se ajeitando.

A DigiPen contrata professores da indústria de jogos e eles exigem bastante dos alunos nos trabalhos, projetos e provas, o que acaba simulando um ambiente de empresas de desenvolvimento de jogos. Os alunos aprendem a lidar com situações difíceis e descobrem como explorar seus talentos e qualidades. Por outro lado muita gente acaba não terminando o curso por causa da dificuldade ou por não se adaptar à área que achava gostar.

Após completar o mestrado conheci Ryan Payton, que trabalhou na Kojima Productions e na 343 Industries. Na época ele estava fundando o seu novo estúdio, Camouflaj. Trabalhamos juntos em um protótipo do qual nasceu o bem recebido “République”. Voltei ao Brasil há pouco tempo, após quase cinco anos fora e tenho um projeto em paralelo com a Camouflaj."

Acervo pessoal

Victor Cecci
22 anos, São Paulo (SP)

Está cursando o último semestre do Bacharelado em Ciência da Computação e Game Design

"Como muitas crianças e jovens, passei incontáveis horas jogando videogame. No colegial me interessei mais a fundo e comecei a aprender programação por conta própria. Quando chegou a hora de escolher uma faculdade eu tive muitas dúvidas, mas escolhi o curso de Tecnologia e Mídias Digitais na PUC-SP.

Decidi levar o que até então era um hobby a sério e busquei aprender o máximo possível sobre a área, o que me levou à DigiPen. Felizmente meus pais puderam me dar essa oportunidade e eu decidi aproveitá-la.

No começo tive minhas incertezas: deixar família e amigos e mudar para um cotidiano completamente novo. Acabou não sendo tão difícil assim, pois tenho muito em comum com os colegas que fiz na faculdade.

Quanto custa?

Para o ano acadêmico de 2014-15, estudantes estrangeiros pagam US$ 14.935 (R$ 33.408) por 16-22 créditos por semestre (estudantes normalmente pegam 18-21 créditos). Ao todo, são aproximadamente US$ 29.870 (R$ 66.817) por ano e cerca de US$ 10.754 (R$ 24.056) por moradia e alimentação.

Como o curso foi criado recentemente, teve seus altos e baixos: algumas matérias se mostraram mais relevantes que outras. A melhor parte são as constantes matérias que estimulam os alunos a formarem grupos e a trabalharem em um projeto de jogo durante um ano.

Aprendemos em primeira mão a resolver problemas por conta própria e a trabalhar com pessoas de outras disciplinas. Essa experiência e os contatos que você faz lá dentro são os dois fatores que mais ajudam na hora de conseguir um emprego; ter o diploma é bom, mas as empresas querem ver e ouvir sobre os projetos que você trabalhou, o processo que usou para fazê-lo, dificuldades que encontrou no caminho etc.

Com a perspectiva de estar formado em apenas algumas semanas, quero conquistar um trabalho na indústria. Tem sido algo novo e difícil pra mim, especialmente como game designer, mas estou confiante e me sinto preparado. O percentual de alunos que conseguem emprego dentro de um ano após se formarem é alto – algo em torno de 80%, dependendo da disciplina -, mas vagas nas grandes empresas são bastante concorridas.

Conheci muitos colegas que tiveram histórias diferentes: a verdade é que fazer jogos, por mais divertido que seja, envolve bastante estudo e trabalho duro. Da minha turma original, de 30 pessoas apenas três de nós vamos nos formar nos quatro anos previstos; os outros desistiram, ficaram pra trás em matérias ou mudaram de curso."

Acervo pessoal

Francisco Aliberti
30 anos, São Paulo (SP)

Cursou Bacharelado em Belas-Artes - Artes Digitais e agora faz o Mestrado em Artes Digitais

"Sou um Character Artist, ou Designer de Personagens. Cheguei na DigiPen em 2010 para o Bacharelado de Belas Artes em Artes Digitais e dois anos depois comecei o Mestrado de Belas Artes em Artes Digitais.

Sempre fui muito apaixonado por videogames e, desde criança, gostava de desenhar. Meus pais me incentivavam a seguir uma carreira artística. Achei que trabalhar com games exigia saber programar, então optei por fazer Administração de Empresas, mesmo infeliz com o curso.

Por volta de 2008, descobri que a DigiPen não tinha somente um curso de programação, mas também de engenharia e de artes. Tive uma epifania: ou vou agora ou nunca irei. Tinha 26 anos e estava absolutamente infeliz com minha vida. Tinha o apoio de meus pais e esposa, que na época era minha namorada. Se tudo desse errado, o diploma em Administração era uma segurança.

Quer estudar lá?

a) Preencha o formulário online clicando aqui;
b) Envie toda a lista de documentos e informações exigidos pela Digipen. Veja a lista aqui;
c) Feito o envio do formulário e dos documentos, a DigiPen leva de duas a quatro semanas para dar um feedback ao candidato;
d) Em caso de dúvidas, há o e-mail admissions@digipen.edu e o Skype "digipen.admissions", no qual um representante da faculdade fica à disposição às terças e sextas-feiras em determinados horários.

A vida aqui não é brincadeira: durante o ano letivo não existe fim de semana livre. Passo 80 horas por semana dentro do campus, entre aulas, tarefas e meu emprego como professor-assistente. A intenção do curso é justamente a imersão: você passa a respirar desenvolvimento de jogos, em um ambiente muito similar à indústria. Esse tipo de repetição intensiva servia de lição para os artistas jovens de que eles precisam se desprender de sua arte. Você logo aprende que o traço que você põe no papel não é importante. O preciosismo sai pela janela e dá lugar a uma honesta discussão de como eu posso aprender arte. A grade inclui anatomia, composição, perspectiva, animação e história do cinema etc.

O custo de vida em Redmond é alto e a faculdade também não é barata. Se você não tem a ajuda da família, a única solução seria uma bolsa de estudos, que são raras para estrangeiros. No início resolvi procurar emprego e, por ser de fora, só podia trabalhar na DigiPen. A única vaga era na cozinha, mas não me importei. Estava disposto a qualquer coisa para realizar meu sonho. Trabalhava em torno de 15 a 20 horas por semana lavando pratos. Não demorou muito e consegui um emprego como professor-assistente, que continua até hoje.

Estudar na DigiPen mudou minha vida: hoje sou uma pessoa completamente diferente. Viver num ambiente tão diversificado, com várias nacionalidades, preferências sexuais e diferentes opiniões, me tornou mais tolerante. Estar imerso em algo pelo qual você é apaixonado é algo muito gratificante."

Acervo pessoal

Marcos Gomes
25 anos, Salvador (BA)

Cursou Bacharelado em Belas-Artes - Artes Digitais

"Sempre quis trabalhar com videogames, mas não sabia que existiam escolas especializadas. Quando estava no ensino médio, um amigo meu me falou sobre a DigiPen. Ele disse que gostaria de ir pra lá, mas desistiu quando soube que os alunos passavam o dia inteiro fazendo cálculos. Resolvei investigar e descobri a escola também oferecia o curso de Artes.

Troquei e-mails com a DigiPen sobre o processo de aplicação e requerimentos para estudantes internacionais. No ultimo ano do ensino médio viajei para os EUA e visitei o campus. No ano seguinte, após trabalhar no meu portfólio, fui aceito.

O maior sacrifício foi deixar família e amigos pra trás, além de trocar o clima agradável de Salvador pelo frio de Washington. Os quatro anos da Digipen foram árduos, lotados de dever de casa e trabalhos toda semana, mas eu aprendi muita coisa enquanto estava lá. Além disso, a escola me ajudou a conseguir meu emprego atual, como artista na Nintendo, com a qual a Digipen tem proximidade.

Dentre as escolas de animação e jogos, eu diria que a DigiPen é média em termos de mensalidade. Não chega a ser a mais cara, mas também não é a mais barata. O curso total fica em torno de U$ 100.000,00 pelos quatro anos. Alunos internacionais, infelizmente, pagam 15% a mais. Há ainda os materiais escolares e os softwares: os livros e materiais de arte são um pouco salgados, mas não são muitos. Os softwares são caros, mas há versões de estudante para vários deles, e a escola disponibiliza vários laboratórios com computadores para os alunos fazerem suas tarefas.

O foco do curso de Artes é voltado para a produção de jogos e animação, mas com uma carga forte de fundamentos em arte tradicional. Meu trabalho na Nintendo é muito interessante: durante a escola, me dediquei à modelagem 3D, então quando eu comecei a trabalhar na empresa, me colocaram pra fazer modelagem low-poly de personagens para um jogo de Nintendo 3DS, "Mario and Donkey Kong: Minis on the Move", mas com o andamento do projeto eu acabei ajudando em varias outras áreas, como criação e pintura de backgrounds, criação de personagens e storyboards.

Atualmente estou no 2º projeto, responsável principalmente pela modelagem e renderização de backgrounds, tendo também modelado personagens, além de ter ajudado com storyboards, criação de personagens e até UI."

  • Divulgação

    Além de Redmond, nos Estados Unidos, a DigiPen possui sucursais na Espanha (à esquerda) e em Singapura (à direita)