PUBLICIDADE

Topo

Raquel Motta

Season: do épico ao corriqueiro

Season - Divulgação/Scavengers Studio
Season Imagem: Divulgação/Scavengers Studio
Raquel Motta

Raquel Motta é desenvolvedora de jogos e fundadora da Sue The Real, estúdio de jogos focado em narrativas afro-brasileiras. Apaixonada por animais, plantas, entusiasta da área de finanças e nas horas vagas chef de Overcooked. Raquel se dedica a concluir o Jogo Aya e seu lindo black power, e sua maior ambição é ver a palavra do Jogo One Beat Min ser espalhada pelo mundo.

Colunista do UOL

22/12/2020 09h00

UM ANO DIFÍCIL

Em 2020 o The Game Awards pode ser lembrado como o ano em que The Last of II levou 7 premiações (incluindo a Melhor Game do Ano) mesmo em torno de grandes polêmicas sobre representatividade da comunidade LGBT, ou que Hades, um jogo independente, foi indicado a 7 premiações, incluindo Melhor Game do ano, levando duas outras (Melhor jogo de Ação e Melhor Jogo Indie).

Além das premiações muitas pessoas vibraram com anúncios como Crimson Desert, Sephiroth em Super Smash Bros, uma sequência de Mass Effect, Dragon Age e Ark.

Para um ano de pandemia ter todas essas promessas de novos jogos foram revigorantes. Contudo, mesmo ficando empolgada com muitos desses anúncios, nada de perto me cativou como Season.

COLOCANDO MEU CORRIQUEIRO PRA JOGO

Uma grande amiga, Tainá Felix fundadora do estúdio Game & Arte em conjunto do Jaderson Souza, uma vez me disse que estava buscando coisas corriqueiras para criar jogos, principalmente porque esse extraordinário, épico e heróico, muito presente em conto medievais, inundados pela Jornada do Herói de Joseph Campbell, ainda não nos contemplavam dentro dos jogos que já existem.

Escutar essas sábias palavras me fez pensar como essa grande quantidade de jogos com temática medieval dão a possibilidade de um grupo especifico (geralmente europeu e norte americano) experienciar parte de uma memória coletiva cultural, que passa de avó para filho, neto para bisneto e de alguma forma abre a possibilidade dessas pessoas dizerem: " Meu ancestral nasceu na região X e lutou como um cavaleiro medieval!" ou até mesmo, "tenho a receita da minha família com mais de 200 anos" e principalmente "meu sobrenome vem da linhagem X!".

Essas memórias culturais coletivas de um passado remoto, pra uma grande parte da população no Brasil simplesmente não existe. Somos um país formado por 56% da população negra, segundo o PNAD, IBGE de 2019. Estimam que, durante o período de escravidão, mais de 4,9 milhões de escravizados foram trazidos de forma brutal para o Brasil. Nós nos tornamos assim o maior país com população negra fora do continente africano.

Com o decorrer dos anos em escravidão a população negra viu e vivenciou efeitos práticos da perca das suas ancestralidades, desde seus nomes africanos sendo tirados, a imposição da religião cristã e também a desumanização para a construção de uma justificativa da escravidão. No final, nos restou resquícios de um passado que foi destruído propositalmente com o objetivo de que não construíssemos uma identidade de origem.

Season game - Divulgação/Scavengers Studios - Divulgação/Scavengers Studios
Imagem: Divulgação/Scavengers Studios

O QUE, DE FORMA PRÁTICA, ISSO TEM LIGAÇÃO COM OS JOGOS?

Como pessoas negras, nós sempre experienciamos essas narrativas sem trocar muito com o espaço de identificação de protagonismo histórico, ou seja, é sempre a história do outro. Também existe o problema de que, sempre que existem personagens negros(as), muitos deles foram constituídos por pessoas que não fazem parte desse grupo étnico racial, o que muitas vezes reforçam ainda mais esteriótipos.

Os resultados dessa ausência em jogos é uma constante sensação de distância. Imagine não identificar nenhum personagem negro(a) nos seus jogos favoritos, mas conseguir encontrar uma vasta referência de imagens de pessoas negras escravizadas nas séries e livros produzidos nacionalmente.

Jogos sempre nos deram a possibilidade de conhecer outras culturas, mas por qual motivo sempre vemos personagens negros nos mesmos papéis, como vilões, membros de gangues, npcs com frases genéricas, isso quando estão presentes nos jogos.

Deixo o questionamento: Por quanto tempo vamos ter que esperar para ter uma imagem descolada e divertida de Kemet e da cultura Iorubá, assim como tempos dos Samurais e do Vikings?

Por quanto tempo vamos ter que esperar para nos relacionarmos com os jogos da mesma forma que outros povos já estão presentes nessas mídias?

Season - Divulgação/Scavengers Studios - Divulgação/Scavengers Studios
Imagem: Divulgação/Scavengers Studios

SEASON

Season nos apresenta uma mulher negra que está numa jornada de descoberta de tesouros esquecidos. Esses tesouros parecem ser histórias ancestrais e sua missão é documentar, desenhar, fotografar para compor a interpretação da personagem sobre esses artefatos.

A premissa é bem simples, num jogo de terceira pessoa em mundo aberto você tem a companhia da sua bicicleta, uma companheira para momentos solitários. Até o agora não temos ao certo como as interações poderão acontecer no jogo, mas desde já sabemos que será um jogo poético e introspectivo, cheio de paisagens lindas e artefatos para serem coletados.

Season - Divulgação/Scavengers Studios - Divulgação/Scavengers Studios
Imagem: Divulgação/Scavengers Studios

A minha percepção sobre a grandiosidade da obra, sem dúvida se mistura a vontade de querer ver e estar no mundo de Season.

Em Season, a personagem que está em busca do passado e essa também é uma missão minha

Estou feliz pela oportunidade de jogar esse incrível jogo, porque sinto que encontrarei lá o épico no corriqueiro.