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Discurso de brTT no Prêmio CBLOL é recado necessário nos Esports

brTT Prêmio CBLOL 2021 - Bruno Alvares/Riot Games
brTT Prêmio CBLOL 2021 Imagem: Bruno Alvares/Riot Games
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Leo Bianchi

Leo Bianchi é jornalista, já foi repórter e apresentador do Globo Esporte. É apaixonado por competição e já cobriu Copa do Mundo, Fórmula 1, UFC e mundiais de CS:GO, R6, FIFA, Just Dance e Free Fire. Também é youtuber e pro-player frustrado. No GGWP você encontra análise dos cenários competitivos no Brasil e no mundo, além dos bastidores do universo envolvendo times, jogadores e novidades em geral.

Colunista do UOL

26/11/2021 04h00

"Eu acordava e não tinha um propósito. Não tinha mais força, energia, alguma coisa que me motivasse para a competição. Mesmo assim eu continuava indo para o treino, jogando o campeonato, porque eu não sabia como parar. Quando a pessoa se encontra no fundo do poço, ela se isola mais e mais e não sabe como pedir ajuda. Isso refletiu muito no meu rendimento, nos treinos, no campeonato. Eu perdia a paciência muito fácil"

O trecho acima, de significado denso e com um relato sincero, pertence a um discurso feito na última terça-feira, pelo maior jogador de League of Legends da história brasileira. Felipe "brTT" Gonçalves abriu o coração ao anunciar uma pausa na carreira, iniciada em 2012, justamente quando foi lançado o CBLOL, durante a premiação dos melhores de 2021. Acima de tudo, o pro player levantou um ponto importantíssimo para qualquer Esporte: a importância da saúde mental.

Ao longo de nove minutos, logo após receber o prêmio de Craque da Galera das mãos de Neto (um golaço de mídia a escolha do ídolo corinthiano, aliás), único de votação popular no evento produzido pela Riot Games, brTT discursou ao longo de nove minutos, citando dificuldades como o término de um relacionamento de oito anos e a distância do estúdio do CBLOL, por conta da pandemia do coronavírus, para contextualizar sua pausa. Foi sincero e jogou limpo com os fãs que o colocaram naquele palco. Foi humano.

O ponto é: brTT foi campeão neste ano, com a paiN Gaming. Conquistou o sexto título da carreira, que o tornou o maior vencedor da história do CBLOL, acima de qualquer organização. Ainda assim, admitiu as dificuldades que o atrapalharam e decidiu chegar à medida extrema de parar de jogar por um tempo para recolocar a cabeça no lugar. Sim: é idolo de milhares, referência para os jovens, muito bem sucedido... E precisou parar.

É desnecessário citar aqui que o trabalho psicológico em qualquer instância esportiva deve ser considerado uma obrigação. A saúde mental é tão importante quanto a física - e a fala de brTT, corajosa e franca, reforça isso no mais alto patamar. A rotina de treinos é dura. O peso da liderança, das cobranças, críticas... Tudo foi resumido pelo atleta em palavras-chave como "estresse" e "cansaço mental", citando que encontrou um novo propósito em áreas como a prática de boxe e o trabalho na música.

A idealização de qualquer posto, cargo ou estilo de vida se prova ainda mais controversa após o discurso de brTT. O clichê sobre "E a vida fora dos Stories, como está?" parece óbvio, mas é necessário. De fato, as redes sociais e as conclusões rasas nada dizem sobre como os profissionais estão. Não há uma equação que defina o que é felicidade e satisfação - ainda que, no Esporte, isso pareça simplesmente uma soma de conquistas coletivas e individuais.

É de suma importância que alguém do tamanho de brTT dê a cara a tapa e, publicamente, assuma um lado que muitos não imaginam. É muito simplista e raso analisar o Esporte e quem o compõe achando que basta vencer para atingir a plenitude. O sacrifício imposto pelo profissionalismo é enorme. E, se há um jogador que já viveu todas as experiências possíveis nesse sentido, é justamente ele.

O cenário competitivo como um todo ganha diversos aprendizados quando ídolos do calibre de brTT provam, por A+B, que, no fundo, atletas também precisam ser analisados como pessoas, e não máquinas. Que os fãs ouçam a palavra do pro player e saibam que todos têm altos e baixos, todos têm momentos difíceis, independentemente do número de vitórias. E, pode ter certeza: está tudo bem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL