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Buxexa e Hastad: eSports têm chance e obrigação de combater o preconceito

eSports - Bruno Alvares/Riot Games
eSports Imagem: Bruno Alvares/Riot Games
Leo Bianchi

Leo Bianchi é jornalista, já foi repórter e apresentador do Globo Esporte. É apaixonado por competição e já cobriu Copa do Mundo, Fórmula 1, UFC e mundiais de CS:GO, R6, FIFA, Just Dance e Free Fire. Também é youtuber e pro-player frustrado. No GGWP você encontra análise dos cenários competitivos no Brasil e no mundo, além dos bastidores do universo envolvendo times, jogadores e novidades em geral.

Colunista do UOL

23/06/2021 04h00

Dois casos chamaram a atenção no cenário de esportes eletrônicos na última semana. De um lado, o streamer Hernan "hastad", que gerou indignação com um comentário racista durante uma stream. De outro, Pedro "Buxexa", influenciador de Free Fire, responsável por uma fala transfóbica - também durante uma transmissão. Há muitas conclusões em torno de ambos os casos, mas está claro: o ecossistema de eSports ainda tem muito a melhorar neste sentido.

Hastad, que já havia cometido esse mesmo erro há alguns anos, acabou banido da Twitch, plataforma onde cresceu criando conteúdo de League of Legends e na qual vinha se dedicando ao VALORANT nos últimos tempos. Ele chegou a jogar o Challengers Brazil pela SLICK, organização da qual foi suspenso por tempo indeterminado. Também perdeu patrocínios e, obviamente, foi alvo de diversas críticas pela postura inaceitável.

Buxexa, por sua vez, foi desligado do Fluxo, organização que é a atual campeã da Liga Brasileira de Free Fire, após comentários transfóbicos sobre a influenciadora Marcella Pantaleão. Além dele, o criador de conteúdo Racha, que participou da stream com Buxexa, também perdeu o contrato com a Booyah!, plataforma oficial da Garena. Graças à enorme repercussão do caso nas redes sociais, essas medidas disciplinares foram tomadas rapidamente, para servir de exemplo.

Embora todos tenham pedido desculpas, será que só isso basta? Será que a comunidade gamer entende sua influência dentro da sociedade e sabe lidar com questões machistas, racistas, homofóbicas, transfóbicas? A julgar pela frequência de exemplos recentes, a resposta objetiva é "não".

Estamos falando de uma audiência jovem que é impactada por essas mensagens. É necessário mudar a consciência desde cedo. Internet não é (e nunca foi, embora muitos ainda achem) terra de ninguém. Estamos em junho de 2021. Se jogadores, influenciadores e criadores de conteúdo ainda precisam de medidas extremas para aprender que não há espaço para preconceito de qualquer tipo, é sinal de que precisamos evoluir demais para chegar a um ponto minimamente aceitável. Injúria racial é crime. Transfobia é crime. Tal postura vai contra tudo que os eSports pregam.

O fato de ser acessível e igual a todos, independentemente de idade, gênero, raça, classe social ou credo, é o que torna o ambiente dos games tão diferente de outras modalidades esportivas. Portanto, é um dever de todos que trabalham no meio mostrar que esse tipo de exclusão ou humilhação não passará impune. É o barulho das redes sociais enquanto forma de protestos justos.

Além dos fãs, quem sempre estará de olho nisso são as marcas envolvidas. Nenhum tipo de empresa quer correr o risco de estar associada a esse tipo de comportamento. Vemos cada vez mais o ambiente não-endêmico se aproximando dos eSports, e não podemos correr o risco de passar uma imagem desse tipo. Gamers lutaram durante anos e anos justamente para quebrar estereótipos - e não para reforçar ignorância.

Hastad era sócio da equipe e foi afastado mesmo assim. No caso do Fluxo, Nobru e Cerol são amigos pessoais de Buxexa e Racha. Mas não tiveram escolha e romperam o contrato.

Todas as equipes de eSports sabem que atos preconceituosos podem causar rompimento de contrato com patrocinadores e isso causa prejuízo financeiro. Os jogadores e influenciadores também sabem que posturas tóxicas podem significar fim de carreira. Se é tão óbvio e todo mundo sabe disso, por que ainda acontece? Falta educação!

O eSport é apenas um recorte da falta de tolerância e empatia no que vivemos no Brasil. São dias tenebrosos. É preciso agir, punir, ensinar, educar e mudar esse jogo! Jogadores, organizações e publishers precisam entender que têm um poder gigantesco em mãos. É necessário, cada vez que uma equipe contrata alguém, deixar muito claro os valores da organização e o tipo de postura esperada. Vai muito além de punição. É necessário prevenção e aprendizado. Reforçar o que é positivo e combater veementemente o que é negativo. Os eSports devem ser a casa de minorias.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL