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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Combater homofobia no eSport é uma forma de educar

Leo Bianchi

Leo Bianchi é jornalista, já foi repórter e apresentador do Globo Esporte. É apaixonado por competição e já cobriu Copa do Mundo, Fórmula 1, UFC e mundiais de CS:GO, R6, FIFA, Just Dance e Free Fire. Também é youtuber e pro-player frustrado. No GGWP você encontra análise dos cenários competitivos no Brasil e no mundo, além dos bastidores do universo envolvendo times, jogadores e novidades em geral.

Colunista do UOL

23/02/2021 09h00

Anúncios de novos personagens em games que são esportes eletrônicos costumam gerar uma repercussão enorme. Quais os atributos e habilidades? Em que função funciona melhor? Como ele se encaixará no meta? Ao longo da última semana, porém, uma ação louvável da Ubisoft para o Rainbow Six Siege, se tornou alvo de críticas por parte de usuários tóxicos, homofóbicos e que seguem usando as plataformas online para destilar ódio desnecessário. Flores, o mais novo agente do jogo, é declaradamente gay na história canônica do R6. Sim, por mais inacreditável que pareça, em fevereiro de 2021, há quem veja nisso um problema.

Já falamos aqui no GGWP sobre a representatividade promovida pelo Rainbow Six em diversas frentes. Flores é mais um passo nesse trabalho por parte da publisher. Trata-se de empatia e identificação. Certamente significou e ainda significará muito para os fãs do game que são gays ter ali, na seleção de agentes, um personagem que representa não só uma comunidade, mas a luta por direitos e por um mundo em que a sexualidade deixe de ser um tabu e motivo de ódio.

Em comentários nas redes sociais, o velho discurso lamentável por parte de muitos: que o Rainbow Six quer lacrar, que estão "politizando" o game, que vão dar TK (team killing - ou seja, matar o próprio companheiro de equipe) quando alguém do time escolher o Flores... Infelizmente, a internet acaba criando palco e repercussão para gente assim. Da nossa parte, cabe denunciar e não permitir que pessoas assim tenham relevância.

Temos nessa iniciativa não só um exemplo, mas uma oportunidade. Uma chance de auxiliar na educação dos mais jovens, que têm nos games sua principal forma de entretenimento, mostrando que representatividade é extremamente importante. Mostrando que é necessário respeitar e também se informar sobre sexualidade e gênero. Se ainda temos muitos tabus na sociedade, que eles sejam quebrados da forma com que nos comunicamos de forma igualitária: dentro do servidor.

Se o universo dos esportes eletrônicos muitas vezes está inserido em uma bolha na qual as minorias muitas vezes não tem lugar de fala, cabe às publishers, organizações e todos os os envolvidos neste ecossistema provar que é possível fazer diferente. É simples não sair do lugar e se ater ao conformismo, mas também é um erro. O incentivo a quem se propõe a quebrar a lógica pode se dar de várias formas e está ao alcance de todos.

A resistência encontrada pelos gays no esporte é o reflexo de uma sociedade ignorante, que insiste em se preocupar mais com a vida alheia do que com a própria. No futebol, modalidade mais popular do país, vemos isso diariamente tanto para os jogadores, dentro de campo, quanto nas arquibancadas. Quantos atletas declaradamente gays você conhece? Nos games, temos a chance de fazer diferente, de evoluir, mas estamos bem longe da situação ideal.

Fazer uma brincadeira ironizando a sexualidade do agente Flores não é "só coisa de internet", "só uma piada". Não é brincadeira. Ano após ano, gays sofrem a marginalização preconceituosa e o extremismo de quem não é intelectualmente preparado para entender que não há mais espaço para isso. Tão importante quanto ler patches e atualizações do seu game preferido é estudar para entender melhor o mundo e a lógica que nos cerca. Vamos sair da bolha. Todos os dias.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL