Vida nas ruas e poesia

Aos 68 anos, Eugênio Ramos Gianetti lida com alcoolismo, encontra sua voz na literatura e prepara novo livro

Mauricio Duarte Colaboração para Splash, de São Paulo

Para quem vive nas ruas, o tempo transcorre de outra maneira. Sem ter para onde voltar, é como se o próprio tecido das horas se esgarçasse e não fizesse mais sentido.

Chega um momento em que tanto faz se é dia ou noite, segunda ou sábado. Não faz diferença.

Quem explica é o poeta Eugênio Ramos Gianetti. Aos 68 anos, prestes a publicar seu segundo livro de poesias, vive há 20 entre as ruas do centro de São Paulo e albergues públicos.

Apesar disso, Eugênio é extremamente pontual. Chegou a ir embora de um dos encontros marcados com o repórter, que estava atrasado havia menos de 5 minutos. O que foi um problema, dada a dificuldade de se encontrar com quem não tem residência fixa, nem telefone.

Talvez seja reflexo do relógio de pulso que carrega sempre consigo, ou o fato de estar sóbrio desde abril, quando em meio à pandemia se viu confinado no Centro de Acolhida Especial para Idosos Morada Nova Luz, na Rua Helvétia, ao lado da cracolândia, onde está até hoje.

Meu nome é Eugênio Ramos Gianetti, sou morador de rua e alcoólatra.

Assim começava o e-mail escrito em meados de 2017 pela bibliotecária Luciana Maria Florindo, em nome do poeta, para a editora Patuá, com o intuito de apresentar seu trabalho.

Embora estivesse ocupado com os preparativos do próprio casamento, o editor Eduardo Lacerda leu os poemas e ficou impactado com a qualidade. Mais do que a forte impressão com o modo duro e direto da mensagem, o que chamou a atenção foi a solidariedade envolvida no ato:

Para mim é bonito pensar que uma pessoa se importou com a obra, os poemas de outra pessoa, que tentou ajudá-lo a encontrar uma editora.

Pouco depois, Eugênio apareceu no Patuscada, bar e sede da editora, para conhecer pessoalmente Eduardo.

Sem se identificar, pediu uma dose de vodca e depois de um tempo sacou os poemas. Foi então que o editor se deu conta de quem era. "Eu disse: 'Eu já li esses poemas!' Então naquele dia definimos que eu editaria o livro dele", lembra. Assim veio à luz "Zoobreviver", em 2018.

O primeiro livro

Bibliotecária do SESC Carmo, na Sé, há 16 anos, Luciana acostumou-se a ver aquela figura miúda, de gestos econômicos, com uma longa barba branca e usando chapéu de palha, devorar sistematicamente tudo que era possível de seu acervo.

O primeiro contato partiu dela, curiosa sobre quem seria aquele senhor que praticamente não falava com ninguém. Se os anos na rua ensinaram alguma coisa ao poeta, foi a não confiar nas pessoas. Portanto, no início, ele se mostrou arredio, mas aos poucos criou uma ligação com Luciana.

Só assim criou coragem e mostrou a Luciana um poema que havia escrito. "O poema estava num pequeno pedaço de papel amarrotado, mas logo percebi o potencial", diz. A partir de então, isso se tornou um hábito. E ela se surpreendeu com o quanto sua opinião importava para o poeta. "Todo dia ele me trazia um poema que eu sempre elogiava e, na única vez que eu disse que daquele não tinha gostado muito, ele rasgou e jogou fora imediatamente", relembra.

"Decidi que tinha que fazer algo, porque um talento como o dele não poderia passar despercebido. Perguntei se ele gostaria que eu organizasse aquele material todo e um dia ele trouxe uma pasta lotada com os papéis que ele me mostrava diariamente", completa. Luciana levou tudo para casa, organizou o material e digitou no computador. Quando já tinha o suficiente, enviou para a editora.

Eugênio conta que foi incentivado a ler desde criança, pelos pais. Escrever seriamente, contudo, só começou a partir dos anos 1980. Na época, trabalhava no Centro Educacional Equipe, que chegou a ter uma pequena editora, onde publicou um romance com uma tiragem muito pequena, do qual não há mais nenhum registro. O próprio autor não possui nenhum exemplar. "Depois, nunca mais. Até que veio o 'Zoobreviver'".

No entanto, jamais parou de escrever.

Meu processo de criação é ocasional. Eu anoto coisas quando tenho condições de anotar, e depois vou trabalhando em cima delas. Tenho uma máquina de escrever e o que escrevo nos meus cadernos eu datilografo quando acho que está pronto.

O ano de 2020, porém, foi atípico nesse sentido. A pandemia fez mais do que colocar Eugênio em quarentena.

A ausência de contato com as ruas, com a cidade, deixou-lhe um branco. Segundo ele, seus poemas nascem da observação, e isso lhe foi tirado.

Portanto, passou o ano todo praticamente sem escrever. Usou o tempo para burilar os poemas do próximo livro, "Atoleiro (Tempos de Rua) - Poemas & Anomalias", que sai ainda este ano, novamente pela Patuá.

De acordo com Eugênio, sua próxima obra será um livro mais "violento".

O 'Zoobreviver' é reflexo do momento em que me assentei, um período em que comecei a viver mais tempo fora das ruas, que retomei um pouco do controle. Porque eu ia para abrigos, mas saía, enchia a cara e não podia entrar, então voltava para a rua. Era intermitente. Eu consegui retomar esse controle e voltei para os abrigos. Mas esse outro livro que está na editora agora são poemas que dialogam mais com aquele meu momento em que vivi de fato jogado pelas ruas, meu momento mais tenebroso.

Após a publicação desta reportagem, a editora Patuá decidiu reverter todo o lucro com as vendas de "Zoobreviver" para Eugênio.

'Não tenho endereço, o que me serve como lar fica debaixo de uma marquise'

A imagem do cão nos versos de Eugênio (na imagem) não é fortuita. Quem vive nas ruas, de certa forma, desperta menos empatia nas pessoas do que um animal abandonado.

Eugênio costumava dormir na Rua Anchieta, no centro da cidade, bem em frente ao Pateo do Collegio, local histórico onde foi levantada a primeira construção da atual cidade de São Paulo.

Ainda hoje, essa estreita rua é apinhada de pessoas em situação de rua. "Está pior do que na minha época. Essa gente é invisível para a sociedade", comenta o poeta ao refazer com a reportagem o caminho de tantas noites.

Cada um que está na rua é uma história, sofre as consequências de estar ali. Você vê todo tipo de sofrimento. Você dorme sem saber se vai acordar. Mais de uma vez acordei com gente morta ao meu lado. Era uma surpresa constatar que eu mesmo estava vivo.

Falta de higiene, alimentação precária e exposição constante à violência e às intempéries passaram a fazer parte de seu cotidiano.

Não era apenas violência entre moradores de rua, mas também policial. Vejo isso até hoje, não mudou nada. Vivo ao lado do inferno, vendo as ações na cracolândia. É bomba todo dia. Não resolve nada.

Segundo o poeta, não houve nenhum grande trauma em sua vida que o tenha levado a sair de casa. Passou a infância e a adolescência em Suzano, município da região metropolitana de São Paulo, no seio de uma família estruturada, sendo o mais velho de dois irmãos —no colégio, cursou até o fim do ensino médio.

Já adulto, casado, pai de duas filhas, não percebeu o vício se apoderando de sua vida. Foi apresentado ao álcool ainda na década de 1970 e, de acordo com seus cálculos, na segunda metade dos anos 1990 se tornou um dependente.

"Um passo em falso e perdi o controle da bebida. Aí não tem acordo. Você perde emprego, perde família, nada mais importa". Em 2001, aos 48 anos, saiu de casa para nunca mais voltar.

Atualmente, só tem contato com o irmão mais novo. Das filhas, hoje na faixa dos 40 anos, sabe pouco ou quase nada. "Sei que minha mais nova ficou sabendo quando lancei o livro, porque ela mora em Milão e entrou em contato com meu irmão", diz, disfarçando para esconder o desconforto quando toca nesse assunto.

Perguntado se acha que ela poderia tentar falar com ele após ver esta reportagem, ele desconversa: "Nem penso nisso. A gente perde o vínculo. É muito tempo".

Nem mesmo quando lutou contra a tuberculose, submetido a um tratamento severo, tentou reatar com a família. "A verdade é que nunca me predispus a procurar ajuda. Meu temperamento é esse. Não culpo ninguém".

O poeta diz que a literatura é uma forma também de recuperar o referencial perdido. Uma busca por sua própria história.

Hoje, Eugênio divide um quarto do albergue com mais dois idosos. Mesmo lá, devido a sua quietude, pouca gente sabe que ele escreve. "Ele interage muito pouco, mas é sempre muito cordial. Passa bastante tempo dentro do quarto e, mesmo com seus companheiros ali, quase não tem relação", revela o psicólogo Diego William de Faria Rennó, que trabalha no abrigo.

Dentre os funcionários, Faria Rennó é um dos poucos privilegiados para quem Eugênio mostra o que escreve.

"Faz dois anos que ele frequenta o abrigo e, no último ano, ficou direto por causa da pandemia. Ele não mostra o que escreve para as pessoas daqui. Um dia, ele mesmo me apresentou seu trabalho", conta.

Rennó ressalta ainda que existe uma biblioteca à disposição dos moradores no centro de acolhida, e que o poeta passa boa parte de seus dias por lá.

"Eu não me envolvo com as pessoas. Fico no meu canto. Por esse meu jeito de agir, é natural que os outros moradores não se aproximem tanto", confirma Eugênio.

A memória e os livros perdidos

O material que Eugênio possui hoje, anotações em cadernos e páginas datilografadas, não é muito grande. A maior parte de seu acervo se perdeu. A vida errática não permitiu uma organização dos seus textos. Dormindo na rua, a mochila que fazia as vezes de travesseiro era constantemente roubada. Dentro dela, poemas que nunca leremos.

Já me levaram muita coisa. Morando na rua, perdi a conta de quantas vezes fui assaltado. Você dorme bêbado e acorda bêbado. Se não levarem sua mochila, seria um milagre. Muita coisa ficou pelo caminho.

A memória também não ajuda a recuperar o que foi escrito. Por conta da idade e principalmente da bebida, ela falha frequentemente. Segundo o próprio escritor, ele é muitas vezes incapaz de lembrar coisas que escreveu no dia anterior. Mesmo do livro publicado, é preciso mostrar os textos a ele para refrescar sua memória e poder comentá-los.

Apesar disso, Eugênio se recorda suficientemente bem das coisas para compreender como o cenário nas ruas mudou para pior nos últimos anos.

"Digamos que eu peguei os primórdios da população de rua. Não tinha tanta violência quanto hoje. Nem tanta gente", compara. A pandemia deve agravar ainda mais essa situação.

Pelo último censo do município, realizado em 2019, 11.693 pessoas estavam em albergues públicos, enquanto outras 12.651 viviam nas ruas, ao relento. Os números do governo federal mostram uma realidade ainda mais preocupante: em dezembro de 2019, havia 33.292 famílias sem-teto na capital paulista, segundo dados do Cadastro Único, controlado pelo Ministério da Cidadania.

De acordo com o censo municipal, 33% dos moradores de rua elegeram o álcool como razão para acabar nessa situação. Exatamente o caso de Eugênio que, embora sóbrio atualmente, não garante que vai continuar assim.

Eu só escrevo quando bebo. Meu processo é esse. Mas com essa coisa da pandemia, não tenho bebido. Escrever sóbrio é um saco. Eu digo para o pessoal lá do albergue para eles não se iludirem comigo. Não é porque não estou bebendo que eu parei de beber. A hora que der vontade e eu puder beber, eu bebo.

Além da rua

Os que leem a obra de Eugênio rapidamente entendem que é preciso compreender seus textos para além de sua condição de desabrigado. Evidentemente que sua história de vida impregna seus versos, mas eles dizem muito mais acerca do coletivo do que sobre uma tragédia pessoal.

O escritor catarinense Marcelo Labes, autor do romance "Paraízo-Paraguay" (Caiaponte Edições), vencedor do prestigiado Prêmio São Paulo de Literatura de 2020, é um entusiasta de Eugênio, a quem conheceu em uma de suas passagens por São Paulo:

"Foi quando ele contou onde vivia, que tinha hora para retornar ao abrigo, e fez um belo e triste discurso sobre a animalidade das pessoas".

Para ele, a força que tem sua poesia não pode ser subvertida pela imagem do poeta, "que é morador de rua, que é um sobrevivente e, por isso, pode ser diminuída. Eis um engano que não deve ser cometido".

É preciso ler Eugênio apesar de sua biografia. Dessa forma, se estará realizando literatura. E a graça para quem o lê de baixo é a de topar não somente com um ser humano imenso, mas também com um grande poeta.

Marcelo Labes, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura de 2020

O editor Eduardo Lacerda é da mesma opinião. "Muitas pessoas se aproximam da poesia do Eugênio pela história de vida dele. Não é o melhor motivo para se ler um poeta, mas depois que conhecem a poesia, entendem que ele é um poeta incrível", afirma.

Breve crítica

Colunista de Literatura de Splash, Rodrigo Casarin, da Página Cinco, teve acesso a uma prova inicial de "Atoleiro (Tempos de Rua)", ao qual dedicou sensíveis palavras:

"A poesia de Gianetti carrega muito do desânimo, da descrença, da solidão e da falta de perspectiva de nossos dias. As quedas, a ruína, as memórias mais difíceis, as mentiras, os naufrágios de uma vida, a família que nem em fotografia existe mais, o tempo que nada cura? Tudo isso serve de material ao artista. Mas há também momentos de beleza, alívios no meio do pandemônio no qual estamos metidos, sorrisos raros. Há a borboleta que, dentre tantas outras, escolhe justamente a cama do poeta para pousar", disse o colunista.

"Na própria relação com a poesia ou nos detalhes da natureza que encontramos algum afago, esperança ou a ocasional e necessária ilusão. A atenção de Gianetti com a sonoridade das palavras fica evidente em casos como este: "sarcoma rubicundo/ o sol dolorindo o mundo/ furibundo sarcoma/ o deserto como axioma". Sempre breves, seus poemas também podem ser pontuados pelo humor e pelo sarcasmo, acenam a referências como Dolores Duran (aquela que "fecha as asas e voa para longe") e entregam aos leitores bons achados ("sair e conseguir voltar para casa ileso./ (em casos extremos apelar para a invisibilidade)"."

Ler mais

O futuro

Como dito no início deste texto, o tempo é relativo para pessoas como Eugênio. Por isso, ele procura não pensar no que está por vir e tenta viver um dia de cada vez.

Eu geralmente não penso. Sou só instinto. A única exceção é quando estou escrevendo. No resto do tempo eu desligo totalmente.

Nem mesmo a publicação de seu novo livro, prevista para o primeiro semestre deste ano, muda alguma coisa no seu modo de encarar o calendário à frente. "Pretendo estar bem para comparecer ao lançamento, como fiz com o 'Zoobreviver', mas não é algo em que fico pensando, ou antecipando. Não sou ansioso".

Em um poema, escreve que pretende viver quantos anos forem precisos. Não quantos conseguir, mas quantos forem precisos.

Para quem já passou pelas agruras de viver na rua, venceu uma tuberculose e atravessou a pandemia em 2020, Eugênio é, de fato, um sobrevivente.

Diz que não tem arrependimentos, nem sonhos. Não busca qualquer reencontro ou redenção. Não há nenhum traço particular de melancolia em seu tom de voz quando revela essas coisas. Apenas, talvez, cansaço, de um homem que quer passar o resto de seus dias sentado em "algum banco de madeira", esperando "algum passarinho extraviado pousar num raio de sol".

Topo