Um hit em 15 segundos

Como o TikTok, uma plataforma de dança e dublagem, mudou nossa forma de consumir música

Guilherme Lucio da Rocha e Mari Monts De Splash, em São Paulo

Sabe aquela música que está fazendo o maior sucesso no TikTok?

Essa pergunta se tornou comum em 2020, isso porque a rede social conhecida por suas dancinhas, desafios e dublagens tem mudado a forma de consumir canções.

Se o mercado musical já havia se consolidado no streaming de Spotify, Deezer e YouTube, agora existe um novo caminho para artistas fazerem sucesso e emplacarem seus hits chicletes que não saem da cabeça:

Viralizar no TikTok.

A roda da música vem mudando. Se antes um jabá na principal rádio da cidade ou uma participação no "Domingão do Faustão" mudavam os rumos da carreira de um artista, hoje basta a Anitta gravar um desafio com sua música no TikTok para você quintuplicar o número de reproduções no Spotify.

E tudo orgânico, de graça.

E isso mudou até a cabeça de quem produz, compõe e canta. Muitos artistas Brasil afora estão condicionando sua criação a rede social, gerando assim um novo modelo. Tem gente que acha que esse processo de é natural, outros reclamam da pasteurização da arte.

É a tiktokização da música.

Divulgação

Made in China

De cara, já é bom deixar claro que o TikTok NÃO se considera uma rede social, pois "seu intuito não é a socialização, conhecer pessoas e sim o consumo e a criação de conteúdo criativo, positivo e divertido".

Mas é, né.

O TikTok nasceu em 2017 e tem uma relação com música desde antes da sua criação. Você lembra do Musical.ly? Ele era um aplicativo onde os usuários gravavam vídeos de curta duração, dublando músicas.

Foi em 2017 que a empresa chinesa ByteDance comprou o Musical.ly e transformou ele no TikTok, que foi baixado mais de 700 milhões de vezes em 2019.

A dinâmica é simples: a gravação de vídeos curtos, de até 1 minuto.

Na rede, você pode compartilhar vídeos se maquiando, fazendo piada com sua família ou desafiando seus amigos com alguma dancinha do momento.

De pano de fundo de tudo isso, pode ter uma trilha musical que está presente em todos os desafios daquele passinho, por exemplo, sendo replicada aos milhões. E é aí que a coisa pega.

As músicas selecionadas para os desafios ficam na cabeça da galera. Imagina só: você faz um vídeo de um passinho e desafia seu amigo, seu amigo envia o "challenge" para outro amigo, que vai parar na timeline da Anitta, que decide replicar o desafio.

Pronto, está montada a roda do sucesso.

Tem que ter dancinha!

Se tem alguém que manja de viralizar no TikTok, esta é a funkeira Tati Zaqui.

Em 2015, quando ainda não existia TikTok e as coreografias eram postadas no YouTube, Tati lançou a música "Parara Tibum" e choveu reprodução do seu rebolado no clipe.

Hoje, com a febre dos desafios, ela conta que o processo para fazer uma música vai muito além de pensar a letra. E a estratégia tem sido certeira, Tati já foi mencionada mais de 24 milhões de vezes na rede social. Ou seja, esse tanto de gente já reproduziu suas músicas na plataforma.

O hit "Surtada" é um bom exemplo disso, o desafio foi feito por mais de sete milhões de usuários.

E se alguém fizer uma música de 15 segundos?

Bem, mas já tem artista pensando em fazer músicas mais curtas já de olho nesse público.

João Brasil, DJ que ficou famoso com a música "Michael Douglas", aquela do refrão "nunca mais eu vou dormir", diz que com o sucesso da rede social, vai começar a fazer canções de 15 segundos.

O foco é no refrão. No meu caso, não penso muito em coreografia, mas é algo que pode surgir natural também.

Ele, que já produziu jingles para publicidade com essa duração, afirma também que o importante é fazer com que a letra fique na cabeça do usuário - e aí o engajamento vem.

Aliás, o seu próprio sucesso "Michael Douglas" é um exemplo.

"Nunca mais eu vou dormir. Ih, que isso? Michael Douglas!" poderia ser uma canção com ¼ de minuto.

Reprodução/Instagram

Uma nova porta de entrada

MC Lorenzo tem só cinco anos e já viralizou na rede social com o áudio original de sua primeira música: "Não Fica Apaixonadinha".

O som virou hit com o trecho de 30 segundos publicado na plataforma. O refrão "você e sua amiguinha quer subir na minha motinha?" já foi reproduzido em mais de 164 milhões de vídeos no TikTok.

Ela conta que descobriu que o filho estava bombando na rede social através de mensagens de conhecidos e desconhecidos. Aliás, logo em seguida o menino foi banido da plataforma porque só é permitido jovens acima de 13 anos por lá.

Recebia recados assim: vim pelo TikTok, você tá famoso lá. E eu nem sabia, eu quase não mexia nessa rede social. Depois disso, o perfil oficial do Lorenzo foi banido por causa da idade dele.

Andressa diz que não houve uma divulgação da música na rede social, e que foi tudo orgânico. Ela explica que, quando você registra uma música, a canção sobe automaticamente em plataformas digitais, inclusive no TikTok.

Após a música estourar, ganhar diversas coreografias e ficar entre os hits mais reproduzidos do TikTok, Lorenzo firmou parceria com a KondZilla e a música ganhou um clipe.

Reprodução/Instagram

Os desafios como divulgação

Um dos grandes pilares do TikTok são os chamados desafios: neles, os usuários fazem uma espécie de coreografia ou passinho ao som de alguma música.

Esses desafios, muitas vezes, são orgânicos e, não necessariamente têm a ver com aquelas coreografias de FitDance, por exemplo. Às vezes, pode ser uma interpretação quase cinematográfica da letra.

Com a música "Meu Lado da História", do rapper Choji, foi assim. Com um beat arrastado, a letra diz: "Tô tranquilo com essa mina // me amarro em dar tapa naquela bunda".

Foi o suficiente para casais aproveitarem e fazerem o desafio de forma literal - batendo nos bumbuns de seus amados ou amadas e finalizando o vídeo em câmera lenta. Entre as duplas que postaram vídeo no TikTok estão o rap Xamã e, ela de novo, Anitta.

Eu fiquei felizão quando vi o vídeo dos dois. Já sabia que a música tinha viralizado no TikTok, tinha visto outros desafios, mas quando saiu o deles, foi outro patamar. Até falei com o Xamã pessoalmente, agradeci.

E Choji teve motivos para agradecer o amigo. "Meu Lado da História" foi gravada no quarto/estúdio de um amigo, com microfone emprestado e lançada em 2019. Até um mês antes de viralizar, em outubro, a música tinha pouco mais de 1 milhão de plays no Spotify. Agora, em novembro, a música está com 7,9 milhões.

Foi orgânico, mas o rapper carioca não poderia ter forma melhor de divulgação.

Reprodução/TikTok

A geração Z conhecendo os sucessos dos boomers

Certo dia, o Nathan Apodaca pegou seu skate e foi passear pelas ruas de Idaho Falls, nos Estados Unidos, escutando "Dreams", da banda Fleetwood Mac.

A banda Fleetwood Mac - Michael Ochs Archives - Michael Ochs Archives
A banda Fleetwood Mac
Imagem: Michael Ochs Archives

O vídeo goodvibes logo viralizou, bateu dezenas de milhões de views no TikTok e fez a molecada da rede social ir procurar por aquele som que deixava o mundo melhor. Com isso, o sucesso do grupo alcançou um novo grupo.

Para Thiago Abreu, gerente de Marketing e Conteúdo Digital da Warner Music Brasil,esse fenômeno é um dos exemplos de conversão de viral no TikTok que apresentam sucessos do passado para uma nova geração.

Hoje, o vídeo tem aproximadamente 2 milhões de likes e milhares de compartilhamentos e comentários. A música entrou nos charts com a viralização, fazendo assim, um novo público conhecer a banda.

Essa curiosidade do público pelos sons virais do TikTok geram resultados impressionantes. O álbum "Rumours" foi lançado em 1977 e "Dreams" foi um dos seus principais sucessos. Com a febre na rede social, ele foi parar no Top 10 da Billboard em outubro e o single entre as 30 mais ouvidas da principal lista de sucessos no mundo.

Sim, o TikTok cria tendências musicais.

Surfando na onda?

A Warner Music também teve de incluir a plataforma em sua estratégia de divulgação. No time de artistas da gravadora estão Ludmilla, Anitta, Kevinho e Cardi B. Sim, todos eles estão bem ativos na rede social de vídeos curtos.

@anitta

O trabalho dentro do TikTok na divulgação dos lançamentos está no nosso dia a dia desde a entrada do app no Brasil, quando ainda se chamava Musical.ly. É importante ter uma estratégia pensada especialmente para potencializar a música dentro do app, projetando um resultado que vá além e colabore com outras frentes do plano.Thiago Abreu, Gerente de Marketing e Conteúdo Digital da gravadora

Além disso, a gravadora recomenda uma série de boas práticas para os artistas seguirem na rede social para suas respectivas contas crescerem e, claro, gerar engajamento. Thiago fala dos caminhos que a Warner adotou para seu time de artistas fazer sucesso por lá:

O suporte de outros criadores ajuda a construir e disseminar a história da música dentro do TikTok. De desafios de dança à maquiagem, duetos de música com o próprio artista, esquetes de humor usando as letras ou melodia.

Sucesso real oficial

Todo o casting Warner Music Brasil está no TikTok criando conteúdo nativo e com música. Um grande caso de sucesso que ele aponta é de Giulia Be com a música "Se Essa Vida Fosse Um Filme". O refrão viralizou com o desafio que envolvia a letra da faixa.

@giulia

Em apenas duas semanas alcançou a impressionante marca de mais de meio milhão de vídeos criados com a música. "Se Essa Vida Fosse Um Filme" continua sendo um sucesso absoluto na plataforma e hoje conta com mais de 1 milhão de vídeos criados por usuários e mais de 258 milhões de visualizações.

O novo 'palco' das estrelas

Tudo muito bom, tudo muito bem. Mas o que pensa o TikTok sobre tudo isso?

Splash conversou com Roberta Guimarães, diretora de conteúdo musical do TikTok Brasil.

Segundo ela, a plataforma consegue identificar produtores de conteúdo que se identificam com tal artista, criando uma ponte entre eles. Com relação ao streaming de música, o TikTok se vê como uma "startup de tendência".

O TikTok é um lugar onde diversas tendências começam e vemos isso também com música. Hoje não existe nenhuma parceria direta com plataformas de streaming no dia a dia da operação, mas o que vemos hoje é que o TikTok dita muito o que acontece no top 200 dessas plataformas. Músicas que começam no TikTok hoje aparecem muito entre as principais desses tocadores, mesmo não sendo lançamentos.

@kondzilla

O Menino Ney também acabou de mandar o ##amoroulitraochallenge! E aí, qual vai ser? ?? ou ?

? Amor ou o Litrão - Brega Funk - Mila & Petter Ferraz & Menor Nico

Porém, diferente de Spotify ou Deezer, a plataforma não paga os artistas pela reprodução de suas músicas. O investimento é feito apenas para os criadores de conteúdo.

Sabemos que a monetização é importante para os criadores, mas também o valor, a autenticidade, a expressão, uma comunidade de apoio, uma comunidade engajada e todas as outras coisas que o TikTok oferece de maneira exclusiva. Nosso foco atual é oferecer aos nossos usuários a melhor experiência de plataforma, mas também estamos explorando novas maneiras de apoiar e agregar valor à comunidade.

Em um ano onde os palcos se esvaziaram por causa da pandemia e o streaming se congestinou, o holofote do TikTok se acendeu definitivamente para os músicos.

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