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Ricardo Feltrin

Genial, perfeccionista e "anti-herói" do pop rock, Sting faz 70 anos

O talentoso Sting completa 70 anos neste sábado - AFP
O talentoso Sting completa 70 anos neste sábado Imagem: AFP
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

02/10/2021 00h21

Ex-professor de crianças e adolescentes na rede pública britânica, ex-funcionário da Receita Federal, ator, multi-instrumentista e compositor, o cidadão Gordon Matthew Thomas Sumner completa 70 anos neste sábado (2). Você o conhece por seu apelido: Sting.

A história desse artista pode ser uma espécie de "anticlímax" para muitos aficcionados do rock, acostumados aos exageros de seus ídolos.

Sim, a vida de Sting também tem sexo, drogas e rock´n´roll.("sting" significa "ferrão", apelido que ganhou por usar um suéter amarelo com faixas pretas horizontais, e que lembra o ferrão de uma abelha).

Porém, com uma grande diferença: não há escândalos pessoais ou familiares, uso compulsivo ou "overdoses" de drogas, quartos de hotel quebrados e tampouco sífilis e outras DSTs contraída de "groupies". A história de Sting é extremamente moderada perto de seus congêneres do rock.

Ainda assim há passagens chocantes em sua história, como por exemplo o cadáver de uma mulher sacrificada em um ritual macabro, que ele e a esposa, Trudie, acharam enterrado no quintal de sua mansão no início dos anos 90.

Bibliografia não falta

Para quem quer conhecer mais sobre a vida do criador e líder do The Police, é possível adquirir no Brasil ao menos três bons livros:

- A autobiografia "Fora do Tom" (ed. Cosac & Naify, 352 págs.); na capa, ele aparece numa foto com o famoso suéter de abelha;
- A biografia escrita em 1995 por Wensley Clarkson (ed. Ática, 304 págs.; está esgotada mas é barata e fácil de ser encontrada em sebos)
- A autobiografia do guitarrista Andy Summers, do The Police (ed. Neutra, 356 págs.)

Com essas três obras é possível fazer um contraponto equilibrado sobre a vida desse que é um dos mais prolíficos compositores e criadores de hits da música contemporânea. E também ator. Ele tem participação (algumas marcantes) em vários filmes.

Na opinião desta coluna, é importante ler ao menos os dois primeiros livros porque, se o fã ficar apenas na obra escrita pelo próprio Sting, possivelmente será iludido pelas omissões que faz sobre si mesmo.

Por exemplo, em "Fora do Tom" ele praticamente omite todos os exageros que teve com drogas.

No entanto, no livro de Clarkson a gente fica sabendo que ele fumou maconha pela primeira vez com 13 anos e que, dois anos depois, já consumia habitualmente "speed" (mistura de cocaína com opióides). Isso sem falar nas generosas cargas de cocaína que aspirou com os colegas nos anos do The Police.

Também sempre foi entusiasta de cogumelos e inicia seu próprio livro, inclusive, contando sobre uma visita que fez ao Brasil para um show, que começou com uma mágica sessão de Santo Daime (ayahuasca).

Com seu 1m81 desde mais ou menos os 15 anos de idade, ele também entrava ilegalmente em pubs e não só bebia cerveja aos litros enquanto era menor de idade como ainda era escalado pelos amigos para ir buscar mais copos cheios.

Conta que ninguém desconfiava que era apenas um molecote devido a sua altura, diz.

Garotas, garotas e mais garotas

Na autobiografia Sting também poupa (ou omite) os leitores da maioria de suas aventuras sexuais. E elas foram muitas.

Bonitão, chamava a atenção das garotas nas ruas e nas escolas que frequentou. Quando famoso, mulheres e homens literalmente se jogavam sobre ele, que afirma que manteve sempre saudável distância.

Foi muito ativo em termos de sexo, mas jamais chegaria aos pés de um Steven Tyler ou de um Rod Stewart, por exemplo. Foi casado apenas duas vezes e está com a atual esposa, Trudie Styler, há mais de 30 anos.

Ele tem 6 filhos no total, Sua primeira mulher foi Francis Tomelty (casamento entre 1976-1984).

Baixista perfeccionista e rabugento

Embora tenha começado na música no piano da família, e de ter depois passado para a guitarra (toca ambos muito bem), Sting diz que optou pelo contrabaixo porque —ora, vejam—, não queria ser o "frontman" de nenhuma banda e nem de se exibir.

Mal sabia que se tornaria no futuro exatamente isso: um ícone exibido e "frontman" que causaria catarse por onde passasse, seja com o The Police ou em carreira solo. Ele também fala da dificuldade que teve ao se tornar também vocalista e baixista (e é difícil mesmo).

Para se ter uma real ideia do significado da palavra "catarse", esta coluna sugere que o leitor ouça a introdução da música "Synchronicity 1", do disco "Live!", lançado em 1995. O uivo da plateia em Atlanta, EUA, prova que não é mentira.

Sting confessa que o trio do The Police nunca se deu bem e que sempre existiu e há até hoje uma espécie de "ódio contido" entre ele e o parceiro baterista norte-americano de banda, Stewart Copeland. Os dois não raro chegavam às vias de fato.

No entanto, quase todos os entrevistados para o livro de Clarkson dizem em coro: nunca conheceram alguém tão perfeccionista, talentoso, ensimesmado e rabugento.

De pobre a multimilionário em 3 anos

Algo que Sting não esconde de ninguém é a riqueza. Um dos últimos cálculos estimava que o artista tinha um patrimônio de cerca de 200 milhões de libras esterlinas —o equivalente hoje a cerca de 1,5 bilhão de reais.

Em 2014 ele afirmou numa entrevista que não pretendia deixar uma grande fortuna para os filhos, e que provavelmente gastaria a maior parte antes de morrer.

"Eu disse a ele que não sobrará muito porque estamos gastando tudo que entra", ironizou.

Não deixa de ser curioso para quem se declarava "pobre" até 1978, quando The Police gravou seu primeiro single de sucesso, "Roxanne" (nota: ninguém lembra, mas a banda gravou a inócua "Fall Out" um ano antes, com o guitarrista Henry Padovani. Sting não o suportava).

Ele relembra que, em 78, a banda foi para os EUA se apresentar para uma plateia minúscula de DJs e outros representantes do mundo fonográfico, para divulgar "Roxanne", e que ele não tinha dinheiro nem sequer para uma refeição decente.

Antes da apresentação, faminto e ainda sob efeito de "jet lag" da viagem, foi sozinho a uma lanchonete próxima ao local da apresentação e diz que pediu o prato mais barato: "a salada do chef". Custava menos de US$ 10, pois era tudo que tinha.

"Poucos anos depois eu já era estupidamente milionário", conta, sincero, na autobiografia.

Também não esquece que um dos responsáveis por essa riqueza foi também Miles Copeland, irmão de Stewart (baterista) e que se tornou empresário do The Police.

Graças a uma negociação que beira o inacreditável, entre Miles e a gravadora A&M, desde "Roxanne" a banda (e principalmente Sting) tinham a maior fatia dos direitos autorais das composições.

E isso se prolongou não só enquanto a banda existiu, mas até hoje. Ainda chove dinheiro na horta com "royalties" musicais.

No Brasil, o Ecad registra mais de 400 músicas de sua autoria e mais de 1.100 gravações com ele ou de suas músicas.

Porém o líder do The Police admite que ainda há pendências judiciais envolvendo músicas e direitos autorais até hoje.

De qualquer forma, o dinheiro foi mais que merecido.

Assim como nossos parabéns por seus 70 anos:

Vida longa e próspera a Gordon "Sting" Sumner <3

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