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Ricardo Feltrin

REPORTAGEM

Mesmo com Parkinson, Paulo José trabalhou em ritmo total

Morre o ator Paulo José, aos 84, no Rio de Janeiro - Globo/João Miguel Júnior
Morre o ator Paulo José, aos 84, no Rio de Janeiro Imagem: Globo/João Miguel Júnior

Colunista do UOL

11/08/2021 20h34

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O ator Paulo José morreu nesta quarta-feira no Rio, vítima de uma pneumonia. Ele estava internado havia quase três semanas

Paulo Guimarães Gomez de Souza, gaúcho de Lavras, morreu aos 84 anos e também sofria de mal de Parkinson.

Apesar da doença, esse grandioso ator nunca reduziu sua produção dramatúrgica, nem mesmo depois de ser diagnosticado com a doença degenerativa.

Paulo José virou até personagem em primeira pessoa numa novela da Globo. Dizem que Manoel Carlos, o Maneco, lhe pediu autorização para incluir o personagem Benjamim na novela exibida em 2014 "Em Família". Benjamim então sofria havia 20 anos com a doença (Paulo morreu após 28 com ela)..

Paulo não só autorizou o autor a descrevê-lo, como também faria o papel --aliás, como quaisquer outros que lhe ofereceram nos 50 anos anteriores.

Parkinson em estágio avançado

À época, ele já estava com a doença em estágio avançado. E muitos telespectadores se chocaram com a impossibilidade de entender até o que o personagem falava.

Em boa parte das cenas, Paulo se manifestava com grunhidos, além de uma movimentação peculiar que tiravam do personagem sua roupa e voltavam a vesti-lo com a pele de Paulo José.

A doença foi diagnosticada em 1993. Depois de uma noitada, o ator acordou sem movimentos, com dificuldade de falar. Procurou um médico que fez dezenas de exames e, por eliminação, o diagnosticou com o degenerativo Parkinson.

Boni o ajudou em tudo

Um dos que mais o apoiou na doença foi José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. O então manda-chuva da Globo o mandou para consulta nos Estados Unidos, no hospital mais especializado do mundo em Parkinson.

Paulo passou meses fazendo exames.

Poucos anos depois, ainda descobriria ser portador de outra doença crônica: um enfisema pulmonar, provavelmente causado pelo fumo —hábito que reduziu, mas nunca abandonou, nem mesmo quando descobriu o Parkinson.

Gauchinhos destemidos

Poucos sabem que Paulo começou a carreira na música, no grupo musical vocal Gauchinhos Destemidos. Ele tinha por volta de 8 anos.

Segundo o site "Memória Globo", seu currículo conta com quase 30 novelas, 13 minisséries, alguns programas infantis, juvenis, humorísticos, quase 50 longas e documentários para o cinema e um número incalculável de peças de teatro.

Fez uma "penca" de "Casos Especiais" e dirigiu atrações para a Globo.

Ganhou três vezes o Candango de melhor ator, um Kikito, uma vez melhor ator no Festival de Cinema de Miami e também no Grande Prêmio Brasil.

No teatro, fez de tudo

Interpretou de Chico de Assis a Brecht ("O Testamento do Cangaceiro" e "Os Fuzis da Senhora Carrar", respectivamente); de Molière a Kondoleon ("A Mandrágora" e "Delicadas Torturas"); de Tiago Santiago a Augusto Boal; ("A Fonte Eterna da Juventude"; e "Revolução na América do Sul").

Fora suas próprias obras ou primorosas adaptações.

Paulo José foi não só ator, mas também produtor, diretor, roteirista, escritor, cenógrafo, iluminador e figurinista.

Foi também empresário, dono de teatro, praticamente fundou o Teatro de Equipe e também foi investidor do teatro Arena.

No cinema, a mesma coisa.

Humano Amoroso

Foi casado várias vezes. Oficialmente, com Dina Sfat, com Zezé Polessa e com Kika Lopes.

Teve três filhas com espírito também artístico (Ana, Clara e Bel Kutner), mas teve muitos outros relacionamentos, longos, porém sem "oficialização".

"Eu adoro casar", dizia.

Também tocava piano, fazia aulas de canto, de técnicas vocais, de terapia corporal, yoga, e centenas de sessões de fonoaudiologia.

Deixa vários roteiros prontos e ditou até um audiobook.

E fumava. Vá lá, dois ou três cigarrinhos por dia, mas fumava. Quando alguém se surpreendia com o vício, respondia a la Mario Quintana: "Fumar é uma maneira disfarçada de suspirar".

Entre seus personagens saudosos, deixa não só Benjamim, mas Shazan ("O Primeiro Amor"); Ivan ("Vamp"); Marcelo ("Supermanoela") e Celso Rezende de "Roda de Fogo".

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