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Ricardo Feltrin

Exclusivo: Globo esvaziou núcleo de humor após pesquisa em 2019

Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

08/07/2021 00h09

Em 2019 a Globo, como faz todos os anos, realizou mais uma pesquisa qualitativa com um grupo de telespectadores.

A pesquisa foi feita no primeiro trimestre daquele ano, mas, ao contrário das anteriores, jamais a emissora recebeu tantas críticas, bem como a seus produtos, segundo esta coluna apurou.

A posse de Jair Bolsonaro na Presidência expôs uma sociedade cindida, e a pesquisa da Globo identificou isso imediatamente naquele primeiro trimestre do ano.

Grosso modo, a conclusão na cúpula da emissora foi que, independentemente de não apoiar ou compactuar com o pensamento bolsonarista, a TV Globo ainda assim precisava "dialogar" e "conversar" com os eleitores do presidente.

Dramaturgia, jornalismo, humor

A dramaturgia e o jornalismo da casa receberam bastantes críticas por parte de alguns entrevistados.

Nesses casos, a primeira foi acusada —modo de dizer— de "lacração" (na mentalidade conservadora, porque a emissora dá espaço à diversidade); já o jornalismo foi acusado de parcialidade (como "antibolsonarista", claro). Eram os apoiadores do presidente e suas falas se manifestando.

Tudo isso era esperado. Mas, o núcleo que sofreu mais rejeição foi o de humor.

Coincidência ou não, logo após o resultado dessa pesquisa a Globo começou a realizar profundas mudanças em suas produções humorísticas.

Pouco a pouco, a TV começou a mexer ou apenas pisar no "freio" em suas atrações humorísticas, principalmente, e a tirá-las do ar paulatinamente.

Em abril de 2019, acabou o "Tá no Ar", com Marcelo Adnet. Em março de 2020 foi a vez de sair o "Isso a Globo Não Mostra", até então o quadro de maior sucesso do "Fantástico". Três meses depois foi o fim do "Zorra".

Vale dizer que, até aí, a emissora pode justificar que, por causa da pandemia, não havia como gravar os programas.

De qualquer forma, praticamente todo o núcleo dirigente de humor na casa acabou sendo desmontado e demitido no ano passado —de Silvio de Abreu a Marcius Melhem, entre outros.

As maiores estrelas desse setor, como Miguel Falabella e outros, também foram dispensados num grande "passaralho".

Nada de novo no humor

Porém, chegamos a 2021 com um inédito fato: pela primeira vez em sua história a maior emissora do país não tem nenhum programa humorístico novo no ar, como esta coluna analisou em maio passado.

Para o próximo mês, a previsão era que o programa humorístico "Novo Normal", novamente com Adnet, entrasse no ar. Porém, isso também já está descartado. Mais um projeto de humor na Globo aberta que foi suspenso (pela 2ª vez, aliás).

Se quiser algum humor, o telespectador global hoje terá de se contentar com reprises como "Toma Lá Dá Cá", "Vai Que Cola" e um ou outro filme engraçadinho da "Sessão da Tarde".

Outro lado

Procurada pela coluna, a Globo confirmou a realização da pesquisa de 2019 ("fazemos todos os anos"), mas negou que as novelas tenham sido consideradas "cansativas ou amorais", e afirmou que as "reflexões sobre o humor evoluem junto com a sociedade - ao mesmo tempo em que a refletem".

"Seus limites (do humor) estão permanentemente em discussão e a polarização atual traz também um desafio adicional ao humor feito a partir da crítica social e política, uma das marcas do gênero no Brasil e na Globo", diz a nota.

Leia a íntegra da resposta da Globo abaixo:

"A Globo, como você sabe, tem uma longa tradição de realização de pesquisas. Pesquisas regulares, qualitativas e quantitativas, sobre seus conteúdos, sobre suas marcas, sobre o Brasil e os brasileiros.

Não poderia ser diferente em uma empresa que sabe que, para ser escolhida todos os dias, espontaneamente, por milhões de brasileiros, precisa escutar, conhecer, entender, atender, refletir e estar sintonizada com a sociedade.

Assim, fizemos pesquisas em 2019, como fizemos em todos os anos anteriores e posteriores, ouvindo o Brasil inteiro e não segmentos dele.

O que confirmamos, e não é surpresa, foi a grande polarização do país. Numa sociedade polarizada, o comportamento mais comum é: ou você pensa como eu ou estamos em campos opostos.

Isso trouxe uma maior complexidade para as marcas em geral --e, para as que falam com todos os públicos, no país inteiro e têm a abrangência da Globo, ainda mais.

Mas, a nossa conexão com o Brasil e com os brasileiros nunca esteve em risco.

É isso que explica a nossa liderança, conferida pelo público, e as nossas audiências --aliadas, claro, a críticas, concentradas sobretudo nas redes sociais e nem sempre orgânicas, que ouvimos e consideramos, sobretudo as que nos fazem melhorar.

Mas, mesmo diante desse desafio, a Globo nunca abandonou o compromisso de representar as variadas pautas dos diversos segmentos da sociedade brasileira. Seja no jornalismo, seja no entretenimento.

Não, nossas novelas não são consideradas 'cansativas' ou 'amorais' e aí estão os elevados patamares de audiência de todas elas, nos seus diferentes horários, em todas as regiões do país, inéditas ou em reprise, para comprovar.

Aí estão também as variadas, diárias e intensas conversas sociais que nossos conteúdos provocam todos os dias, em todas as plataformas --e que seu portal acompanha de perto e a audiência dele registra.

Ao contrário. O que ouvimos reiteradamente, com muito orgulho especialmente num momento como esse, é que nossas novelas são "companheiras do público", ajudando a população inclusive a conhecer e refletir sobre certos temas sociais importantes.

A contribuição da Globo na discussão das pautas sociais e ambientais, aliás, é especialmente reconhecida e elogiada.

O mesmo se repete no humor, que cumpre o papel de ajudar o público a se relacionar com a realidade, com leveza e descontração, a partir de uma perspectiva bem-humorada, mesmo diante de dificuldades.

As reflexões sobre o humor evoluem junto com a sociedade - ao mesmo tempo em que a refletem. Seus limites estão permanentemente em discussão e a polarização atual traz também um desafio adicional ao humor feito a partir da crítica social e política, uma das marcas do gênero no Brasil e na Globo.

As pesquisas são, assim, ferramentas importantes para ajudar nossos criadores a seguirem em frente na responsabilidade de levar emoção e diversão às mais de 100 milhões de pessoas com quem falamos todos os dias, sempre com qualidade, criatividade, liberdade e conectados com o Brasil. Central Globo de Comunicação - CGCom"

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