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Ricardo Feltrin

Opinião: CNN Brasil completa 1 ano sóbria e fazendo um jornalismo útil

O fundador e CEO da CNN Brasil, Douglas Tavolaro - Divulgação/Spokesman
O fundador e CEO da CNN Brasil, Douglas Tavolaro Imagem: Divulgação/Spokesman
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

15/03/2021 00h09

Há exatamente 1 ano nascia a CNN Brasil, maior projeto jornalístico da TV brasileira em quase 20 anos.

Foi uma enorme (e caríssima) aposta. A CNN entrou em um mercado disputado e já solidamente ocupado por GloboNews (1996) e Band News (2001).

Antes de estrear na TV por assinatura, pelas mãos do jornalista Douglas Tavolaro (ex-diretor de Jornalismo da Record), outros empresários e emissoras tentaram trazer a maior grife jornalística da TV mundial para o Brasil, em parceria.

A RedeTV, por exemplo, teve essa chance e perdeu.

A Record chegou a discutir uma parceria, mas a presença da Igreja Universal no negócio afastou rapidamente a empresa norte-americana.

Foram dezenas de milhões de reais investidos na CNN verde-amarela, milhares de horas de planejamento e centenas de profissionais contratados.

Antes mesmo de estrear, ela já conseguiu a façanha de chacoalhar o modorrento telejornalismo.

Na TV paga, a GloboNews mexeu em sua programação, assim como a Band News.

Na aberta, ressabiadas com a nova "coleguinha", até a Globo e a Record foram obrigadas a se mexer e a investir mais no produto "jornalismo".

A TV que virou notícia

As dores de cabeça e tropeços nos primeiros meses da CNN Brasil foram diretamente proporcionais ao tamanho da empreitada.

Alguns profissionais deixaram a emissora, outros foram "deixados"; houve um grande troca-troca de apresentadores, âncoras e comentaristas.

No início, a CNN Brasil chegou a ser mais notícia que a própria notícia, por causa do que ocorria em seus bastidores.

Comentaristas como Gabriela Prioli ameaçaram deixar a emissora por discordar do "nível" de discussão em quadros como "O Grande Debate", que ela participava.

Outros profissionais foram demitidos, como Leandro Narloch, acusado de comentários "incompatíveis com a linha editorial" (na verdade ele foi "cancelado" antes na internet).

Já outras estrelas, como Reinaldo Gottino, deixaram a emissora por vontade própria. Ele preferiu voltar a sua antiga casa, a Record (decisão acertada, aliás).

Alguns programas e promessas não decolaram. O horário nobre, por exemplo, sofreu mudanças. Assim como a grade matinal. Mas, enfim, como dito acima: nada que não fosse esperado em uma empreitada desse porte.

Com o tempo, acertou a rota

De qualquer forma a CNN Brasil se "aprumou" a partir do quinto ou sexto mês e tomou seu rumo correto.

Parou de levar "terraplanistas" para proferirem asneiras ao vivo, sob a justificativa de "pluralidade", mas continua até hoje ouvindo os dois lados de cada notícia —os prós e os contras (é assim que tem de ser).

Desistiu de transformar um quadro de debates em arranca-rabo agressivo e diário. Passou a priorizar o "hardnews", a notícia quente, como é chamada.

Com isso se estabilizou e chega agora a seu primeiro ano como um veículo confiável, plural e, principalmente, sóbrio.

As últimas contratações do elenco se mostraram sob medida (há outras a caminho, e que darão o que falar).

Mudanças gráficas também tornaram a tela da emissora mais atraente e interessante ao telespectador.

Por fim, também conseguiu alguns furos jornalísticos de porte, o que obrigou até as rivais GloboNews e até mesmo Globo aberta a lhe darem crédito.

Hoje, em coberturas nacionais e políticas, a CNN Brasil não deve hoje absolutamente nada a ninguém.

Na cobertura da Vaza Jato, por exemplo, um caso inicialmente subestimado, mas que hoje pode mudar os rumos do país, ela foi muito melhor que a emissora noticiosa do Grupo Globo.

Na cobertura da eleição de Joe Biden, também. Em vez de se arriscar com previsões e estimativas no duelo Biden x Trump, optou em só dar resultados confirmados e cabais, em vez de se enfiar numa corrida do tipo "vamos correr e dar primeiro".

Quem ganhou com isso foram os seus telespectadores e o próprio jornalismo.

Mesmo durante a pandemia atual, seu noticiário tem dado prioridade ao serviço, ao que é importante aos brasileiros: como se proteger do coronavírus, a situação dos hospitais, o desenvolvimento das vacinas, e, mais recentemente, o cronograma da vacinação no país.

Isso vale também para a cobertura de economia, que tem sido incrivelmente didática e ponderada, e sem cair da histeria tradicional desse setor jornalístico (especialmente o mercado acionário).

Enfim, está fazendo um jornalismo útil.

E a audiência?

"E o ibope?", perguntarão alguns leitores. "A CNN tem muito menos ibope que a GloboNews, não é?"

Sim, é verdade.

Assim como é verdade que a emissora do Grupo Globo é um adversário veterano, poderoso e competente, além de também muito confiável nas grandes coberturas.

Porém, também é verdade que a GloboNews vinha perdendo público e ibope da TV paga até meados de 2019.

Só que acabou se dando bem e surfou na onda "pandemia" de coronavírus: há meses ela vem batendo recordes históricos de público, tendo ocupado varias vezes o 1º lugar no ibope da TV paga, enquanto a CNN mal fica entre os 20 canais mais vistos.

Porém há vários "senões" nessa sentença:

1 - A GloboNews tem 25 anos, há jornalistas que estão lá desde sua fundação; é uma máquina muito "azeitada";

2 - A GN conta com a infraestrutura gigantesca da TV Globo, bem como as equipes jornalísticas da TV aberta —além de bons sites estabelecidos como o G1, além do jornal "O Globo". Isso sem falar na rede de correspondentes internacionais e comentaristas de primeira linha;

3 - A GN é distribuída para quase a totalidade dos 14,8 milhões de assinantes da TV paga brasileira, enquanto a CNN mal chega para 10 milhões —se tanto.

É preciso levar tudo isso em conta na hora de comparar. A CNN ainda é, grosso modo, um bebê. Parrudo, sim, mas ainda um bebê como empresa e como marca no Brasil.

Mesmo assim, ainda falando em ibope, desde o primeiro mês ela já deixou outros concorrentes veteranos na rabeira, como a (ótima) Band News e a (péssima) Record News.

E o faturamento?

Por outro lado, comercialmente, a CNN chega a seu primeiro ano como um sucesso comercial estabelecido.

Neste mês, por exemplo, ela acaba de atingir a marca de 200 anunciantes. São 200 marcas que já exibiram seus produtos em suas telas multiplataformas.

É como se surgisse um novo anunciante quase uma vez a cada dois ou três dias.

Também já bateu parte de suas metas financeiras três anos antes do previsto. Isso significa que o "deus mercado" aprovou o produto.

Um dos motivos? Entre outros, seu público é mais elitizado que o da rival GloboNews, segundo pesquisas —algo que atrai anunciantes.

O que vem por aí

Jornalisticamente, o canal deixou de lado a "polêmica" dos bastidores por uma visível sobriedade e amplitude de seu noticiário.

Os debates se tornaram respeitosos e muitas vezes enriquecedores. Os telejornais trazem o mais importante do dia no Brasil e no mundo, e de forma concisa.

Não tem ocorrido uma "overdose" de comentaristas e analistas de todo e qualquer assunto, algo que ocorre em muitos momentos na GloboNews.

Os programas também são mais sucintos, ao contrário da concorrente que opta em programas cansativos de até três horas de duração.

Ou seja, há uma visível decisão de priorizar mais o jornalismo que a análise e o comentário jornalístico.

Sim, a análise e o comentário são fundamentais e necessários, mas não podem ser a base de um canal noticioso.

Também se nota uma preocupação com reportagens de maior fôlego ("CNN Séries Originais"); e até com cultura e gastronomia, com a exibição do excelente e instigante "Lugares Desconhecidos", um verdadeiro legado deixado ao mundo pelo chef Anthony Bourdain, morto em 2018.

Por tudo isso, a CNN merece ouvir um "parabéns a você" nesta data. Definitivamente ela está fazendo bem ao jornalismo brasileiro. Inclusive ao da concorrência, que teve de se mexer.

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