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Ricardo Feltrin

Análise: Antes mesmo de estrear, CNN Brasil já mudou telejornalismo

Apresentadores da CNN Brasil reunidos na festa de lançamento do canal, na semana passada, em SP - Divulgação
Apresentadores da CNN Brasil reunidos na festa de lançamento do canal, na semana passada, em SP Imagem: Divulgação
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

15/03/2020 03h33

Resumo da notícia

  • Novo canal de notícias pago estreia neste domingo às 20h
  • Sinal da CNN Brasil estará disponível para a maioria dos assinantes
  • Investimento já "chacoalhou" telejornalismo, TVs fechadas e também abertas
  • Um dos méritos antecipados do novo canal é valorizar uma combalida profissão

Maior empreitada do jornalismo nos últimos anos, a CNN Brasil estreia na noite de hoje (15), às 20h, na TV por assinatura.

O novo canal estará disponível para a maioria absoluta cerca de 15,5 milhões de assinantes desse serviço no país.

Já chega também como um sucesso comercial: todas as cotas de patrocínio e anúncios em sua grade inicial já foram vendidas.

Tamanho alcance na estreia vai ocorrer não só porque a emissora fez uma boa negociação com as grandes operadoras nos últimos meses, mas porque a maioria delas está desde ontem (14) abrindo praticamente todo seu cardápio para degustação aos assinantes.

Sorte, sim, mas também competência da novata.

Se a CNN Brasil vai se tornar referência no jornalismo nacional e suplantar suas rivais veteranas na TV paga, se vai ser um canal transparente e crítico, é algo ora impossível de prever ou adivinhar.

"Chacoalhão" no mundo da TV

Mas, uma coisa é certa e cabal: a nova emissora já tem o mérito de ter chacoalhado, de ter dado um choque no até então modorrento jornalismo televisivo —seja na TV aberta ou na paga.

Na TV aberta porque passou os últimos meses contratando profissionais das mais diversas emissoras comerciais.

São nomes de peso, de gabarito, de respeito e que farão falta às casas de onde saíram ou foram "saídos".

Ok, alguns já haviam deixado emissoras como a Globo (caso de Evaristo Costa e William Waack, por exemplo), mas coube à CNN Brasil reconhecer, recuperar seu valor e contratá-los.

Já outros, como Reinaldo Gottino, tinham não só respeito do mercado, dos colegas e do telespectador como também uma enorme audiência.

À frente do "Balanço Geral", da Record —é preciso reconhecer—, Gottino mudou a história das tardes da TV aberta no ibope.

Nem mesmo assim foi valorizado na emissora da Barra Funda.

"Cobertura especial" na concorrência

Já na TV paga o recém-nascido canal causou e está causando um verdadeiro "terremoto", obrigando os rivais a sair do profundo estado de letargia em que se encontravam havia anos.

A GloboNews até mudou sua grade dois anos atrás, mas ainda assim continuou uma emissora acomodada e com uma grade repetitiva e (ainda) pouco atraente.

Neste domingo de estreia da rival, a GloboNews anunciou que fará uma cobertura intensiva e com quase toda sua equipe jornalística a postos.

Publicamente, claro, a justificativa para a mobilização é o trágico avanço do coronavírus no Brasil e no mundo.

No entanto, até as cadeiras das redações da Globo no Rio ou em São Paulo sabem que tal mobilização tem outro nome, e não é o de um vírus: CNN.

Mais uma "coincidência deste domingo (15) é que, apesar de ter o dia inteiro para auxiliar e informar aos assinantes sobre a pandemia, a GloboNews só vai começar sua "cobertura especial" de seis horas sobre o coronavírus às 18h. Duas horas antes da estreia do novo concorrente.

"Levanta-te, Lázaro"

Já a RecordNews —aquela que em 2007 anunciou que revolucionaria (rá!) o telejornalismo e tomaria o espaço da detestada TV de notícias do Grupo Globo finalmente se mexeu.

Deve anunciar em breve mudanças completas e ressuscitar sua grade. E ressuscitar é a palavra correta para uma TV que hoje está morta.

Até a Band, um canal comercial aberto, anunciou "coincidentemente" para esta segunda-feira (16) uma reformulação total de sua grade matinal. Agora terá jornalismo ao vivo desde as 3h45 —15 minutos antes do já "madrugador" "Hora 1", da Globo.

SBT e Record também devem ter mudanças nas próximas semanas.

O SBT aguarda ordens de Silvio Santos —que retornou ontem das férias—, para eventuais mudanças na grade.

O dono do SBT, conhecido por nunca ter dado valor ao jornalismo (a despeito de saber que ele é sinônimo de prestígio), agora talvez acorde. Nem que seja na marra.

Assim como a RecordNews, a RecordTV, por sua vez, também deve esperar para agir e mexer na programação.

Afinal, certamente não vai querer passar recibo ao seu ex-vice-presidente de Jornalismo e agora "pai" da CNN Brasil, Douglas Tavolaro.

A verdade é que, com ou sem ibope, agrade ou não ao telespectador, a CNN Brasil já tem seu lugar na história do telejornalismo e da TV brasileira. E isso antes mesmo de estrear.

Não só por tudo que listei nos parágrafos acima, mas também —e principalmente— por ter se tornado literalmente um sopro de vida e esperança para uma profissão que, no momento, se não agir como lambe-botas do atual governo, é perseguida, massacrada, menosprezada e ofendida.

Claro que ainda não conhecemos a linha editorial da CNN Brasil e se ela vai ou não adotar uma postura isenta, crítica e combativa em relação ao maquiavelismo vigente (ou aos vindouros).

Mas, isso, só o tempo e seu jornalismo dirão.

Por ora merece todos parabéns e as boas vindas dos brasileiros. E do jornalismo.

Ricardo Feltrin no Twitter, e site Ooops

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL