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Rafinha Bastos: Após glória e inferno, agora ele emerge na Broadway

Rafinha Bastos  - Divulgação
Rafinha Bastos Imagem: Divulgação
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

09/02/2020 12h33

Resumo da notícia

  • Rafinha Bastos se apresenta na Broadway no dia 26
  • Hoje ele mora a 5 quadras da Times Square e se diz realizado
  • Sua melhor lembrança, diz jocoso, era quando gravava telessexo

Rafinha viveu um longo período de glória, depois desceu ao inferno e agora reemerge triunfalmente na Broadway, a meca dos espetáculos mundiais, nos EUA.

Como artista e celebridade, Rafael Bastos Hocsman, o Rafinha, subiu aos céus da idolatria fanática, desceu às catacumbas dos "haters" e da patrulha após uma piada e, qual fênix, agora retorna ao sucesso. Sucesso internacional.

Hoje ele está confortavelmente instalado a cinco quadras da Times Square, em Nova York. Nada mau para um humorista brasileiro.

Para uma pessoa que foi tão atacada, ofendida e processada, o comediante, produtor de conteúdo para internet e (bom) jogador de basquete de 43 anos até que continua sendo uma pessoa transparente, afável e, claro, jocosa.

Parece nunca se exaltar com os algozes jornalistas, mas também não deixa de fazer o entrevistador saber quando não gosta de uma pergunta.

Só que ele faz isso por meio do seu inteligente sarcasmo, e não pelo estrelismo (como muitos de seus conterrâneos artistas).

Para tristeza de muitos de seus detratores (ou talvez só invejosos), Rafinha não só está fazendo sucesso e lotando as principais casas de humor dos EUA, como ainda faz muito sucesso e tem um público imenso no Brasil.

São quase 2,5 milhões de inscritos no YouTube, 11,6 milhões no Twitter, 4,2 milhões no Facebook e 1,4 milhão no Instagram (que este colunista começou a seguir logo após esta entrevista —devido a um "pito" do entrevistado).

Está feliz no amor, orgulhoso com o filhão e satisfeito com o novo país que o abrigou sem preconceito: os EUA.

Em parceria com dois de seus amigos humoristas, Maurício Meirelles e Fábio Rabin, Rafinha se apresenta no prestigiado clube de humor Carolines da Broadway, no próximo dia 26.

Mais exemplo de sucesso para um humorista (seja de que país ele for), impossível.

O show será todo em inglês e os ingressos variam de US$ 20 a US$ 96 (mais a passagem aérea de ida e volta e a hospedagem aos interessados, aviso: Rafinha não aluga quartos).

Se o ex-CQC e ex-repórter de A Liga (Band) se arrepende de algo na vida? Se acha que o "CQC" tem culpa por ter dado exposição ao atual e destrambelhado presidente Bolsonaro? Se ele mudaria algo no passado?

Bom, a resposta para todas essas perguntas é não, mas só lendo pra crer.

Veja agora a íntegra da entrevista exclusiva com Rafinha Bastos

Primeiro queria que falasse sobre sua infância e adolescência até a faculdade, sobre seus pais, e sobre como foi crescer no Sul do país. De onde veio a vontade de trabalhar com humor e, em especial, com TV? Você tinha algum talento nisso já desperto quando criança?

Rafinha Bastos - Certeza que você quer começar nosso papo assim?

Já vai querer mandar na minha entrevista?

Rafinha - Queria ter uma história dura, triste ou surpreendente para contar, mas não tive a infância mais sofrida do mundo.

Fui um menino de classe média que nasceu em Porto Alegre em 1976 e lá viveu até 2003 quando sua namorada o trocou por um argentino.

Eu sinto que já tinha uma veia cômica desde a infância, mas apenas na quarta série eu descobri que o humor poderia me ajudar na vida.

Eu lembro que tinha um professor chamado Ricardo, de geografia, que me dava meio ponto para toda resposta que eu desse na prova que o fizesse rir.

Ele anotava em caneta vermelha: 'Hahaha!!! Essa foi ótima', e me recompensava. Desde ali entendi que esse negócio de comédia poderia ser um bom caminho.

Você fez jornalismo e jogava basquete bem. Como foi acabar na TV? Seu primeiro emprego em TV foi na Manchete em 96, é isso? Pode falar um pouco dessa estreia, o que fazia etc?

Rafinha - Meu sonho não era ser comediante, era ser jogador de basquete. Inclusive joguei profissionalmente até os 24 anos.

Fiz faculdade de jornalismo porque sempre gostei de televisão. Eu queria trabalhar nas transmissões esportivas da NBA. Só pra isso que fiz a faculdade.

Já em 96 trabalhei na Manchete, depois na TVE e na RBS (Globo-RS). Iniciei como produtor de externas do telejornal nacional da Rede Manchete. Só comecei a fazer reportagens mesmo, aparecendo no vídeo, depois de dois anos.

Achei que meu caminho seria esse: viver luxuosamente com a incrível bagatela de R$ 900 por mês (era meu salário). Felizmente eu não era muito competente e tive que buscar outra opção.

Em 1999, fui jogar basquete nos Estados Unidos e comecei a produzir conteúdo para internet. Ali tudo mudou. Aquele moleque comediante da quarta série ressuscitou.

Você é considerado um dos "pais" da stand-up comedy no Brasil, mas o que pouca gente sabe é que você é um dos "pais" do humor na própria internet. Em 97 você já tinha uma página, né? Do que se tratava? Tinha vídeos? Pergunto isso porque era o tempo da internet discada...

Rafinha - Exatamente. Eu fui o primeiro indivíduo a produzir vídeo para Internet no Brasil.

Ninguém achava que vídeo seria uma opção viável porque a conexão à internet naquela época era terrível. Você lembra? Passávamos a madrugada inteira conectados à linha telefônica.

Uma geração inteira teve o seu sono destruído pelo costume de ligar o computador à meia-noite e desligar às 6h da manhã (quando a companhia telefônica passava a cobrar um pulso por minuto).

Eu não tinha condições de fazer cenas, então eu produzia clipes de música.

Eram paródias onde eu usava a música original e criava um vídeo em cima. De Abba a Kid Vinil. Tudo começou ali. A 'Página do Rafinha' ficou gigante. Foi um dos primeiros sites independentes do país.

E essa história de que você fez locução para disque Telessexo, confere? Me dê detalhes sobre esse interessante trabalho?

Rafinha - Sim! Por incrível que pareça, tive trabalhos menos dignos do que ser apresentador da Rede TV. Fiz parte de um time de locutores que gravava áudios eróticos para uma operadora de telefonia.

Era sensacional. Foi o primeiro dinheiro que ganhei São Paulo. Levava R$ 150 por hora, salário maior do que recebia quando era jornalista.

Não tenho vergonha desse tempo. Já o meu pai não sei se posso dizer o mesmo.

Assim como tooodo mundo vivo sobre o planeta, além de youtuber você também foi DJ, certo?

Rafinha - Mas, ao contrário dos BBBs, eu era DJ mesmo. Trabalhei durante quatro anos numa festa em São Paulo chamada Trash 80s. Conheci muita gente legal ali.

Foi um dos momentos mais legais da minha vida. O perfil da festa se encaixava muito com o trabalho que eu fazia na internet, então deu tudo certo.

Antes do "CQC" você também passou pelo canal GNT e pela 89FM. O que fazia nessas empresas?

Rafinha - Fui elenco fixo da primeira série de ficção da Globosat: 'Mothern'. O programa fez muito sucesso na época e, inclusive, fomos a duas finais do Emmy Internacional. Foram três temporadas. Sinto saudade dessa época.

Já na rádio 89, eu fiz um programa sobre sexo.

Chegamos a 2008 quando você é contratado pela Band e vai para a bancada do "CQC". Por três anos você terá o que considero sua melhor fase como artista. Como foi parar na Band? Você já conhecia os que seriam seus parceiros, Marcelo Tas e Marco Luque?

Rafinha - Minha melhor fase como artista foi, sem dúvida, gravando incríveis e memoráveis áudios eróticos, mas obrigado pelas palavras, amigo.

No ano de 2009, eu lotava teatros pelo Brasil inteiro fazendo stand-up.

Uma vez, a Elisabetta Zenatti, diretora de programação da Bandeirantes e minha grande amiga até hoje, foi assistir e me chamou para uma conversa.

Perguntou o que eu gostaria de fazer na televisão. Respondi: algo que misture humor e jornalismo. Um ano depois, a emissora trouxe para o Brasil o CQC e eu fui o primeiro a ser contratado. No início, éramos apenas dois produtores e eu. Nada mais.

Eu não conhecia direito nem o Marcelo (Tas) e nem o Marco (Luque). Achei que o apresentador seria o Cazé, mas quando descobri que era o Marcelo, fiquei feliz.

Vocês tinham amizade fora do ar?

Rafinha - Os nossos encontros se davam apenas às segundas-feiras. Eu não frequentava a casa de nenhum dos dois.

Sempre fomos pessoas muito diferentes. Os mais próximos a mim ali eram o Oscar e o Danilo (Gentili), pois já fazíamos shows juntos havia muito tempo.

Tenho que perguntar isso pois é tema que sempre volta à baila. Nesses anos o Bolsonaro era personagem frequente do "CQC". Você considera que o "CQC" teve algum tipo de "culpa" ao expor tanto uma pessoa com ideias tão retrógradas? (essa opinião é minha, se quiser discordar, fique à vontade)...

Rafinha - Muitas pessoas dizem que o grande erro do programa foi ter dado voz ao Bolsonaro. Eu não acho isso. Acho que o grande erro do programa foi ter dado voz ao Rafinha Bastos.

Claro que tenho de perguntar isso também: 2011 marcou ao mesmo tempo seu auge e sua queda. Auge com a citação do "NYTimes", que o considerou o perfil de twitter mais influente do mundo; queda porque é o fatídico ano da piada sobre o bebê de Wanessa Camargo. Pode falar sobre o primeiro momento e o segundo?

Rafinha - Foi um ano de muitas emoções. Comecei um namoro com a possibilidade de fazer comédia no exterior (exatamente o que estou fazendo agora).

Quanto a uma piada? Não, não considero uma queda. Quantos comediantes têm o privilégio de ter uma piada ruim lembrada pra sempre? Lindo isso.

Uma vez você me disse que sua vida tinha um divisor de águas: antes e depois de ser notícia no "NYTimes". Entendi o que quis dizer mas gostaria que dissesse de novo aqui. A citação do "NYT" se tornou uma espécie de maldição, não é? Você atraiu inveja, raiva, despeito, rancor de muita gente, não?

Rafinha - Verdade. Meus amigos e familiares me acham meio louco por nunca ter sofrido muito durante todo esse período.

Eu me diverti muito. Confesso. Eu era jornalista do Rio Grande do Sul e ganhava uma miséria. Hoje meu filho estuda numa escola legal, tenho um apartamento, moro em NY onde faço que eu amo (stand-up) e produzo o que eu quero na internet com um público gigantesco. Não vejo motivo para chateação.

Porém você também atraiu coisas ruins por sua própria língua, cert? Lembro que era um momento em que o patrulhamento nas redes cresceu exponencialmente (suspeito que no twitter). A brincadeira (de mau gosto) com o bebê ocorreu num momento em que a Band estava crescendo no ibope, creio... Abra seu coração e diga do que se arrepende e do que não se arrepende?

Rafinha - Estou respondendo essa entrevista do meu apartamento que fica a cinco quadras da Times Square. Tá tudo bem. Acredite. Se eu me estender muito sobre esse assunto, a tua manchete vai ser 'Rafinha não se arrepende' ou 'Rafinha se arrepende', e aí eu digitei todas as respostas acima pra nada... então nem vale mais falar nisso.

Eu creio que se você fizesse essa mesma piada hoje as consequências seriam ainda piores...

Rafinha - Eu levaria choques na minha bola esquerda com certeza... ou então levaria beliscões no mamilo... ou tiro de espingarda na virilha.

Outra coisa que você me contou de passagem foi que quando a Wanessa e o marido dela te processaram, você foi meio teimoso. Vocês poderiam ter chegado a um acordo bem antes, o processo não precisava ter crescido, é verdade?

Rafinha - Feltrin... 2011, irmão. Faz 9 anos. Um editor vai fazer a manchete da matéria e de novo eu vou sair falando da mulher. Vai entrevistar ela e pergunta de mim. Vai lá. Não te deixam nem acabar a frase, 'champz'.

Não se preocupe, dessa vez eu sou o editor e eu vou fazer o título da entrevista. E, pensando bem, não teria nada a perguntar para Wanessa. Talvez exceto sobre o que ela achou daquela famosa paródia dela dançando som de exu caveirinha. Mas, pera, vamos voltar à entrevista... Quando a Band te suspendeu (por causa da piada) eu soube que NENHUM dos seus colegas de "CQC" te deu alguma solidariedade e nem mesmo um telefonema. Estou errado?

Rafinha - Está. O Oscar Filho me mandou um coala de pelúcia.

Chega de passado. Por que mudou para os EUA? Pretende voltar?

Rafinha - Eu sempre tive o sonho de fazer carreira naquilo que amo, no lugar onde isso começou (e obviamente é mais forte).

É como o jogador de futebol que tem a oportunidade de ser contratado por um clube da Espanha. Ele quer estar entre os melhores e ter essa oportunidade é quase um sonho.

Sinto que estou fazendo isso. Criativamente, pra mim, é incrível e sinto que é muito importante para os meus colegas comediantes. A turma toda vibra muito por mim. É lindo saber que um colega está lá! No lugar que a gente sempre sonhou estar um dia.

Você não se apresenta só para brasileiros aí, não é? Você também faz apresentações em inglês para norte-americanos. Como tem sido a recepção?

Rafinha - Tem sido ótimo. Brinco muito com o fato de ser latino e tiro muito sarro dos próprios americanos. Tem dado super certo.

Hoje sou elenco da maioria dos grandes clubes de comédia de Los Angeles e de Nova Iorque. Isso é um sonho. É gigantesco.

Quem é comediante sabe o tamanho disso. É muito difícil explicar isso para o meu público brasileiro. Adoraria que a galera entendesse o quão importante é isso e o quão difícil é chegar onde eu tô.

Fale desse novo projeto que você está fazendo aí? Sobre essa apresentação conjunta com Fábio Rabin e Maurício Meirelles (é isso?). Pode passar a ficha do espetáculo, quando, onde, ingressos etc.

Rafinha - Estarei com os meus dois amigos em uma apresentação especial num maiores clubes de comédia do mundo: o Carolines em NY. O show, em inglês, é no dia 26 às 19h. Ingressos podem ser adquiridos neste endereço (Carolines):

Não é muito difícil para um brasileiro ir trabalhar nos EUA numa área tão competitiva como o humor, o stand-up? Você não sofre nenhum tipo de preconceiro, tipo —"alá o cidadão do terceiro mundo querendo fazer graça?"

Rafinha - Creio que não.

Tem intenção de voltar ao Brasil?

Rafinha - Eu volto a cada dois meses. Tenho que gravar meu conteúdo para internet. Faço tudo de SP. Ainda aproveito essas vindas para fazer alguns shows no meu bar, o Comedians.

Pode falar algo de vida pessoal? Está namorando, casado ou, como diria o Silvio Santos, "tico tico no fubá"?

Rafinha - Estou namorando com uma pessoa maravilhosa que está aqui do meu lado me obrigando a escrever isso.

Agradeça a ela por mim...

Rafinha - Conheci ela nos Estados Unidos e já estamos juntos há mais de um ano. Ela é incrível. A melhor pessoa que já conheci na minha vida. Essas última frase ela também me obrigou a escrever.

Pretende ter filhos?

Rafinha - Feltrin... Abre meu Instagram. 60% das minhas fotos são do meu filho. Onde você estava nos últimos nove anos? Você tem algum plug-in no seu computador que bloqueia foto de crianças? Pelo amor de Deus!

Talvez eu apenas não esteja seguindo você, não precisa se magoar. Mas, basicamente, você está certo. No Instagram eu só posto bobagens e pulo sempre que vejo casais felizes, famílias reunidas e crianças. Mas, ok, vou começar a seguir você agora...

Ricardo Feltrin no Twitter, e site Ooops

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL