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Vargas Llosa lamenta que "ódio ainda prevaleça na América Latina"

28/09/2021 21h51

Daniela Brik.

Quito, 28 set (EFE).- O escritor peruano Mario Vargas Llosa considera que o ódio pauta os rumos político e social na América Latina, dificultando o progresso da região.

"Infelizmente, na América Latina, o ódio ainda prevalece entre as diferenças políticas, e isso nos impede de estabelecer os sistemas de convivência que são essenciais para o progresso de um país", disse Vargas Llosa em entrevista à Agência Efe em Quito, no Equador.

O Nobel de Literatura de 2010 recebeu na segunda-feira, das mãos do presidente equatoriano e seu amigo, Guillermo Lasso, a medalha de "mérito na Ordem da Grande Cruz" por sua contribuição à promoção da literatura.

Na entrevista, o escritor, de 86 anos, comentou sobre os principais males que, em sua opinião, afligem a região.

"A pandemia tem sido verdadeiramente trágica para a América Latina. Os países vão sair dela muito mais pobres do que eram", afirmou.

Vargas Llosa também criticou o mau funcionamento dos sistemas de saúde latino-americanos, que mesmo assim não impediu o fortalecimento do Estado como "o grande provedor de todas as necessidades", algo que, segundo ele, é "o que querem os socialistas, os extremistas, uma ideologia retrógrada".

LATINO-AMERICANO UNIVERSAL.

Ao entregar a honraria, Lasso definiu o escritor como um "latino-americano universal" que defendeu os mesmos princípios humanos ao longo de sua carreira em uma região onde "ser liberal é um ato de rebeldia".

O autor de "A festa do bode" (2000), no entanto, não vê tudo perdido, pois assim como as democracias são frágeis, ele também destaca o desgaste que algumas ditaduras estão sofrendo.

"Pela primeira vez em 62 anos, os cubanos, no auge do desespero, foram às ruas", algo que ele não viu como uma surpresa, ao contrário de "muitos outros que acreditavam no paraíso socialista".

Vargas Llosa também elogiou o caso do Equador, onde em maio o primeiro governo de centro-direita e liberal tomou posse após duas décadas de governos identificados com a esquerda, um exemplo que ele espera "seja seguido por muitos países da América Latina", embora reconheça as limitações.

O Equador, "um dos menores países da América Latina", será "grande e poderoso com Lasso no poder" se "o deixarem transformá-lo no país com que sonha", disse o escritor em seu discurso de recebimento da condecoração.

Crítico incansável dos governos autoritários, como o de Alberto Fujimori em seu próprio país, ele alegou que seu apoio a Keiko Fujimori nas últimas eleições no Peru foi "um mal menor" para impedir que o atual presidente, o esquerdista Pedro Castillo, de quem ele "nada espera", chegasse ao poder.

Equador e Peru deram guinadas em sentidos diferentes, e a incerteza prevalece diante do que pode acontecer nas próximas eleições em Chile, Nicarágua e Honduras. Mas não há outras opções na região além do populismo de esquerda ou do neoliberalismo de direita?

O escritor argumentou que "sim, há mais opções", mas que "na América Latina não há terreno fértil para estas possibilidades".

Os pecados mortais que enumerou - corrupção, falta de democracia e falta de respeito pelo adversário - são considerados por ele um grande obstáculo para "a comunicação que existe em países verdadeiramente democráticos".