Black Pantera celebra identidade em turnê: 'O rock nasceu da cultura preta'

O Black Pantera dá início a turnê do álbum "Perpétuo" nesta quinta-feira (13), em São Paulo. Prometendo tocar o disco na íntegra, Chaene da Gama (baixo), Charles da Gama (voz e guitarra) e Rodrigo Pancho (bateria) sobem ao palco do SESC Pompeia celebrando suas identidades afrolatinas e ancestralidade, que são os pontos de partida para o novo trabalho da banda de Uberaba.

O trio mineiro, que tem festivais como Rock In Rio, Lollapalooza e Afropunk no currículo, se prepara para a agenda de shows com datas até dezembro — incluindo apresentações com os veteranos do Living Colour, que passam pelo Brasil em outubro.

O som continua uma mistura de metal, punk e harcore, mas "Perpétuo" é diferente dos trabalhos anteriores da banda. As doze faixas vêm com o peso habitual, porém com mais instrumentos percussivos e uma pegada melódica. O trabalho tem 12 faixas e nasceu após uma apresentação da banda no Festival Rockdromo, no Chile.

"Era uma banda representando cada país. Nessas trocas a gente viu que a galera ali estava cagando pros Estados Unidos e Europa. A gente tinha acabado de lançar o 'Griô', nosso álbum com músicas em inglês, mas decidimos apresentar nosso trabalho em português, mesmo porque achamos que seria melhor recebido. E a gente sentiu que a galera tem muito orgulho de ser da América Latina. O calor humano é outro. Esse disco vem com essa energia", lembrou o baterista Rodrigo Pancho.

Show do Black Pantera no Rock in Rio 2022
Show do Black Pantera no Rock in Rio 2022 Imagem: Wagner Meier/Getty Images

Essa viagem impactou os músicos e os fez pensar no que é ser um afrolatino e suas raízes — criando um diálogo com laços ancestrais. Essa influência deu nova sonoridade às músicas em um processo, que segundo eles, aconteceu de modo natural.

Nessa miscelânea de culturas diferentes, a gente se permitiu trazer as músicas dessa forma. A gente é livre para compor, e o disco reflete muito o que a gente está vivendo. Nada impede que, no próximo, as coisas mudem. Chaene da Gama, baixista

"Tradução", uma das músicas de trabalho do álbum, é uma homenagem à mãe de Chaene e Charles. Lançada duas semanas antes do álbum, às vésperas do Dia das Mães, está tocando nas rádios e chegando a novos públicos.

"Tradução catou uma galera que nunca ouviria a banda. É uma música sobre como o racismo estrutural impactou a vida da minha mãe e impacta a de tantas outras mulheres. Tem gente comentando que ouviu o single e depois ouviu o disco, viu que era uma banda mais pesada, mas ainda assim vai acompanhar. É o poder da arte. Está sendo incrível de ver e viver nesse momento.", completou o baixista.

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Assista ao vídeo da música 'Tradução', do Black Pantera

Já Charles explica que a mãe é um importante alicerce nesses dez anos de Black Pantera e que foi ela quem praticamente obrigou o irmão Chaene a gravar os baixos das primeiras músicas do projeto.

Minha mãe foi aquela pessoa que, quando eu estava compondo as canções sozinho, era a primeira a escutar. Ela sempre deu pitaco, antes mesmo da nossa formação atual. Ela foi realmente a primeira que nos ouviu e gostou. Charles da Gama, vocalista e guitarrista

O trio Black Pantera
O trio Black Pantera Imagem: Marcos Hermes/Divulgação

Nova guinada

O trio acredita que essa é uma nova fase da banda que chega com uma expansão do público. O que se reflete nos números de streamings que em pouco menos de um mês do lançamento de "Perpétuo" dobraram (escute o álbum neste link). Desde o Rock in Rio, em 2022, os músicos passaram a viver da banda — antes se dividiam em trabalhos paralelos.

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Esse é o primeiro álbum em que o Black Pantera se dedicou integralmente à música. Essa autonomia conquistada pela banda se reflete no trabalho.

Capa de 'Perpétuo', novo disco do Black Pantera
Capa de 'Perpétuo', novo disco do Black Pantera Imagem: Reprodução

Eu acho que a gente furou várias bolhas desde o primeiro acorde. Não é fácil ser uma banda preta nesse país. E agora temos 'Tradução' tocando na rádio. A gente faz letras contundentes e didáticas. Nossas músicas evoluíram muito nesses dez anos. Chaene da Gama, baixista

Veja abaixo as datas da turnê que começa nesta quinta (13), em São Paulo

Junto dessa guinada, vem o reconhecimento. A agenda da turnê inclui duas datas com o Living Colour. A banda fará o show de abertura na passagem dos norte-americanos por São Paulo e Belo Horizonte. "Vão ser noites de celebração da música preta rock'n roll. A gente ouvia os caras no vinil, via nas revistas e no VHS. Agora estaremos com eles. Vai ser incrível", comemorou Charles.

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Os músicos também celebram a mudança de público nos shows que está cada vez mais diverso, ainda que o espaço do rock ainda seja, em sua maioria, branco.

A apresentação do Black Pantera no Rock in Rio, em 2022
A apresentação do Black Pantera no Rock in Rio, em 2022 Imagem: Wagner Meier/Getty Images

Tem que ter paciência, tem uma galera que odeia a nossa existência porque a gente toca na ferida. Os caras estão pegando fogo sozinhos. Mas o rock nasceu da cultura preta, é um tempo de retomada e a gente vai caminhando aos poucos. Existem outras bandas na cena como a Punho de Mahin, Crexpo, Devotos, Hardgainer, com músicos negros, Facing Fer, com vocal preto, e a MC Taya também. É preciso mais espaço. Chaene da Gama, baixista

Black Pantera

Quando: quinta, 13/6, às 21h30
Onde: SESC Pompéia (r. Clélia, 93, Água Branca, São Paulo, SP)
Quanto: R$ 15 (comerciários associados), R$ 25 (meia) e R$ 50 (inteira)
Ingressos à venda no site do SESC Pompéia.

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