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'Grande Sertão' rejeita rótulo de 'favela movie': 'É a tragédia brasileira'

"Grande Sertão" chega hoje (6) aos cinemas de todo o Brasil. O filme é uma releitura da obra "Grande Sertão: Veredas" (1956), de Guimarães Rosa, com objetivo de retratar a guerra urbana brasileira entre bandidos e policiais num futuro distópico, mas sem perder a linguagem poética da obra original.

Estava na hora de fazer um filme sobre a guerra urbana brasileira com mais pontos de vista, diferente do 'favela movie', que já virou quase um gênero do cinema brasileiro. Era hora de achar um jeito de ter um ponto de vista de todos os participantes dessa guerra, inclusive dos bandidos.
Guel Arraes, diretor do filme, em depoimento para Splash

Caio Blat e Luisa Arraes vivem Riobaldo e Diadorim em Grande Sertão
Caio Blat e Luisa Arraes vivem Riobaldo e Diadorim em Grande Sertão Imagem: Divulgação

"É a tragédia brasileira"

Convidado para "Grande Sertão" pouco antes da pandemia, Guel Arraes levou um mês para aceitar dirigir o filme. A obra literária é uma obsessão entre os diretores de cinema, mas, ao mesmo tempo, é tão desafiadora que faz muitos pensarem bem antes de colocar as mãos.

Minha questão era: 'o que a gente pode tentar acrescentar de ideia a esse monumento literário para que essa adaptação não fosse uma ilustração?'. Falei: 'sei que tem mil portas para entrar no "Grande Sertão" e mil filmes podem ser feitos, mas vamos encontrar a nossa'. Adaptar "Grande Sertão" é um negócio grande.
Guel Arraes

Ele e Jorge Furtado, parceiro de roteiro, se deram conta que a história de guerra entre jagunços e a policiais no século XIX cabia com o contexto de guerra atual do Brasil. O desafio era dar voz e não tomar partido de nenhum dos lados.

"No Brasil, não há ninguém que esteja próximo de pensar uma solução que não seja ruim a curto prazo, como a direita, ou que não seja boa a longuíssimo prazo, como a esquerda. Ou seja, não há solução no momento e os artistas não dão solução. O 'Grande Sertão: Veredas' é contado pelo bandido Riobaldo", analisa.

O longa, inclusive, rejeita o rótulo de "favela movie" por entender que não induz ninguém a tirar conclusões sob a ótica do crime e polícia. "É muito difícil ter um ponto de vista dos bandidos também para fazer um filme que, em geral, seria uma produção razoável, um filme pop. Você tem empatia também com esse lado e era uma dificuldade".

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A gente não pode banalizar essa guerra. A gente tem que ver que isso é a tragédia brasileira. Então, tem um tom de tragédia. Tudo é grande, as falas são enormes, a guerra é enorme.
Guel Arraes

A história

Numa grande comunidade da periferia brasileira chamada "Grande Sertão", a luta entre policiais e bandidos assume ares de guerra e traz à tona questões como lealdade e traição, vida e morte, amor e coragem, Deus e o diabo. Riobaldo (Caio Blat) entra para o crime por amor a Diadorim (Luisa Arraes), um dos bandidos, mas nunca tem a coragem de revelar sua paixão.

Caio Blat interpreta Riobaldo em duas etapas no filme. Ele aparece na versão presidiário já idoso, narrando a história de vida, e depois na transição da função de professor para criminoso ainda jovem, em virtude da paixão por Diadorim.

É o personagem mais gigante no sentido que ele vê tudo. Ele começa acreditando que a educação vai mudar o sertão, a polícia e a política vão mudar o sertão e, de repente, os bandidos é quem podem transformar o sertão e estabelecer a paz. Ao mesmo tempo, ele é o cidadão mais comum. Ele é o homem mais comum e que carrega a herança do sertão.
Caio Blat

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Luisa Arraes deu a vida a Diadorim, que nasceu mulher, mas optou ser criada como homem para ser como o pai. "Interessante é que ele questiona a essência. Quando a gente é criança, essas margens do gênero são menos rígidas do que elas são quando somos mais maduros, digamos assim. Então, Diadorim é filha de Joca Ramiro e é a maior lutadora, guerreira. É pra ser a sua sucessora."

Luis Miranda e Rodrigo Lombardi representam a ordem como Zé Bebelo (polícia) e Joca Ramiro (chefe da organização criminosa) em "Grande Sertão". Eles não escondem que impressiona a obra de Guimarães Rosa de quase 70 anos atrás ser tão atual.

Quando você assiste ao filme, você pergunta: 'mas quem é quem? Quem eu acredito? A manchete do pensamento correto tá na boca de quem?'. Na verdade, é uma grande lei da selva. Cada personagem emana o que é humano. Não é da característica desse ou aquele personagem. Está tudo dentro da gente.
Rodrigo Lombardi

O Zé Bebelo vira um anti-herói porque tem uma luta muito maior do que a do sertão, tem a luta humana. Como é que o você tira de dentro o que tá mais corroído do ser humano, que é a maldade e destruição... Essa sensação de uma história recorrente que o Guimarães vem trazendo com estes personagens é extremamente importante para mostrar que continuamos discutindo as mesmas coisas.
Luis Miranda

Eduardo Sterblitch está presente na trama como Hermógenes, o diabo. O desafio de interpretar um personagem que representa "violência, morte e dor" mexeu com o ator. "Ele é o mal mesmo. Me deu esse medo de enfrentar isso, já vi muita gente fazendo o diabo de muitas formas. A gente descobriu que esse diabo era o diabo da violência, da morte, da dor. O diabo que a gente fica se sentindo abismado todo dia, de como o ser humano consegue ser cruel. Ele é essa energia."

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Elenco de Grande Sertão: Caio Blat (Riobaldo), Luisa Arraes (Diadorim), Luis Miranda (Zé Bebelo), Rodrigo Lombardi (Joca Ramiro), Eduardo Sterblitch (Hermógenes), Mariana Nunes (Otacília), Luellem?de?Castro (Nhorinhá), Vittória Seixas (Diadorim - 1ª fase), Vitor Valle (Riobaldo - 1ª fase) e Maria Eloiza (Nina).

"Grande Sertão" chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (6). A expectativa é que o longa tenha mais de 300 salas disponíveis no país e fique seis meses em cartaz — segundo a Globo Filmes.

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