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OPINIÃO

'Ms. Marvel' é o sopro de leveza necessário para histórias de super-heróis

Iman Vellani estreia como protagonista em série da Marvel sobre heroína muçulmana - Marvel Studios/Divulgação
Iman Vellani estreia como protagonista em série da Marvel sobre heroína muçulmana Imagem: Marvel Studios/Divulgação

Laysa Zanetti

De Splash, em São Paulo

08/06/2022 04h00

A estratégia da Marvel parece ser a de não deixar o fã respirar. Desde que foram retomados, após um período parados em razão da pandemia, os lançamentos surgem um atrás do outro invadindo as telas (seja do cinema ou do streaming) sem que o espectador passe mais do que algumas semanas aguardando as conexões entre uma história e outra.

A esta altura, parece até prova de vestibular: você precisa se lembrar de detalhes de três séries distintas para conseguir entender 10 minutos de cena de um filme específico. A tendência é piorar, mas ainda há esperança e originalidade escondidas por aí.

E essa originalidade vem com um título bastante propício: "Ms Marvel".

A nova série chega ao Disney+ um mês após "Doutor Estranho no Multiverso da Loucura" ter sido lançado nos cinemas, e apresenta Kamala Khan, uma jovem de 16 anos que ganha superpoderes e se transforma em heroína.

Kamala incorpora a energia de um fã, em todos os sentidos. Empolgada com os ídolos, ela escreve fan-fiction, é apaixonada por videogames e superfã da Capitã Marvel. Seu grande objetivo é conseguir ir à AvengerCon (uma convenção para quem gosta dos Vingadores).

Por isso, quando ela ganha seus poderes e começa a desbravá-los, sua primeira reação é de deslumbre.

Ela reage com a empolgação com que reage um fã que chega perto de seu cantor favorito depois de passar horas na fila do show. E esta realização acontecer com uma adolescente de família paquistanesa criada na religião muçulmana em Jersey City, no estado de Nova Jersey, só deixa tudo ainda mais saboroso — sobretudo quando se trata de um lugar que, por décadas, foi entendido como propriedade do homem branco padrão.

Por isso, a história de Kamala Khan vir em primeiro plano (pelo menos é o que acontece nos dois primeiros episódios da série) é um grande salto diante do que vimos recentemente em histórias de novos heróis sendo apresentados ao Universo Cinematográfico Marvel.

Mesmo que em "Gavião Arqueiro" Kate Bishop fique empolgada diante de Clint Barton, o tipo de fã que Kamala representa se aproxima muito mais daquele que vai para o cinema à meia-noite para assistir à estreia do novo filme do Homem-Aranha, por exemplo. Kamala é um sopro de energia positiva, que na mesma intensidade se distancia daquele ar autoritário e irredutível em que se camuflam alguns autointitulados especialistas.

Kamala Khan (Iman Vellani) ganha seus poderes em 'Ms Marvel' - Marvel Studios/Divulgação - Marvel Studios/Divulgação
Kamala Khan (Iman Vellani) ganha seus poderes em 'Ms Marvel'
Imagem: Marvel Studios/Divulgação

Diante de tantas histórias que se conectam quase que por obrigação, criando uma teia que torna mandatório para um espectador assistir a todos os filmes e séries lançados recentemente para entender o que virá em seguida, o fato de "Ms Marvel" trazer tanta empolgação com o novo vai na contracorrente e faz o básico, tornando este universo mais uma vez um pouco mais convidativo.

Em termos de frescor e criatividade, a estética da série está mais aliada à animação "Homem-Aranha no Aranhaverso" (2018) do que a qualquer outro título do MCU lançado recentemente. Ambos encontram inovação e dão lugar à diversão antes de mais nada, deixando as cores vibrantes e as referências de quadrinhos trabalharem como aliadas da trama.

É inevitável que "Ms Marvel" percorra o caminho padrão de séries da Marvel que estreiam no Disney+, aos poucos conectando-se ao grande escopo dos filmes e de todo o restante do MCU. Nos dois primeiros episódios, isso já começa a acontecer e, futuramente, a personagem seguirá para os cinemas ao lado de sua grande heroína.

Mesmo assim, dá para respirar com alívio quando percebemos que a leveza e o entusiasmo, que estão tanto na personagem quanto em sua intérprete, a ótima Iman Vellani, são palpáveis em cada escolha narrativa. Pela primeira vez em muito tempo na Marvel, as decisões tomadas pelo roteiro e pela direção deixam histórias de heróis serem exatamente o que precisam ser: uma boa diversão.