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Tonico Pereira teme futuro fora da TV: 'Tive oito negócios e fali todos'

Filipe Pavão

De Splash, no Rio

20/05/2022 04h00

Aos 73, o ator Tonico Pereira se mantém ativo. Conhecido por papéis em séries e novelas da TV Globo, o veterano dirige a peça teatral "A Vida Não É Justa" e administra o brechó TPM Modas, ambos na cidade do Rio de Janeiro, enquanto não retorna às telinhas.

Em conversa com Splash, Tonico explica que tem a mania de empreender por considerar a "vida de ator" instável. É desse pensamento que surgiram diversos negócios ao longo da vida, mas que não se sustentaram financeiramente. Hoje, ele conta que foi a arte que o salvou das falências.

Eu tenho uma mania de criar negócios, tanto é que já tive oito negócios e fali todos eles.
Tonico Pereira, em papo com Splash

"Sempre que tive um negócio foi com medo da vida de ator não me sustentar, mas esse ator já pagou as oito falências que tive. Não ligo para o sucesso, mas sinto a necessidade de trabalhar. O sucesso é bobagem. O importante é o trabalho bem feito, com carinho, amor e necessidade pessoal", explica.

Atualmente, ele administra um brechó que leva o seu nome, o TPM Modas (Tonico Pereira Modas), localizado na Rua Real Grandeza, 177A, em Botafogo, Zona Sul do Rio. Tonico luta para mantê-lo em funcionamento após tempos difíceis causados pela pandemia da covid-19.

"O TPM Modas está de pé, mas me deu um prejuízo danado durante a pandemia porque abri 20 dias antes de fechar tudo. Para manter todo o pessoal, tive que botar um aporte de dinheiro. O aluguel teve aumento em plena pandemia. Vendi três carros antigos que coleciono e estou prestes a vender um quarto para pagar empréstimos... Estou com prejuízo, mas estou mantendo. Amo esse negócio", explica.

Fora a questão financeira, os projetos proporcionaram muitas histórias ao ator. "Já tive peixaria na Cidade de Deus, livraria em Niterói, além de três agências de automóveis. Tive botequim perto de um cemitério com os apelidos 'Bar das Almas' e 'Baixo Nível'. Já tive loja de parafuso, a 'Dona Porca e Dois Parafusos'. Sendo meu, posso colocar o nome que quero", brinca.

Em primeiro lugar, ator

O artista explica que a vivência como ator, sua grande paixão, permite conhecimento para se aventurar em outras áreas, seja em funções artísticas atrás das câmeras ou como empreendedor em negócios fora do setor artístico.

Quando faço outra coisa, estou cumprindo meus conhecimentos de ator.

Tonico Pereira é ator, diretor de teatro e empreendedor Imagem: Divulgação/TV Globo

Ele brinca ao falar sobre o convite para dirigir a peça "A Vida Não É Justa": "Um convite de uma pessoa maluca, o (produtor teatral) Barata. Já dirigi algumas vezes, mas não sou diretor. A partir da minha prática como ator, posso viver um diretor. Estou vivendo mais um personagem na minha vida."

Apesar de não estar em um projeto na TV atualmente, o ator segue contratado da TV Globo. No bate-papo, ele contou que observa com atenção o mercado e as recentes mudanças no audiovisual, incluindo as demissões de veteranos.

Vejo apavorado porque é a única coisa que sei fazer. Está dificil para todo mundo. Vejo a situação muito insegura no mundo, para a classe artística também.

"Eu sou um ator de aluguel, não escolho personagem. Gosto de trabalhar, entrar em cena, ouvir a palavra 'ação' e 'gravando', além de tossir antes de entrar em cena, como sempre faço antes de entrar no palco. Interpreto uma linha tragicômica de atuação. Uso comédia e drama", completa.

O veterano conta que nunca estudou teatro, mas que aprendeu com seus colegas em cena, tanto no palco como na TV. E ainda analisa a presença de influenciadores que não têm histórico na atuação em projetos de dramaturgia.

"Esses influenciadores saem com a vantagem dos seguidores, mas nenhuma vantagem é maior que a minha vivência. Sempre tive uma empatia com o ser humano que está contracenando ao meu lado. Esse ser humano é o meu professor. Todos temos amargura e momentos de felicidade", pensa.

"A Vida Não É Justa"

Em cartaz a preço popular no Teatro SESC Tijuca, Zona Norte do Rio, até 29 de maio, a peça "A Vida Não É Justa" é baseado no livro homônimo, de Andréa Pachá (2012), a partir de suas sentenças enquanto juíza. Do livro, que já virou quadro no "Fantástico", saem oito histórias e um prólogo encenados por sete atores que vivem mais de um personagem cada.

"A Andrea Pachá analisa muito bem os fatos que ocorreram nos julgamentos dela. Sempre atuou de uma forma muito conciliadora, algo que não acontece sempre, ao olhar o ser humano e sua vivência, a relação entre homem e mulher", diz ele sobre a peça, que ainda traz temas como violência urbana e adultério.

Os atores Rafael Sardão, Marta Paret, Lorena da Silva, Duda Barata e Bruno Quixotte em pé, além dos veteranos Léa Garcia e Emiliano Queiroz Imagem: Divulgação/Barata Produções

O espetáculo faz Tonico refletir sobre a vida e as injustiças que permeiam a história.

"Existe muita discriminação com a classe popular. Falta humanização das relações. A racionalidade está esquecida pelo ser humano, que hoje é um animal praticamente irracional, é guiado por pensamentos estapafúrdios e longe da empatia. Vivemos um mundo que se cristaliza através do capital e isso é muito ruim para as relações", conta.

"Você não vê mais relações honestas, seguras. É muito triste essa possibilidade que nos leva à morte até, atos violentos na rua, inclusive, que vitimizar os mais fracos... Espero que consigamos mudanças. Mas não vai ser em paz", reflete.

Pelo menos, a peça termina com uma visão otimista e feliz. "Mostra uma relação de dois idosos com muito tempo de casamento. Duas pessoas que pareciam que iam se separar, mas saem juntinhas depois de 52 anos. Se transforma num grito de paz e harmonia... Hoje em dia, ter uma visão otimista é dificil. Por isso, se torna importante. A gente está vitimado pela situação que vivemos", pensa.

"Se você está disposto a rir e chorar ao mesmo tempo, vá assistir 'A Vida Não É Justa', da Andrea Pachá. Você sai de lá com a alma lavada, se é que existe alma, não sei", finaliza.

SERVIÇO - "A Vida Não É Justa" no Rio

Local: SESC Tijuca (Rua Barão de Mesquita, 539)
Temporada: até 29 de maio de 2022
Horários: quinta a sábado às 20h30, domingo às 19h30
Ingressos: R$ 7,50 (comerciários); R$ 15,00 (meia-entrada); R$ 30,00 (inteira)
Classificação: 14 anos

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