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Entre documentário e ficção, ‘Pajeú’ tenta reconstruir memória do Nordeste

Cláudio Gabriel

Colaboração para Splash

31/03/2022 13h07

O Pajeú é um dos mais famosos e históricos rios do Nordeste do país. Passando pelos estados da Paraíba, Pernambuco e Ceará, ele ficou poluído ao longo dos anos e muitos chamam hoje de um grande esgoto. Sua importância é tão grande na região, que foi até tema de música de Luís Gonzaga, intitulada "Meu Pajeú". Também esteve em outro filme, "Quelé do Pajeú", de 1969, dirigido por Anselmo Duarte, com Tarcísio Meira, Regina Duarte e Elizângela no elenco.

Dentro dessa memória coletiva, estamos comentando de uma localização única para uma gigantesca área do país. Entretanto, o rio foi esquecido e ignorado por gerações ao longo dos últimos tempos. Em busca de reconstruir uma lembrança desse local, o roteirista e cineasta Pedro Diógenes ('Inferninho') tenta criar em "Pajeú" uma revolta e didática exploração do passado, presente e futuro.

O diretor parte de Maristela (feita por Fátima Muniz), uma professora que se vê atormentada por uma criatura mágica no rio Pajeú. Isso começa a despertar um misto de curiosidade e tensão pelo local. Ao mesmo tempo que, ao descobrir que o rio tinha uma interligação com a cidade de Fortaleza, começa a virar obsessiva com a importância da recordação de lá.

A narrativa é feita por meio de uma mistura de documentário e ficção. O primeiro, mais didático, pelas conversas da própria Maristela com pessoas no município que estão interligadas ao curso de água e aos jovens, que não sabem nem de sua existência - "você tem medo de ser esquecido?", questiona a eles em alguns momentos. Já o segundo, na construção da protagonista e em como ela vai sendo atormentada por esse ambiente, especialmente pela figura monstruosa que vê no rio na cena inicial.

Se no primeiro quesito "Pajeú" funciona com perfeição, ao tentar explorar algo perdido dessa sociedade, no segundo parece que se perde em certos pontos. Em toda a relação com os amigos da personagem principal, por exemplo, fica parecendo sempre algo deslocado e rasamente desenvolvido.

Na tentativa de observar um certo misticismo com uma realidade palpável, de um rio que realmente parece não estar mais na vida dessa população, é onde está a força do longa. A exploração da praia, um ambiente que tem a mesma água presente do Pajeú, porém tratado de forma inteiramente diferente por uma juventude, é algo curiosa. A forma como esses jovens não entendem o que é esse local, mas compreendem que o esquecimento poderá ser com eles um dia, gera um forte apelo emocional com o público.

Com pouco mais de uma hora, Diógenes consegue colocar o telespectador para refletir sobre a conexão com a memória da sua própria cidade. Se algo tão importante pode ser deixado de lado, por que nós, como seres humanos, não poderíamos ser ignorados daqui há algum tempo? Caso o público tenha sentido isso, o papel de "Pajeú" foi atingido. No fim das contas, fazer um filme talvez tenha sido o maior ato de memória para um rio que virou apenas um esgoto.