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Série sobre caso Celso Daniel abriu 'caixa de pandora', diz produtora

Celso Daniel, prefeito de Santo André, foi assassinado em 2002 - Acervo Celso Daniel
Celso Daniel, prefeito de Santo André, foi assassinado em 2002 Imagem: Acervo Celso Daniel

Fernanda Talarico

De Splash, em São Paulo

27/01/2022 04h00

Celso Daniel, três vezes eleito prefeito de Santo André, foi morto, aos 50 anos, em 2002, depois de dois dias sequestrado. O caso, que completou 20 anos no último dia 20 de janeiro, ganha nesta quinta-feira uma série documental de oito episódios exibidos na Globoplay.

O crime é rodeado de diversas teorias e, mesmo duas décadas depois, muitas questões ainda são levantadas sobre o que de fato aconteceu com o político petista. Em meio a indefinições e diferentes narrativas, "O Caso Celso Daniel" chega à plataforma de streaming com a intenção de trazer à tona a discussão sobre o que pode ou não ter ocorrido à época.

No primeiro inquérito da Polícia Civil de São Paulo, que foi concluído em abril de 2002, foi apontado que se tratava de um sequestro seguido de assassinato cometido por uma quadrilha da favela Pantanal, localizada na zona sul de São Paulo. Portanto, o crime foi considerado como comum, mas até hoje há quem defenda que motivações políticas tenham levado à morte do então prefeito.

Em conversa com a imprensa na qual Splash esteve presente, Joana Henning, CEO do Estúdio Escarlate, responsável pela produção, contou que a ideia original era produzir um filme de ficção. No entanto, ao começarem a avaliar o roteiro, os produtores entenderam que estavam olhando apenas para um recorte da narrativa, não toda a história. "A gente começou o argumento em 2016 e percebemos que precisávamos ampliar não apenas o nosso olhar, mas também a nossa pesquisa e o nosso entendimento sobre o tema", disse.

Principalmente por causa da delicadeza do tema, por ser um assassinato, mas é um assassinato emblemático como este, então é muita responsabilidade.

Foi então que, em 2017, Henning chamou a jornalista Gisele Vitória para entrar na produção e "analisar a história". "Ela foi atrás de fontes primárias, porque é uma história com muitas opiniões, especulações e versões apaixonadas, além de versões técnicas. Fomos atrás de todas as pessoas que trabalharam diretamente com o caso e fizemos entrevistas em off."

"A gente chegou a um filme documentário com a duração de cinco horas, o que seria impossível de se manter de pé, mas ainda tínhamos muito o que pesquisar. Começamos a gravar as entrevistas e focamos inicialmente nos autos do processo, que são compostos por dois inquéritos, diversas investigações, uma força-tarefa do Ministério Público e uma CPI."

Além de todo o conteúdo jurídico acessado pela equipe de "O Caso Celso Daniel", eles também consultaram investigações informais, diferentes acervos sobre o político, depoimentos, materiais de arquivo, vivências e outros registros.

Posso dizer que a gente começou a abrir uma caixa de pandora de muitas histórias. É um aspecto superinteressante de ver essa como essa história perpassa a história política social do país.

Para que o documentário conseguisse juntar todo o conteúdo necessário, foram realizadas 20 idas a Santo André, mil testes de covid-19 e 50 entrevistas — com mais de 100 horas de gravações.

José Dirceu durante as gravações de 'O Caso Celso Daniel' - Divulgação/ Clara Soria - Divulgação/ Clara Soria
José Dirceu durante as gravações de 'O Caso Celso Daniel'
Imagem: Divulgação/ Clara Soria

Entre os entrevistados, diferentes membros da família de Celso Daniel, amigos, e também grandes nomes da política brasileira, como Fernando Henrique Cardoso, Gilberto Carvalho, Mara Gabrilli, Eduardo Suplicy e Miriam Belchior — ex-esposa do político. Chama a atenção também a participação de José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil.

Segundo Joana Henning, não houve nenhuma "negociação oculta" para que os entrevistados participassem da série documental. "Todos sabiam que eles estavam falando algo que seria exibido. No máximo, eles assinaram um termo de confidencialidade para que não furassem a comunicação."

"Todos entenderam que o documentário é boa plataforma para esclarecer pelo menos a sua visão sobre o caso, e o resultado é justamente o ponto de encontro dessas visões. Foram muitas conversas, muitos entendimentos e muita transparência."

No entanto, o ex-presidente Lula não aparece nos depoimentos. "Eu falei com ele pessoalmente até", conta Joana Henning. "Mas a gente teve a infelicidade de mistura a pandemia de covid-19, com o ano pré-eleitoral. No momento que iriamos de fato gravar, ele estava em turnê na Europa."

Desafio

Para o diretor de "O Caso Celso Daniel", Marcos Jorge, este foi o projeto mais desafiador de sua carreira. Ele conta que, ao se envolver na história, percebeu que era necessário encontrar a melhor maneira de esclarecer as muitas contradições e confusões que existem.

"A primeira intuição narrativa foi a de organizar de maneira cronológica os fatos, porque assim fica tudo mais claro", explica. "E, como o sequestro e a morte de Celso Daniel aconteceram há 20 anos, então também usamos flashbacks."

Mas a história é tão complexa que, para contá-la de maneira interessante e que as pessoas pudessem entender, pensamos em uma estrutura que também fosse clara. Por isso, usamos todos recursos narrativos possíveis: entrevistas, dramatizações e animações.

Ano de Eleição

A série é lançada no ano em que o assassinato completou 20 anos, mas também coincide com o ano em que haverá eleições. Para a produtora, "O Caso Celso Daniel" não será um problema, pois o título "ajudará em um momento de desinformação muito intenso". "O nosso foco foi como esclarecer e montar uma história que desse conta dos fatos reais, dos fatos oficiais e das experiências vividas pelos personagens."

Além disso, Henning diz que o roteiro conta com um link para a fonte original. "O risco [do documentário ser usado para distorcer informações], sempre vai existir, mas a gente se prepara trazendo a argumentação de como a gente construiu essas informações ao longo da trama."

True Crime

No mesmo evento para jornalistas, Erick Brêtas, diretor de Produtos e Serviços Digitais da Globo, falou sobre a produção de títulos de true crime e como ela tem crescido no Brasil. "As pessoas gostam porque somos assim como nossos avós que gostavam de ler crônicas polícias nos antigos diários. Especialmente quando Nelson Rodrigues contava a história de um crime."

Acho que o true crime é isso: não é exatamente uma matéria jornalística, mas é uma investigação com muita profundidade.

Por fim, Brêtas cita "O Caso Evandro" como um documentário true crime de sucesso, assim como espera que seja com "O Caso Celso Daniel". "Considero um marco do documentário brasileiro, no qual você consegue uma investigação tão profunda, feita durante anos, que consegue até mesmo recontar a história."