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Autora brasileira expõe as vantagens da morte do pai em novo livro

Paula Febbe, autora de "Vantagens que Encontrei na Morte do meu Pai" - TAINA LOSSEHELIN/ Divulgação
Paula Febbe, autora de 'Vantagens que Encontrei na Morte do meu Pai' Imagem: TAINA LOSSEHELIN/ Divulgação

Fernanda Talarico

De Splash, em São Paulo

02/12/2021 04h00Atualizada em 02/12/2021 11h39

A morte do pai ausente e abusivo muda drasticamente a vida da enfermeira Débora, pois ela processa o luto de uma maneira pouco usual: matando os pacientes a sangue frio. Este é o mote do livro "Vantagens que Encontrei na Morte do meu Pai", escrito por Paula Febbe e lançado pela Editora DarkSide.

"Falar sobre uma mulher que mata neste livro, por mais torto que seja, é uma espécie de justiça", contou Febbe em entrevista a Splash. "A gente fala sobre uma mulher que passou por muita coisa, sentiu muita coisa, sofreu bastante. E ela acaba se tornando o retrato do que o pai fez com ela, sem que ela consiga perceber."

Em uma espécie de fluxo de consciência, o título acompanha os pensamentos cruéis e tenebrosos da narradora, que mostram o lado sombrio de sua mente.

Usei essa questão da mulher matando porque temos a visão de que só os homens fazem o mal.

Para a autora de 38 anos, que também é formada em psicanálise pelo CEP (Centro de Estudos Psicanalíticos), em São Paulo, os crimes cometidos por mulheres acontecem para que elas não percam algum tipo de status, "algo que elas conquistaram e não querem perder". "Talvez essa seja a principal diferença", pensa.

No entanto, no livro, pelo fato de acompanharmos apenas o lado de Débora, Febbe acredita que, em uma espécie de versão feminina de "Dom Casmurro", não podemos ter o que é dito por ela como uma verdade incontestável. "Temos que partir do princípio que lidamos com uma narradora não confiável. Então, o primeiro questionamento a ser feito é sobre ser real ou não o que nos está sendo apresentado. Afinal, estamos dentro da cabeça dela."

A autora Paula Febbe - Patricia Del Sole/ Divulgação - Patricia Del Sole/ Divulgação
A autora Paula Febbe escreveu o livro para lidar com o luto da perda do próprio pai
Imagem: Patricia Del Sole/ Divulgação

Estar presente nos pensamentos do personagem é algo comum na literatura da autora, que conta com oito livros publicados. "Parto muito do inconsciente, do que é pensado e das decisões que eles tomam."

Talvez essa seja a grande diferença daquilo que eu escrevo em relação aos outros escritores: é mais interno do que externo. Não existe nada mais pesado do que aquilo que é pensado e não é dito.

Para Febbe, criar a Debora foi uma maneira de lidar com o próprio luto de ter perdido o pai, em 2015, em decorrência de um câncer no pulmão. "Queria escrever um livro que fosse sobre o luto, só que, quando comecei a escrever, vi que seria algo totalmente pessoal, e eu não queria falar sobre isso desta maneira."

"Eu segui o processo natural do meu luto e junto com a literatura que eu sempre fiz, e inseri coisas que ouvi de outras mulheres, sobre o que elas tinham passado", conta a autora.

Capa do livro 'Vantagens que Encontrei na Morte do meu Pai' - Divulgação - Divulgação
Capa do livro 'Vantagens que Encontrei na Morte do meu Pai'
Imagem: Divulgação

A relação com o próprio pai, segundo ela, também era complicada e foi o fio condutor para escrever sobre uma filha que usa a cicatriz para expor uma espécie de alívio que a morte poderia proporcionar.

A gente sempre fala sobre a morte como algo muito doloroso, mas a minha relação com o meu pai não foi sempre boa. A partir do momento em que ele faleceu, entendi que isso foi um agente transformador em muita coisa na minha vida. Muita coisa pesou, mas muita coisa foi libertadora.

"Acho que muitas filhas que têm os pais ausentes ou abusivos podem sentir a mesma coisa. Mesmo apesar de ser a partir dessa cicatriz, é uma protagonista que se libertou, através da morte e fazendo o que ela faz", explica. "Só que é uma libertação torta, né? Por que ela é psicótica, então, não, não é uma libertação bonitinha."

As compatibilidades com a personagem, segundo Febbe, param por aí. "Eu não matei ninguém, está tudo certo", conta dando risada.

Por meio da história de Debora e o pai problemático, "Vantagens que Encontrei na Morte do meu Pai" expõe a engrenagem de abusos e assédios que as mulheres passam na vida e com pessoas próximas, assunto que não é tão discutido e se tornou uma espécie de tabu.

Teve um leitor que me falou que é pai e contou que o livro o fez rever como ele lidava com a filha dele em algumas questões. E isso é algo que levarei para o resto da minha vida.

Porém, a história não servirá apenas para aquelas que passaram por problemas com os pais. "Acho que muitas mulheres vão se reconhecer e reconhecerão também diferentes homens com quem elas conviveram."

Quanto ao nome, "Vantagens que Encontrei na Morte do meu Pai", a autora sabe que chama bastante atenção, afinal, lidar com a morte de alguém tão próximo nunca é algo visto como positivo. No entanto, ela explica que há uma mensagem por trás dele.

Se você fala sobre as vantagens da morte de alguém, é porque há também desvantagens.

Febbe também apresenta o podcast "Teoria de Quinta", sobre teorias da conspiração, e é roteirista.

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