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Existe Amor

Tem gente que não acredita em amor, mas que ele existe, existe


Acidente e amnésia em uma paixão que podia ter dado errado

De Splash, em São Paulo

04/11/2021 04h00

Não é fácil para Zilda Silva, 91 anos, falar de sua história de amor com Antonio. Mais de 70 anos depois, os fatos já se misturam. De alguns ela já não se lembra bem. Mas o sentimento segue intacto. Antonio morreu em 2011 e, ainda hoje, quando passa na frente de seu retrato, pendurado na porta do quarto, Zilda conversa com ele.

A relação entre os dois é contada no segundo episódio de "Existe Amor", podcast de Splash, que traz histórias reais narradas por artistas --aqui, a interpretação é feita pela atriz Suely Franco, 81, que tem mais de 60 anos de carreira e trabalhou recentemente em "A Dona do Pedaço" (Globo, 2019).

Ouça o episódio na íntegra no vídeo acima

Suely Franco narra o primeiro episódio do podcast - Arte UOL sobre foto de divulgação - Arte UOL sobre foto de divulgação
A atriz Suely Franco narra o segundo episódio do podcast "Existe Amor"
Imagem: Arte UOL sobre foto de divulgação

O segundo dos seis episódios desta temporada, publicado nesta quinta-feira (4), tem o título "Existe Amor no Desencontro". Ou existe amor, embora haja tanto desencontro pela vida (pegou a homenagem a Vinicius de Moraes?).

Porque Zilda e Antonio passaram por muitos desencontros: um acidente grave, viagem para o exterior, preconceito, apendicite, brigas. Até perda de memória teve! Alguém mais cético teria duvidado. Pensado que não era para ser. Mas não Zilda! Ela nunca achou que o mundo a estava separando de seu grande amor. Acreditou justamente no oposto. Para onde olhou, viu sinais de que ficariam juntos.

Os novos programas estão disponíveis sempre às quintas-feiras. São casos reais, apurados pela reportagem de Splash e interpretados por artistas, que trazem relatos emocionantes de muitas formas de amor. Os convidados têm sempre características que se assemelham àquelas do dono ou da dona da história.

Além de Suely Franco, participam do projeto as atrizes Helena Ranaldi, Neuza Borges e Aretha Sadick, a atriz e apresentadora Adriane Galisteu e o rapper Projota. A música de abertura é uma adaptação de "Não Existe Amor em SP", de Criolo. A apresentação é da jornalista Débora Miranda.

QUER CONTAR SUA HISTÓRIA DE AMOR AQUI? Manda para a gente! No Twitter e no Instagram, nosso perfil é o mesmo: @splash_uol. E não esqueça de usar #existeamor

Você pode escutar o primeiro episódio acima ou ler o roteiro na íntegra, abaixo. O programa está disponível no UOL, no YouTube, no Spotify, na Apple Podcasts, no Google Podcasts, na Amazon Music e em todas as plataformas de podcast.

Episódio 2: Existe Amor no desencontro

"'Foi um acidente muito feio, Zilda. Eu acho que o Antonio morreu.'

Foi assim que me deram a notícia do atropelamento. E, quando ouvi aquilo, fiquei sem saber o que fazer. Eu tinha conhecido o Antonio poucos meses antes, num parque de diversões do Rio de Janeiro, em 1949.

Zilda se mudou para a cidade do Rio de Janeiro jovem e conheceu Antonio em 1949 - Arquivo pessoal/Arte UOL - Arquivo pessoal/Arte UOL
Zilda se mudou para a cidade do Rio de Janeiro jovem e conheceu Antonio em 1949
Imagem: Arquivo pessoal/Arte UOL

Eu estava passeando com meu irmão, de nove anos, quando ele se aproximou com um colega. Eu estava vendo uns coelhinhos, meu irmão estava em uma balanço, e ele perguntou: 'Está sozinha?'.

Eu disse que não, que estava com o meu irmão. Aí ele foi lá e conquistou a criança, oferecendo tudo que era brinquedo. Ele perguntava: 'No que o garotão quer brincar agora?'. Meu irmão pedia, ele pagava as brincadeiras. Eu vi a criança toda feliz e pensei: 'Não vou tirar a felicidade do meu irmão, não. Deixa ele continuar' [risos].

Eu gostei do Antonio de cara, gostei da conversa. Acho que me apaixonei desde o primeiro dia. Não lembro o que eu estava vestindo, faz tantos anos... Mas quando ele contava essa história, dizia que eu estava com um vestido azul. E também falava que, logo que me viu, eu tinha um brilho enorme. Naquele mesmo dia, o Antonio quis me levar para casa, para saber onde eu morava. E então passou a ir lá sempre que a gente marcava, geralmente aos domingos.

Durante a semana, a gente não tinha tempo. Eu trabalhava em casa de família, cuidando de criança, e ele era taxista. Mas, aos finais de semana, eu ia muito ao cinema com ele ver os filmes do Oscarito e do Grande Otelo.

Até que um dia ele sumiu, e eu achei que tivesse desistido de mim. Esse foi só o primeiro desencontro, numa história que podia ter dado errado de vários jeitos.

De início, a história de Zilda e de Antonio foi marcada por desencontros  - Arquivo pessoal/Arte UOL  - Arquivo pessoal/Arte UOL
De início, a história de Zilda e de Antonio foi marcada por desencontros
Imagem: Arquivo pessoal/Arte UOL

Só depois de um tempo, com ele sumido, eu fiquei sabendo do acidente. A gente tinha saído e, quando ele estava voltando para casa, foi atropelado. A moça da pensão onde ele morava viu o que aconteceu, falou que tinha sido um acidente muito feio e que achava que ele tinha morrido. Eu fiquei sem saber o que fazer.

Mas a verdade é que eu nunca acreditei que ele estivesse morto.

Eu sempre tive um espírito muito rebelde. Cresci em Araruama, no interior do Rio, e, quando estava na escola, a professora me batia, porque eu escrevia com a mão esquerda. Mas eu sou canhota! Um dia não aguentei mais aquilo e fugi. Por causa disso, meu pai acabou me tirando da aula e me colocou para trabalhar na lavoura. Nunca consegui ser alfabetizada.

Vim para o Rio ainda muito nova, trabalhar como babá. Mas aprendi logo a não levar desaforo para casa nem tolerar humilhação. Nos cinco anos em que trabalhei antes de me casar, eu passei por 18 casas. Dezoito! Faziam ignorância comigo no trabalho, eu deixava todo o mundo para trás. Ficava com dó das crianças, mas pegava minhas coisas e ia embora, sem nem saber para onde.

Sempre tive esse inconformismo dentro de mim, e acho que foi isso que me levou a acreditar que o Antonio estivesse vivo.

Assim que eu soube do atropelamento, peguei a fotinho dele e saí procurando. Eu sempre voltava lá no ponto de táxi em que ele trabalhava, perguntando por ele. Fiquei procurando, procurando, durante meses, mesmo sem encontrar nenhuma pista.

Nessa época, a Virgem de Fátima, do Santuário de Portugal, veio visitar o Brasil. Teve uma grande procissão em Copacabana, e eu saí na janela para rezar. Coloquei as mãos para fora, e um homem passou jogando corações de papel ao vento. Caíram dois na minha mão: um azul e um branco.

Na hora achei que era um sinal, e guardei os dois comigo, cheia de carinho.

Minha irmã trabalhava com uma família que estava se mudando para o Chile. Ela não queria se mudar com eles e me perguntou se eu gostaria de ir. Desiludida que estava, aceitei.

Quando estava lá, um dia, uma cigana me parou na rua, querendo ler a minha mão. Eu não dei muita bola, falei que não tinha dinheiro. Ela me olhou e disse que sabia que eu tinha dinheiro, sim, que estava guardado embaixo do forro do guarda-roupa. E era verdade!

Fui lá pegar o dinheiro e dei para ela, que leu a minha mão.

Ela disse que eu ia viver muito e também que ia me casar em breve. Sem eu dizer nada, ela me garantiu: 'A pessoa que você tanto procura está viva'.

Tudo isso foi me dando esperança, e nunca mais me envolvi com ninguém. Coloquei o retrato do Antonio na minha mesinha de cabeceira e nunca tirei de lá.

Quando eu finalmente voltei para o Rio, depois de um ano, voltei a trabalhar na mesma casa em que estava antes da viagem. No primeiro dia, a cozinheira me entregou um bolo de cartas que o Antonio tinha me mandado nesse tempo em que fiquei fora. Foi aí que eu tive duas notícias: a boa é que ele estava vivo. A ruim, que ele estava namorando outra.

Eu decidi, então, que não ia atrás dele. Mas logo tive uma surpresa.

Um dia, eu estava trabalhando e ia começar a botar a mesa quando me avisaram: 'Tem uma pessoa aí que quer ver você, está te procurando há muito tempo'. Eu estava perto da escada, minhas pernas começaram a tremer, e eu caí sentada.

Nessa hora me vieram todos os sinais. Senti a fé e a esperança que eu tinha dentro de mim. Os coraçõezinhos que peguei na visita da Virgem de Fátima. A cigana que leu a minha mão. Fui descendo a escada sentada, não conseguia mais ficar em pé. A alegria foi tanta que eu não tinha forças para andar.

Quando cheguei lá embaixo, era ele. O Antonio!

Ele tinha passado quatro meses no hospital e, por um tempo, ficou sem memória. Quando começou a se recuperar, lembrou do meu endereço e mandou as cartas, mas eu já não estava mais no Brasil. Assim que teve alta, foi me procurar e deu de cara com a casa fechada.

Mas, assim que descobriu que eu tinha voltado, foi me ver. Ele estava magrinho, amarelo, de tanto tempo que ficou no hospital.

A gente tinha muita coisa em comum, o Antonio e eu. Ele também saiu de casa cedo para trabalhar e buscar uma vida diferente.

Antonio era de Caruaru, em Pernambuco, e, depois de ter um desentendimento com a família, fugiu. Com 17 anos, ele se alistou no Exército e disse que não tinha documentos. Foi assim que ele criou uma nova identidade, para nunca ser encontrado pela família.

Ele só voltou a falar com os pais depois que a gente se casou. Mas, até chegar nisso, ainda aconteceu muita coisa.

De cara, o mais complicado foi ter que lidar com o meu pai. Ele tinha muito preconceito com o Antonio, porque ele era pernambucano. Quando foi dizer que queria casar comigo, meu pai não aceitou de jeito nenhum! Ainda por cima, para piorar a situação, tinham falado para ele que o Antonio já era casado no Nordeste e que tinha filho. Mas era mentira!

Depois, quando a gente começou mesmo a pensar em casar, eu tive uma crise de apendicite grave e precisei ser levada para o hospital. Fui operada quase a sangue frio. A gente teve que suspender o casamento e esperar até eu melhorar.

Quando tava tudo certo, um pouco antes do casamento a gente teve uma briga muito feia. Eu contei que não tinha paciência, né? Que, quando me irritava, largava tudo e ia embora. Foi isso o que eu fiz de novo. Mas, dessa vez, não com um patrão, uma patroa. Foi com meu noivo mesmo.

Uns 15 dias antes de casar, a gente ia fazer um passeio pelo Rio. Um passeio bem grande, para conhecer muitos lugares, passar por vários pontos turísticos, ia ser um dia bem bacana. Só que amanheceu chovendo. Aí o Antonio telefonou, dizendo que não dava mais para ir. Mas eu já estava toda arrumada, tinha me organizado para esse dia. Eu emburrei e falei: 'Você tem medo de chuva, mas eu não tenho. Então vou sair'. E fui para a casa da minha irmã e passei o dia lá.

Quando eu voltei para casa, vi ele escondido num cantinho. Aí a gente começou a discutir, eu falei: 'Quer saber de uma coisa? Eu não estou mais a fim de casar, não'. Arranquei a aliança do dedo, entreguei para ele. Ele não quis pegar, joguei no chão e fui embora. Deixei para lá.

Ele passou a tarde e a noite ligando, tive que desligar o telefone para poder dormir. Na segunda, ele voltou lá, a gente conversou. Ele devolveu a aliança e ainda me deu uma outra joia, um presente, para me agradar. Aí eu perdoei, né? E a gente finalmente casou. O ano era 1952.

Me casei com um vestido branco, simples, no meio da perna, porque era só no civil. A cerimônia na igreja aconteceu depois de muito tempo. Fiz um permanente no cabelo para cachear. Teve uma festinha na casa da nossa madrinha, que era vizinha da gente. A minha colega fez um bolo, e o Antonio convidou um bocado de gente. Acho que meu pai nem foi, porque ele estava morando longe nessa época.

Zilda e Antonio ficaram casados por 58 anos  - Arquivo pessoal/Arte UOL - Arquivo pessoal/Arte UOL
Zilda e Antonio ficaram casados por 58 anos
Imagem: Arquivo pessoal/Arte UOL

Por causa daquele desentendimento lá no começo, com o meu pai, o Antonio decidiu tirar o meu sobrenome de família e trocar pelo dele. Quando a gente decidiu casar, ele foi até o meu pai e disse: 'Agora ela não tem nome, mas vai ter família e casa para o resto da vida! Vai ter quem cuide dela e vai ser FELIZ!'. E assim foi.

A gente teve esse monte de desafio, de desencontro, de quase separação, mas no final deu tudo certo.

O casal teve seis filhas, que no bairro eram conhecidas como 'as meninas do seu Antonio' - Arquivo pessoal/Arte UOL - Arquivo pessoal/Arte UOL
O casal teve seis filhas, que no bairro eram conhecidas como 'as meninas do seu Antonio'
Imagem: Arquivo pessoal/Arte UOL

Recém-casado, ele ainda trabalhou como taxista, mas acabou virando caminhoneiro. Eu já estava grávida da nossa primeira filha e ele vivia viajando. Eu sentia muita saudade e passava o tempo em casa, só, com as crianças. Tivemos seis filhas.

Sempre que ele voltava de viagem, eu punha as meninas todas arrumadinhas no portão, esperando por ele, para ver o caminhão do pai chegando. Era uma alegria, e ele sempre trazia presentes.

A presença dele era muito especial. Quando Antonio estava em casa, o almoço era especial, o café da manhã era especial. Nunca fui muito de demonstrar afeto, mas gostava de demonstrar meu amor fazendo o que eu sabia fazer melhor: cozinhar tudo que ele mais amava.

Cada volta do Antonio para casa era uma festa! Ele era o típico nordestino. Adorava dançar, adorava Luiz Gonzaga. Ele queria que as filhas aprendessem a tocar acordeão, e elas morriam de vergonha, achavam cafona. Naquela época, o rock que era moda, né?

Ele sempre disse que queria muito ter tido um filho homem, mas nasceu uma filha atrás da outra. Ele falava: 'Só tem mulher nessa família?'. Por fim, acabou ficando muito apaixonado pelas filhas dele, que em Madureira, onde a gente morava, eram conhecidas como 'As Meninas do seu Antonio'.

Sempre que dava, ele levava a gente para passear. Tinha uma kombi em que cabiam as seis filhas, nós e mais a minha irmã, que eu ajudei a criar. O Antonio levava a gente para cachoeira, praia, piquenique. Era um homem muito bom e sempre me fazia declarações de amor.

Zilda tem uma foto do marido na porta do seu quarto; quando vai dormir, ela dá boa noite a Antonio  - Arquivo pessoal/Arte UOL - Arquivo pessoal/Arte UOL
Zilda tem uma foto do marido na porta do seu quarto; quando vai dormir, ela dá boa noite a Antonio
Imagem: Arquivo pessoal/Arte UOL

Um pouco antes de ele morrer, quando já estava no hospital, com todas as filhas em volta, ele me disse: 'Nossa, eu quis tanto um filho homem, mas será que estariam todos aqui, em volta de mim agora? Você me fez muito feliz com essas minhas filhas!'.

Todo o mundo chorou.

A gente ficou casado por 58 anos e sempre foi muito ligado. Logo que o Antonio morreu, em 2011, eu caí de uma escada e quebrei os dois braços. Tive um luto longo, fiquei muito deprimida. Fiquei bronqueada com ele por ter ido embora.

A presença dele ainda é muito forte. Mas agora não é mais daquele jeito doloroso. Até hoje, o retrato dele fica na porta do meu quarto. Sempre que passo por ali, falo com ele. E, sempre que vou dormir, quando passo por ele, dou boa noite."

O episódio 2 do podcast "Existe Amor" tem interpretação de Suely Franco. Música de abertura: Criolo. Reportagem e roteiro: Débora Miranda. Desenho de som e montagem: João Pedro Pinheiro. Design: Carol Malavolta. Motion design: Carla Borges. Direção de arte: Gisele Pungan e René Cardillo. Coordenação: Débora Miranda e Juliana Carpanez. Gerentes de conteúdo: Antoine Morel e Alexandre Gimenez. Diretor de conteúdo UOL: Murilo Garavello. Agradecimento: Arthur Cruvinel.