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Ele acordou do coma e viajou no tempo: o médico que perdeu 12 anos de vida

Série italiana 'DOC' estreia no canal Sony contando história real de médico que perdeu a memória
Série italiana 'DOC' estreia no canal Sony contando história real de médico que perdeu a memória
Canal Sony/Divulgação

Laysa Zanetti

De Splash, em São Paulo

18/10/2021 04h00

Praticamente um viajante do tempo. Essa é a sensação que o médico italiano Dr. Pierdante Piccioni, 62 anos, teve ao acordar de um coma em 2013 achando que estava em 2001, sem se lembrar de um minuto sequer de seus últimos 12 anos de vida.

Agora, sua história é tema da série "DOC", que estreia hoje no Canal Sony. Antes diretor de emergência de um renomado hospital na Itália, Pierdante se envolveu em um acidente de carro em maio de 2013. Após cirurgias e um coma de seis horas, ele acordou aparentemente sem grandes sequelas.

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Até que percebeu que havia alguma coisa estranha com a data no calendário.

Não era 'alguma coisa' que estava errada. Tudo estava errado! Era 31 de maio de 2013, mas na minha cabeça era o dia 25 de outubro de 2001.
Pierdante Piccioni, em entrevista para Splash

A situação, que parece retirada de um filme de ficção científica ou de um episódio de "Doctor Who", fez com que o médico se sentisse completamente deslocado de sua realidade. "As pessoas estavam 12 anos mais velhas, havia dois Papas e um homem negro como presidente dos Estados Unidos", recorda.

Eu nem sabia o que era touchscreen. Não sabia a senha do meu celular. A televisão era diferente, a internet, nem se fala. Tudo estava errado, mas eu era o problema.
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Tecnologias e atualidades à parte, o grande desafio na recuperação de Piccioni foi reaver a relação com os filhos. Afinal, em 12 anos, os dois haviam crescido bastante.

'São atores!'

"Na última memória da vida anterior, meus filhos tinham 8 e 11 anos", conta. "Quando eles entraram naquele quarto de hospital, pensei que fossem dois atores, e não meus meninos. Tentei reconhecê-los pelos olhos, porque dizem que eles não mudam, mas não é verdade. Não consegui."

Não havia compatibilidade com as minhas memórias, então eu fiquei quieto. Eles diziam: 'Oi, pai'. E eu, mudo. Eu não sabia quem eles eram!
Reprodução/UOL - Reprodução/UOL
O médico Dr. Pierdante Piccioni, em entrevista para Splash
Imagem: Reprodução/UOL
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Duas vezes apaixonado

Se o estranhamento foi grande com os filhos, com a esposa, a situação foi menos complicada.

Ela estava 12 anos mais velha do que na minha cabeça. O cabelo mais curto, as roupas diferentes, mas era a mesma pessoa. Eu tenho sorte. Me apaixonei duas vezes pela minha esposa.

Medo e desafios

Para o médico, os momentos em que ele mais sentiu medo tinham relação com a própria família e o que ele lembrava (ou não lembrava) dos parentes.

Divulgação/Canal Sony - Divulgação/Canal Sony
Na série, o atorLuca Argentero interpreta o protagonista, Dr. Andrea Fanti, inspirado na história de Piccioni
Imagem: Divulgação/Canal Sony
Quando eu acordei, pedi para ver meus pais. Pedia pela minha mãe, e ninguém me respondia. Depois de 3 dias, me disseram que ela havia morrido 3 anos antes.
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O choque de saber da morte da mãe foi um divisor de águas em sua recuperação e no entendimento da pessoa que ele mesmo era. "Na minha cabeça, minha mãe era a chefe da família. Eu não acreditei que ela havia morrido. Então, eu me calei para entender que eu era o problema, e o mundo era a solução."

Um novo homem

A experiência de acordar em um corpo mais velho (com "rugas que não existiam antes e cabelos mais brancos") transformou o médico por fora e também por dentro.

Reprodução - Reprodução
Médico italiano perdeu 12 anos de memória e jamais as recuperou
Imagem: Reprodução
Meus colegas diziam que se eles soubessem que eu me tornaria a pessoa que sou hoje, teriam feito eu perder a memória muito tempo antes.

Isso porque, antes do acidente, o doutor tinha de ser um homem mal-humorado e arrogante. Na sua "segunda vida", como ele mesmo chama, Piccioni conta que, de fato, sentiu que se transformou.

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Eu sou um homem melhor, mas existe uma explicação. Ali, pela primeira vez, eu me vi como paciente. Esse foi o meu grande aprendizado dessa situação.