PUBLICIDADE
Topo

Como Ana Paula Padrão furou bloqueio do Talibã, e depois fugiu de madrugada

Ana Paula Padrão na primeira viagem ao Afeganistão, em 2000; a jornalista voltou ao país mais três vezes. - Arquivo pessoal
Ana Paula Padrão na primeira viagem ao Afeganistão, em 2000; a jornalista voltou ao país mais três vezes. Imagem: Arquivo pessoal

Felipe Pinheiro

De Splash, em São Paulo

22/08/2021 04h00

Os olhos do mundo se voltaram ao Afeganistão mais uma vez quando o Talibã reassumiu o comando do país com a saída das forças armadas norte-americanas após a ocupação militar que durou 20 anos. Quem esteve por lá em diferentes ocasiões (2000, 2001, 2004 e 2011) foi Ana Paula Padrão, nos tempos de jornalista, antes de se reinventar no entretenimento.

O passado profissional de Padrão pode ser um choque para as novas gerações (pois é!), que a conhecem como a apresentadora do "MasterChef Brasil", mas ela já foi repórter, correspondente internacional e âncora de telejornal, além de editora-chefe. Muito antes de "cringe" se tornar "cringe", Ana Paula entrou pela primeira vez no Afeganistão.

Em bate-papo exclusivo com Splash, ela falou sobre algumas das experiências mais marcantes, como ter furado o bloqueio do Talibã ao ser enviada pela TV Globo, e o que pensa sobre a saída dos americanos no governo Joe Biden.

Reportagem de Ana Paula Padrão para o "Jornal Nacional"


A primeira vez no Afeganistão

"Eu fui em junho de 2000, e o Talibã governou entre 1996 e 2001. Estava no auge do fechamento do país. Eram pouquíssimas organizações de ajuda humanitária. As pessoas desistiram de ir para lá porque não recebiam ajuda do governo, se expunham e expunham os seus funcionários a muitos riscos. O país foi ficando realmente abandonado."

"Demorei um ano e meio para conseguir o visto. Fiquei negociando com representantes fora do país. Consegui convencê-los a dar o visto para duas mulheres de uma equipe de três pessoas. Eu, Guta Nascimento (produtora) e Hélio Alvarez (cinegrafista)."

Consegui isso contanto que assinasse documentos na entrada me comprometendo a seguir as regras deles, que eram basicamente não filmar nada sem autorização, jamais conversar com nenhum afegão, ser acompanhada permanentemente por um representante do governo e, ao entrar no país, ir direto me apresentar para o Ministério das Relações Exteriores ou qualquer coisa semelhante a isso, porque não tinha nenhuma relação exterior. Claro que não fiz nada disso.

Ana Paula Padrão e o cinegrafista Hélio Alvarez em 2001, logo após a queda do regime Talibã - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ana Paula Padrão e o cinegrafista Hélio Alvarez em 2001, logo após a queda do regime Talibã
Imagem: Arquivo pessoal

Vigiada pelo governo afegão

"Entrei pelo norte, pela fronteira do Paquistão, e pela primeira cidade que se chama Jalalabad. Fiquei entre a fronteira e Cabul uns três dias para filmar o máximo que eu conseguisse antes de ser acompanhada por um representante do governo. Assim que cheguei em Cabul, tive que ir ao ministério para me apresentar e assinar todos os papéis."

Colocaram um cara comigo que não deixava a gente fazer nada. Só deixava a gente filmar as instalações do governo, o museu de Cabul?
Filmávamos metade do dia com ele e o resto eu fugia com a Guta pela porta de trás do hotel com câmera escondida para fazer outras coisas.

"Alguns dias, eu disse que havia ficado doente com a comida e pedi para o cinegrafista sair com ele para fazer imagens de nada."

"Nesses momentos, consegui fazer a escola clandestina de mulheres, cooperativas clandestinas de mulheres.... Tínhamos uma quarta pessoa, que foi um guia local. Ele estava baseado no Paquistão e se chamava Kamal. Era muito experiente e ajudou muito."

A fuga e o medo de ser capturada

"Houve um momento que esse representante do governo pediu todas as fitas antes de sairmos do Afeganistão. O guia falou, entrega uma fita que o cinegrafista tenha feito junto com ele e diz que você entrega todas as outras amanhã cedo porque você tem que retirar da câmera."

"Eles eram muito rudimentares no conhecimento de tecnologia de comunicação, e certamente não sabiam nem que poderia ter uma câmera escondida no botão da minha roupa. Ele levou essa fita que não tinha nada de importante e a gente fugiu de madrugada."

"O Kamal colocou no nosso carro adesivos da ONU, que não sei como conseguiu. Ele usou um turbante para parecer que era um talibã levando uma equipe da ONU para o sul do país."

As punições eram 'suaves', como perder a mão, ser apedrejada em praça pública... Foi o momento que mais tive medo. E não queria perder o material que tinha conseguido.

Ana Paula Padrão cobre a queda dos talibãs, em 2001. Na foto, a jornalista aparece na principal rua de comércio de Cabul, a Chicken Street. - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ana Paula Padrão cobre a queda dos talibãs, em 2001. Na foto, a jornalista aparece na principal rua de comércio de Cabul, a Chicken Street.
Imagem: Arquivo pessoal

Alguma vez se sentiu coagida por ser mulher e jornalista?

"Pelo contrário. Na mesma época, vários jornalistas americanos que eu conhecia por morar em Nova York entraram e não conseguiram fazer muita coisa porque um homem não entra em uma escola clandestina de meninas, por exemplo."

Consegui conversar com as mulheres porque sou mulher. Eu estava com roupas locais, cobrindo a cabeça em sinal de respeito e elas ficavam animadas, falavam: mostra para o mundo o que estamos vivendo aqui.

"Como ia passar só no Brasil essa reportagem, avaliamos que seria seguro para elas e que poderia chamar atenção de mais gente para o que estava acontecendo."

A derrocada do Talibã após o 11 de setembro

"Quando a OTAN começou a bombardear Cabul e ficou claro que o Talibã cairia, me mandaram de volta ao Afeganistão para cobrir a queda do regime. Dessa vez, entrei em um avião que estava levando o staff da ONU para dentro do país. Fiquei uma semana lá. Foi uma cobertura sofrida porque a cidade estava destruída. Era frio, não tinha calefação, os hotéis estavam bombardeados. Fiquei na casa de um sujeito e depois em um hotel com as janelas do quarto quebradas. Entrava muito frio e a gente não conseguia dormir."

"Não tinha água potável nem comida porque era no meio do Ramadã. A comida já era escassa, as pessoas jejuavam de dia e à noite comiam o que tinha. Perdi quatro, cinco quilos em uma semana."

Foi bem sofrido fisicamente essa cobertura, mas eu vi a Cabul renascendo. Foi muito bonito ver a cidade renascer, embora triste ouvir o que essas pessoas passaram em cinco anos de tortura do Talibã.

As mulheres afegãs e o uso da burca

"Pouquíssimas mulheres se atreviam a tirar a burca. Algumas sim. Elas falavam, alguém tem que ser a primeira a tirar a burca. Que seja eu porque temos direitos. Ao longo do tempo, as coisas foram melhorando. Na terceira vez que estive no Afeganistão, eu já vi muitas mulheres cobrindo a cabeça, mas já sem a burca. Em 2004, fiz uma reportagem sobre as mulheres afegãs."

Com a abertura, elas se sentiam mais corajosas, queriam chamar atenção do mundo para o sofrimento dos maridos tradicionais. Cobri uma história do autoflagelo. Muito triste.

Antes e depois do Talibã: será que são mundos tão diferentes assim?

Ana Paula Padrão: 'Nas ruas em 2001 ao lado da população feliz e aliviada com a queda dos Talibãs' - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ana Paula Padrão: 'Nas ruas em 2001 ao lado da população feliz e aliviada com a queda dos Talibãs'
Imagem: Arquivo pessoal

"Nas grandes cidades se respira um ar mais moderno. A imensa maioria do povo é muçulmana, então é natural uma mulher cobrir a cabeça. No interior do país muitas mulheres usam a burca porque é uma tradição, por se sentirem mais seguras assim, por acharem que é o homem mesmo que manda na casa e que o papel dela é se comportar como uma mulher honesta, temente ao marido."

Existe um conservadorismo na sociedade que, independentemente da presença do Talibã, é visível. A grande diferença, sem o Talibã, é que elas estão fazendo isso porque querem. Com o Talibã, todas elas — inclusive as que não queriam usar a burca, que queriam trabalhar, estudar — não podiam fazer isso. Essa diferença se nota nas grandes cidades, mas no interior não.

A retirada dos EUA do Afeganistão e a volta do Talibã

"Quando se faz uma intervenção militar num país, não pode ser para sempre. É porque aconteceu algo que ameaça o planeta ou as pessoas daquela região de uma forma tão grave que o mundo precisa intervir. Mas não pode tomar o território. Aquele território é dos afegãos e de quem eles escolherem para ocupar espaços públicos de poder."

A questão é, o que os Estados Unidos fizeram durante 20 anos de permanência lá? Por que não conseguiram treinar forças militares pró-governo para resistir a qualquer investida que pudesse dar um golpe? Por que as forças americanas não conseguiram ter presença no país inteiro? Muitas províncias já eram dominadas pelo Talibã.

Com discurso moderado, será que o Talibã mudou?

"Eles têm uma preocupação com a imagem que estão passando para o mundo. A mera referência à palavra Talibã lembra terrorismo, massacre de pessoas inocentes, violação de direitos humanos, violência contra mulheres? É uma estratégia de marketing para tentar mostrar um lado diferente para o mundo. Não acho que o coração do Talibã tenha se modernizado a esse ponto."

Acho que eles são tão conservadores quanto a maioria do povo afegão, e que eles encontrarão espaço para reprimir aqueles que consideram inimigos. E principalmente mulheres que querem levar uma vida um pouco mais ocidentalizada.

Ana Paula Padrão reencontra o guia Najib, em 2001: 'Ele foi o primeiro representante talibã que ficou comigo na primeira viagem, mas em 24 horas foi substituído por acharem ele pouco rígido'. - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ana Paula Padrão reencontra o guia Najib, em 2001: 'Ele foi o primeiro representante talibã que ficou comigo na primeira viagem, mas em 24 horas foi substituído por acharem ele pouco rígido'.
Imagem: Arquivo pessoal