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Com bilhões de views, canais de funk e forró no YouTube são 'novas rádios'

Canais de funk e forró ajudam a revelar artistas e sucessos no YouTube - Reprodução/YouTube
Canais de funk e forró ajudam a revelar artistas e sucessos no YouTube Imagem: Reprodução/YouTube

Breno Boechat e Guilherme Lúcio

De Splash, no Rio e em São Paulo

16/08/2021 04h00Atualizada em 16/08/2021 11h49

A indústria da música sempre usou o termo "jabá" para se referir ao dinheiro que artistas e gravadoras davam às rádios para que suas músicas fossem tocadas. Até hoje, a prática acontece, mas novas formas de investimento —muito mais baratas— aparecem como soluções para espalhar um som por aí.

Os chamados "canais de divulgação" são os novos queridinhos de artistas brasileiros que buscam resultados em termos de visualização ou streams, com orçamentos menores que o do bom e velho jabá. Com milhões de acessos mensais, páginas no YouTube ajudam a revelar novos nomes, tendências e, claro, hits.

pedrinho - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
MC Pedrinho estourou primeiro no YouTube para virar um dos mais ouvidos do funk
Imagem: Reprodução/Instagram

Artistas do funk já dominaram esses novos espaços de divulgação. Canais como Detona Funk, Legenda Funk e Ritmo dos Fluxos ajudaram a bombar nomes como MC Pedrinho e MC Lan, dois dos maiores da cena atual.

Entre os forrozeiros, o fenômeno João Gomes —que tem sete músicas entre as 100 mais tocadas do Brasil— é o mais recente exemplo de sucesso que surgiu primeiro em canais de divulgação, como Buji do Cavaco e Martins CDs.

Acaba que a gente fica sabendo primeiro o que vai estourar, porque a massa do forró gosta de ouvir ali no YouTube, que é de graça.- William Nascimento, o Buji do Cavaco, que tem mais de 32 milhões de views no YouTube

William cuida de um canal que disponibiliza álbuns, gravações de shows, playlists e versões exclusivas de forrozeiros —dos mais conhecidos até os nem tão famosos. Ele e o conterrâneo Alisson Martins, do Martins CDs, são dois dos principais divulgadores do gênero.

A dupla ainda é peixe pequeno se comparada à galera do funk. Mas olha para essa turma como um exemplo a ser seguido.

"Eles começaram de baixo, que nem a gente, e ajudaram muitas pessoas", conta Alisson, que já pensa em expandir os negócios de seu canal, com mais de 420 mil inscritos.

Quero transformar o canal em uma produtora, fazer clipes dos artistas que a gente lança, que nem o Kondzilla. - Alisson Martins, do Martins CDs, de 422 mil inscritos

Os números dos canais de funk, que existem há mais tempo, realmente são bem mais impressionantes:

  • Legenda Funk: 14,5 milhões de inscritos e 2,7 bilhões de views
  • Detona Funk: 7,3 milhões de inscritos e 1,9 bilhão de views
  • Ritmo dos Fluxos: 7 milhões de inscritos e 996 milhões de views


Como funciona?

O fã que acessa os canais costuma ter músicas novas todos os dias. Em páginas especializadas de funk, são dezenas de novidades que, diariamente, chegam de todos os cantos do país. É lá que artistas novos tentam uma chance de fazer sucesso em São Paulo ou no Rio.

No funk, o custo de divulgação varia pelo tamanho do canal, do artista e até mesmo do produtor, iniciando em cerca de R$ 100 e subindo até a casa dos R$ 1.000.

buji - Acervo Pessoal/Buji do Cavaco - Acervo Pessoal/Buji do Cavaco
Buji do Cavaco com Raí Saia Rodada, um dos artistas mais tocados do canal
Imagem: Acervo Pessoal/Buji do Cavaco

Enquanto isso, no forró, o esquema é um pouco diferente. Os iniciantes ou ainda não tão conhecidos chegam a pagar R$ 500 por um pacote que, além da música, conta com posts nas redes sociais. Os "grandões" não pagam, porque "é bom para todo o mundo".

São eles que chamam mais audiência para o canal, trazem mais seguidores. E, para eles, é bom também, porque sabem que o público do forró está ali. - Alisson Nascimento

As novidades chegam antes no "zap" dos divulgadores, que usam o aplicativo também para negociar valores e entregas. "Geralmente, a gente recebe o arquivo em áudio, faz a arte e deixa programado para o dia do lançamento", descreve Alisson.


E dá problema com direitos autorais?

No cenário independente, é comum ver músicas fazerem sucesso sem os devidos registros, que garantem a monetização para os artistas. Muitas vezes, a galera só para para se preocupar com isso depois que o hit já estourou. Os canais de divulgação costumam trabalhar com a autorização prévia dos artistas ou das produtoras, para evitar punições.

Alisson e William já tiveram problemas em seus canais por desrespeitar regras de direitos autorais do YouTube e, então, adaptaram o modelo de negócio. "Já fui derrubado duas vezes e tive que começar do zero", conta o dono do Buji do Cavaco, que vive de divulgação há oito anos.

No caso de artistas já conhecidos, os álbuns e as músicas com direitos são 100% monetizados pelas gravadoras. A gente ganha em cima das versões gravadas em shows e dos promocionais. - William Nascimento

E esse é um dos diferenciais do negócio do forró, aliás.

Na cena, são comuns os álbuns promocionais, com repertório atualizado praticamente a cada mês. E a tradição vem de longe. No caso de Alisson, é negócio de família: o pai dele vendia pen drives, outra ferramenta de divulgação muito comum do forró.

alisson - Acervo Pessoal/Alisson Martins - Acervo Pessoal/Alisson Martins
Tradição de família: assim como o pai, Alisson Martins grava shows para divulgar no YouTube
Imagem: Acervo Pessoal/Alisson Martins

Nos paredões de som montados nos carros, quando o pessoal coloca o som em alto volume para ouvir na rua, é normal ver um pen drive tocando os repertórios "100% atualizados". "Muita gente ganha dinheiro vendendo pen drive até hoje, mas o YouTube é bom porque é de graça e hoje já vem instalado na TV, o que facilita muito. É uma evolução", explica William.

No caso do funk, o comum é que artistas trabalhem com singles —que canções lançadas individualmente. Isso faz os canais receberem um volume imenso de novos trabalhos diariamente. Uma consequência da concorrência infinita é a produção de sucessos cada vez mais efêmeros. Muitos hits dos bailes de rua não chegam a casas do centro ou mesmo aos tops das plataformas de streamings.


Era tudo mato

Usar a internet para divulgar uma música, por si só, não é nenhuma grande novidade. Desde a popularização da banda larga, no início dos anos 2000, a grande rede virou um dos palcos preferidos dos artistas. São vários os casos de cantores e bandas que conseguiram alcançar o mainstream sem gastar um real.

Na virada para os anos 2010, surgiram os primeiros canais de funk no YouTube. A plataforma, que crescia no Brasil, tinha o benefício de ser gratuita e de fácil manejo. Não precisava de muita sabedoria para subir uma música com a foto do artista.

Sem espaço nas rádios ou em outros meios de divulgação em massa, era no YouTube que os fãs do gênero encontravam as músicas e descobriam novos talentos. Em 2012, com a popularização do "funk putaria" em São Paulo, canais como Detona Funk começaram a ganhar forma com os banners, vídeos só com o áudio e a capa do single. No máximo, rolava uma arte diferente.

Gugu é sócio da GR6, produtora que tem parceria com 19 canais de divulgação atualmente - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Gugu é sócio da GR6, produtora que tem parceria com 19 canais de divulgação atualmente
Imagem: Fernando Moraes/UOL

"O Pedrinho era maluco para cantar, me enchia o saco para eu dar uma oportunidade para ele", diz o empresário Alexandre Santana, o Gugu, um dos sócios da GR6, uma das maiores produtoras do momento. "Lançamos 'Dom, Dom, Dom' no banner e explodiu."

A música, que deslanchou a carreira de MC Pedrinho e sumiu das redes por problemas do jovem com a Justiça, é um bom exemplo de como funciona esse sistema.

Criados por jovens de periferias, os canais recebem músicas de produtores ou empresários. Com os banners, os artistas conseguiam ter uma noção do desempenho da faixa. Se bombasse, era o caso de produzir um clipe para canais como a KondZilla.

lan - Divulgação - Divulgação
Mc Lan bomba com músicas em canais de banners no YouTube
Imagem: Divulgação

Esses novos espaços foram crescendo e se tornando cada vez mais relevantes para o ecossistema do funk. Hoje consagrado e indicado ao Grammy 2020 com a música "Rave de Favela", parceria com Anitta, Beam e Major Laze, o MC Lan ganhou destaque com músicas que estouraram em banners e passaram a tocar em todos os carros de som dos fluxos —as festas de rua com funk— de São Paulo.

Atualmente, as principais produtoras de funk de São Paulo têm parcerias com canais de divulgação, que servem como conexão com as ruas e apontam MCs em destaque.

"Pensando como negócio, conseguimos trabalhar com os canais divulgando nossas músicas. Claro que temos o Spotify, que é bem rentável para os artistas, para a produtora, mas o YouTube tem mais conexão com o público. O pessoal do funk mesmo acompanha tudo por lá", explica Gugu.