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Profissionais do meio creem que pornografia ética é possível; saiba como

A diretora e atriz Mila Spook é favorável à regulamentação da indústria pornô por órgãos públicos - Reprodução/Instagram
A diretora e atriz Mila Spook é favorável à regulamentação da indústria pornô por órgãos públicos Imagem: Reprodução/Instagram

Gabriel Nanbu

De Splash, em Santos

09/08/2021 04h00

Mesmo com recentes relatos de estupro e abusos na indústria pornô — em reportagem de Splash, sete atrizes acusam o premiado diretor Binho Ted de violência sexual — , profissionais do ramo acreditam que é possível um mercado mais ético, seguro e regulamentado, que dificulte a exploração.

As atrizes Evelyn Buarque e Teh Angel acusam Binho de estupro no ambiente de trabalho e registraram boletins de ocorrência contra ele. Outras cinco profissionais relatam casos de violência sexual semelhantes.

Splash conversou com diretores que, segundo essas atrizes, adotam boas práticas nos sets de gravação. Eles tocam um movimento para tornar a indústria mais profissional e garantir direitos de atrizes e atores.

Renovação

A mudança, de acordo com o diretor Max Anderson, proprietário da produtora Plenna ao lado da sócia Emily Marcondes, já está acontecendo por meio da renovação da indústria.

"É possível fazer pornografia ética desde que ela seja tratada de forma profissional. Muitos produtores das antigas faziam filmes para satisfazerem seus desejos machistas. Isso tem mudado com a entrada de mulheres diretoras, além de pessoas do cinema e da publicidade, do audiovisual convencional. As velhas práticas ficam para trás e passam a ser mal vistas e denunciadas."

A produtora de Anderson tem o cuidado, em seus filmes, com o "protagonismo feminino", e seu staff conta com 50% de mulheres, tanto cis como trans. "A gente quer que todos sintam-se bem assistindo. E isso começa na produção. Temos de ter cuidado com a maneira com que a mulher é tratada, como a cena vai ser executada".

Os atores Lis e Atlas em cena de filme da Plenna: produções têm história e privilegia vontades femininas - Divulgação/Plenna - Divulgação/Plenna
Os atores Lis e Atlas em cena de filme da Plenna: produções têm história e privilegia vontades femininas
Imagem: Divulgação/Plenna

Ele diz ser a favor de uma regulamentação oficial do setor, que estabeleça regras claras.

Teríamos de ter uma regulamentação mais específica da Ancine, mas hoje não podemos esperar muito, pois o órgão está em ruínas. Seria importante ter esse selo de qualidade de boas práticas. Temos de regulamentar os salários mínimos para a equipe. Acho que seria muito saudável também o estabelecimento de cotas de mulheres e pessoas trans nas equipes, para trazer o olhar delas.

A diretora e atriz Mila Spook, que produz filmes focados no prazer feminino, também vê com bons olhos a regulamentação do setor.

Isso deixaria todo mundo mais seguro, tanto os atores como os produtores. No meu set, sempre procuro deixar muito claro para as atrizes e os atores o que vai acontecer, com quem vão contracenar, até as roupas que vão usar. Mas isso não acontece em todas as produtoras.

Enquanto não há regulamentação

A produção de filmes adultos no Brasil não tem uma regulamentação específica. Ela está submetida a regras estabelecidas pela Ancine (Agência Nacional do Cinema) e são as mesmas que regem qualquer obra audiovisual no país — procurado pela reportagem, o órgão não se manifestou sobre o assunto.

Dessa forma, quem acaba regulamentando a indústria pornô são as empresas compradoras e distribuidoras de conteúdo, como o Sexy Hot, a maior no país.

O canal exige das produtoras parceiras, além de testes de doenças sexualmente transmissíveis, "boas práticas" nos sets de gravação. De acordo com o canal, porém, ele não pode "responder por comportamentos ou condutas de produtores independentes".

Com o conhecimento de relatos de atrizes contra Binho Ted, o Sexy Hot tirou do ar as produções da HardBrazil na TV e em seu site. A empresa disse, em nota a Splash, rejeitar imagens que tenham "conotação de abuso sexual", cenas de violência e assédio, além de "comportamentos fora dos padrões lícitos do filmes exibidos pelos canais do grupo".

May Medeiros, sócia da produtora Xplastic, redige documento para tentar tornar a indústria mais ética - UOL - UOL
May Medeiros, sócia da produtora Xplastic, redige documento para tentar tornar a indústria mais ética
Imagem: UOL

May Medeiros, diretora e sócia da produtora Xplastic, está à frente de um movimento que pretende tornar o pornô um "mercado mais ético" no Brasil, por meio da iniciativa das empresas que fazem filmes adultos.

"A gente tinha na gaveta, já há dois anos, a elaboração de um documento de política de produção de conteúdo e decidimos tocá-lo depois de denúncias recentes", conta May.

Atualmente, os contratos de produtoras pornô são basicamente documentos de autorização de uso de imagem com imagens de sexo explícito.

O documento, que teve a colaboração e os pitacos de outros produtores, está sendo analisado por advogados, e pretende ser uma régua para as boas práticas na indústria.

Propomos, por exemplo, o direito de o ator ou a atriz saber com no mínimo 24 horas de antecedência quem são as pessoas envolvidas e quais são as práticas necessárias para cada cena. E que eles tenham direito a receber 25% do cachê caso se desloquem à locação e desistam por não estar de acordo com algo.

O consentimento nunca é definitivo. Se a menina se sentir desconfortável na hora, mesmo tendo dito 'sim' antes, ele deixa de existir quando ela não quer mais."

Outras regras do documento são o respeito aos limites das outras pessoas, o questionamento antes de realizar qualquer prática não combinada e o não uso de drogas no ambiente de trabalho.

May diz que não tem como "obrigar" outras produtoras a adotar os mesmos procedimentos, mas muitas já estão interessadas no documento, que será disponibilizado livremente.

Os diretores Max Anderson e Mila Spook são apoiadores da iniciativa. "Eu acho que toda produtora séria deve aderir, enquanto não há uma regulamentação oficial", diz Mila.

Vanessa Danieli, ex-atriz, não crê em pornografia ética - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Vanessa Danieli, ex-atriz, não crê em pornografia ética
Imagem: Reprodução/Instagram

Outro lado

Para a ex-atriz de filmes adultos Vanessa Danieli, militante feminista e antipornografia, não é possível existir uma "pornografia ética". Ela diz apoiar as trabalhadoras da indústria, mas afirma que as consequências da experiência são invariavelmente negativas.

Vanessa hoje é youtuber e trabalha como analista de marketing, depois de passar por depressão e outros problemas de saúde mental em razão, segundo ela, do trabalho como atriz pornô. Ela briga na Justiça para tirar vídeos antigos do ar.

As pessoas têm o direito de arrependimento, mas eu sou atacada até hoje pelo meu trabalho anterior. Até quando? Se um dia eu quiser ter filho, serei atacada como a Raquel Pacheco [a ex-atriz Bruna Surfistinha]? O feminismo é incompatível com a pornografia, com a mercantilização do sexo.

Vanessa diz compartilhar as opiniões da página "Recuse a Clicar" (presente no Facebook, Twitter e Instagram), que se coloca contra qualquer tipo de pornografia. A advogada Izabella Forzani, administradora da página, acredita que filmes adultos são, além de um problema social, uma questão de saúde pública.

Falar sobre pornografia ética é como falar sobre 'cigarro ético'. Mesmo que a diretora jure que vá fazer tudo de forma bacana, essa atitude só afeta o aspecto social. Ela também tem um aspecto viciante para quem consome, e isso é pouco discutido.