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Quem é a artista japonesa com esquizofrenia homenageada nas Olimpíadas

A artista plástica Yayoi Kusama
A artista plástica Yayoi Kusama
Getty Images

Laysa Zanetti

De Splash, em São Paulo

23/07/2021 11h53

Muitos esperavam Goku e Pikachu na abertura das Olimpíadas de Tóquio, mas a organização dos Jogos não esqueceu dos grandes artistas japoneses e homenageou Yayoi Kusama. Logo no início da festa, houve uma referência a seu trabalho, em um jogo de luzes com feixes vermelhos.

Aos 92 anos, Kusama é uma das artistas mais vendidas do mundo, e seu estilo é marcado por bolinhas e experiências imersivas. Em 2014, sua obra passou pelo Instituto Tomie Ohtake (SP) e pelo CCBB (RJ e Brasília). Talvez você se lembre de ver no Instagram fotos de quem se divertiu com as lindas artes.

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Você já viu uma foto assim no Instagram? A artista é Yayoi Kusama!

Antes de atingir a fama e ser reconhecida por seu talento, no entanto, Kusama passou por uma infância e um início de carreira turbulentos. Há três décadas, ela vive em uma instituição psiquiátrica, diagnosticada com esquizofrenia, e muitos associam seus picos de criatividade à doença.

Leah Millis/Reuters - Leah Millis/Reuters
Cerimônia de abertura das Olimpíadas de Tóquio: feixes de luz são referência à obra de Yayoi Kusama
Imagem: Leah Millis/Reuters

Infância

Nascida em 1929, Yayoi é de uma época em que não era muito comum que mulheres tivessem pretensões artísticas. Desde criança, ela já mostrava afinidade com desenhos e figuras geométricas. Mas o dom não era incentivado em casa.

Sua mãe, uma mulher de visão mais objetiva, era contra a paixão da filha, e chegava a retirar os desenhos de suas mãos e a agredi-la para que parasse de pintar.

Determinada a seguir o que considerava seu dom, ela estudou na Escola de Artes da Cidade de Kyoto durante um curto período.

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Arquivo/Reprodução - Arquivo/Reprodução
Yayoi Kusama, na infância em Tóquio
Imagem: Arquivo/Reprodução

Nova York

Sua vida mudou quando decidiu escrever uma carta para a pintora estadunidense Georgia O'Keeffe, pedindo conselhos profissionais. O'Keeffe respondeu, recomendando que ela cruzasse a fronteira e fosse até os Estados Unidos.

Foi o que fez.

Por volta de 1957, Yayoi Kusama se mudou para Nova York, onde passou a dividir o cenário com artistas consagrados e vanguardistas, como Andy Warhol, Donald Judd e Claes Oldenburg.

Mesmo assim, a história não foi fácil a partir daí.

Getty Images - Getty Images
Quarto Infinito de Kusama, de 1965. Marca registrada da artista é a repetição de formas geométricas
Imagem: Getty Images

Passada para trás

Yayoi não era fluente no inglês e, como uma mulher com poucas conexões em Nova York, enfrentou sexismo e discriminação. No documentário "Kusama - Redes Infinitas" (2018), disponível no Globoplay, ela cita algumas obras do próprio Warhol que teriam sido "inspiradas" em suas criações.

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No filme, Kusama conta que seu trabalho teria sido copiado por artistas homens mais conhecidos do que ela, na época. Além de Warhol e Oldenburg, ela cita Lucas Samaras, que montou um ambiente espelhado pouco tempo após ela criar a primeira versão do que viria a ser o seu Quarto do Espelho Infinito.

Reprodução - Reprodução
Parede com desenhos de vacas de Andy Warhol: segundo Kusama, a criação foi feita após Warhol visitar uma exposição dela em abril de 1966
Imagem: Reprodução

Depois da exposição de Samaras ganhar mais destaque do que a sua, por estar em uma galeria maior, a saúde mental de Yayoi ficou bastante debilitada. Ela recebeu a ajuda de amigos para se recuperar da depressão. De volta ao Japão, seu trabalho foi redescoberto aos poucos ao longo dos anos seguintes.

Pedro Motta - Pedro Motta
Jardim de Narciso, de Kusama, em exposição no Instituto Inhotim, em Brumadinho-MG
Imagem: Pedro Motta

Kusama representou o Japão na Bienal de Veneza em 1993 e hoje fala abertamente sobre sua saúde mental. Como os grandes temas de suas obras são a repetição de figuras, a acumulação e o surrealismo, ela mesma afirma que as criações se tornaram uma válvula de escape para seus dilemas internos.

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Luto contra dor, ansiedade e medo, [...] e o único método de aliviar a minha doença é continuar criando. Eu segui o fio da arte e [...] descobri um caminho que me permitiu viver.
Yayoi Kusama em entrevista à New York Magazine, em 2012