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Ator trans que protagonizará beijo em 'Salve-Se' não quer ser 'coitadinho'

Bernardo de Assis vive Catatau em 'Salve-Se Quem Puder'
Bernardo de Assis vive Catatau em 'Salve-Se Quem Puder'
Reprodução/Instagram

Gabriel Nanbu

De Splash, em Santos

07/07/2021 04h00

Bernardo de Assis, que vive o office boy Catatau em "Salve-Se Quem Puder", quer que ele e outras pessoas trans sejam vistas para além das narrativas de violência e sofrimento, tão comuns na TV.

No próximo dia 14 (quarta), vai ao ar na novela o primeiro beijo entre um homem trans e uma mulher cis (nascida biologicamente mulher) da televisão aberta no Brasil.

A cena será protagonizada por ele e por Juliana Alves, que interpreta Renatinha.

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Juliana Alves e Bernardo de Assis protagonizarão beijo
Imagem: Reprodução/Instagram

O ator de 26 anos conversou com Splash e disse que entende a cena como um momento histórico na televisão.

A gente gravou essa segunda metade da novela de uma só vez e não tivemos feedback do público. Em relação ao beijo, estou extremamente ansioso para saber como as pessoas vão reagir.

Ataques nas redes

Desde a última semana, quando foi divulgado que o beijo aconteceria, Bernardo foi alvo de ataques transfóbicos nas redes sociais.

Recebi mensagens criminosas; não estava preparado. Alguns diziam que a gente queria obrigar a aceitação. Depois entendi que isso é o ônus de estar fazendo algo revolucionário.
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Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Bernardo milita pela causa trans e pelas causas de minorias
Imagem: Reprodução/Instagram

O ator afirma que, a princípio, ficou chateado com os ataques, mas que logo conseguiu focar as energias nas mensagens de incentivo.

Ele acredita que o autor do folhetim, Daniel Ortiz, teve coragem para abordar o assunto.

O Daniel comprou uma briga com consciência. A partir de agora, as coisas ficam mais possíveis: mais beijos de pessoas trans, mais narrativas que não sejam de dor e violência.

'Meninos Não Choram'

A primeira vez que Bernardo viu uma pessoa trans ser representada no cinema foi em "Meninos Não Choram" (1999), em que Hilary Swank vive Brandon, um rapaz que é espancado e morto. Impactado com o filme, incentiva outras narrativas do gênero.

A gente tem de sair dessa ideia de que as pessoas trans odeiam seus corpos e que vão sofrer e ser rejeitadas. Isso pode acontecer, mas existe amor e vida em nossas existências.
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Formado em Atuação Cênica e Direção Teatral, Bernardo diz saber que seria ator desde os seis anos, quando assistiu a uma peça pela primeira vez.

Ele defende que pessoas trans vivam personagens trans em séries, filmes e novelas. Para ele, falta a atores cis a vivência para interpretá-las.

É um assunto delicado. Não é uma pessoa que não é médica interpretando um médico. Há a vivência do que o corpo carrega. Fora isso, há artistas trans que podem fazer os personagens.
Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Transição na vida adulta

O artista ter se reconhecido como um homem trans aos 20 anos.

Foi quando entendi o que eu era. Aos 21 anos, me apresentei ao mundo como Bernardo. Dois anos depois, consegui fazer a cirurgia de retirada dos seios e venho desde então em um processo de me amar cada vez mais.

Rejeição da família

Bernardo conta que rompeu com a família a partir do momento em que se declarou como homem transgênero. Como consequência, viveu na rua por um curto período, assim como em ONGs que abrigavam pessoas LGBTQIA+.

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Foi um período difícil, mas logo tive apoio de amigos e consegui trabalhos.

Ele milita agora para que pessoas como ele possam interpretar não apenas histórias de pessoas trans, mas quaisquer outras narrativas.

E se posiciona contra o atual governo.

Não se posicionar é dar aval a todas as barbaridades que estão acontecendo. Temos de falar todos os dias sobre as mortes que poderiam ter sido evitadas.