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Como a Netflix romantizou Elize Matsunaga e um crime chocante

Felipe Pinheiro

De Splash, em São Paulo

07/07/2021 04h00

Elize Matsunaga foi condenada a 19 anos, 11 meses e um dia de reclusão. O crime? Assassinato seguido por esquartejamento do corpo de Marcos Matsunaga, herdeiro do império Yoki —a famosa empresa que atua no ramo alimentício. Amanhã (8), a Netflix lança a série "Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime".

Em quatro episódios, o documentário com direção de Eliza Capai traz depoimentos de pessoas ligadas ao casal, advogados, cenas do julgamento —bem como da reconstituição do crime— e o principal: a primeira e única entrevista realizada até hoje com Elize.

Elize Matsunaga durante julgamento realizado no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste da capital paulista - Mister Shadow/ASI/Estadão Conteúdo - Mister Shadow/ASI/Estadão Conteúdo
Elize Matsunaga durante julgamento realizado no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste da capital paulista
Imagem: Mister Shadow/ASI/Estadão Conteúdo

A produção gira em torno da figura de uma criminosa confessa, intercalando as falas dela com depoimentos de quem tenta entender o que aconteceu sob o prisma de uma relação tóxica, em que ela ocupa uma posição quase que de vítima, e de quem a vê simplesmente como uma pessoa manipuladora capaz de matar a sangue frio.

Haveria justificativa para o assassinato do próprio marido? Foi premeditado? O ato de picotar o cadáver pode ser interpretado como requinte de crueldade? Essas são algumas perguntas debatidas ao longo do doc. A própria Elize se dirige ao espectador, consciente do espetáculo midiático que se tornou o crime que cometeu em 2012:

Respeito a opinião das pessoas. Sei que há pessoas que compreendem o que aconteceu e pessoas que me abominam, que me julgam. E tudo bem. É a opinião delas.

Outro lado da história

A estratégia da defesa de Elize Matsunaga em seu julgamento foi humanizá-la, como relata no documentário o advogado Luciano Santoro. Por este aspecto, é possível especular qual tenha sido um dos motivos para Elize aceitar gravar para a Netflix: a garantia de que ela tivesse liberdade para contar a história sob o seu ponto de vista.

Opiniões contraditórias às explicações da viúva do empresário da Yoki também são retratadas na série, mas é inegável o peso das declarações dela. Elize é a personagem principal de um drama real. Uma protagonista que chora, com uma história de abuso na adolescência e que sofreu muito ao ser traída duas vezes pelo marido rico.

O trabalho como garota de programa também recebe destaque na série. É como prostituta que Elize conhece Marcos. Mas ela não consegue escapar de um ciclo vicioso: o empresário teria traído a ex-esposa com Elize, na época amante, e depois de casado com a criminosa voltou a ser infiel com outra garota de programa.

Elize Matsunaga concede primeira entrevista em doc da Netflix - Divulgação/Netflix - Divulgação/Netflix
Elize Matsunaga concede primeira entrevista em doc da Netflix
Imagem: Divulgação/Netflix

A filha e a avó

A maternidade é um ponto-chave na série e com grande força para criar empatia no espectador. Teria Elize o direito de rever a menina após matar o pai da própria filha? Não nos cabe julgar, mas é inegável como esta parte do doc sensibiliza. Em lágrimas, ela diz:

Não sei o que o futuro reserva. Não sei se um dia irei encontrá-la novamente. Eu espero que sim. Peço a Deus isso. Peço a Nossa Senhora que também é mãe. Gostaria de falar para minha filha que não tem um dia da minha vida que eu não me sinta culpada pelo que eu fiz. Peço para que ela consiga vencer isso. Se não conseguir me perdoar, tudo bem. Irei respeitá-la.

Elize Matsunaga perdeu o direito da guarda da filha ao ser presa e não pode exigir visitas dela ao presídio. No documentário, a advogada cível Juliana Santoro diz que pretende entrar com o pedido para revogar esta decisão da Justiça.

Outro traço de humanidade e que desperta a compaixão é o reencontro com a avó após sete anos no presídio, durante uma saída temporária, no último episódio. Elize a cumprimenta com um forte abraço, as duas conversam e ela a presenteia com um bordado que confeccionou no presídio.

Eu estava com tanto medo de não conseguir ver a senhora de novo. Rezei todos esses anos para que eu pudesse encontrar com ela mais uma vez na minha vida.

É praticamente impossível não se emocionar com Elize. Ao mesmo tempo em que é impossível se esquecer de que não se trata de uma obra de ficção. Marcos Matsunaga era um homem terrível? Possivelmente. Mas a criminosa é Elize e ele, neste caso, a vítima.

Ao produzir o documentário, a Netflix se arrisca a romantizar um caso real e pode até induzir o público a comprar uma explicação parcial sobre o crime. A série prende a atenção do início ao fim, mas é sempre bom frisar que não se trata de novela ou romance. Muito pelo contrário. A realidade é assustadora.