PUBLICIDADE
Topo

DJ Rennan da Penha: 'A perseguição ao funk nunca vai acabar no Brasil'

O DJ Rennan da Penha - Divulgação
O DJ Rennan da Penha Imagem: Divulgação

Guilherme Lucio da Rocha

De Splash, em São Paulo

01/05/2021 04h00

Os últimos dois anos foram uma montanha-russa na vida do DJ Rennan da Penha. Vivendo seu melhor momento da carreira, como um dos principais DJs do país e "embaixador" do Baile da Gaiola, no Complexo da Penha, zona norte do Rio de Janeiro, ele foi preso acusado de associação ao tráfico em abril de 2019.

Ainda na prisão, o DJ venceu o prêmio Multishow de canção do ano com "Hoje Eu Vou Parar na Gaiola". Ao sair da penitenciária conhecida como Bangu 9, Rennan assinou um contrato com a Sony Music, gravou um DVD e abriu o selo Hitzada, uma parceria com sua gravadora e que serve de apoio a jovens artistas, não só de funk, na missão de impulsionar suas carreiras.

"Sei o quanto é difícil quebrar barreiras. Hoje, nossas músicas são distribuídas por uma empresa multinacional. O funk não é um ritmo inferior, mas o preconceito ainda é muito grande, por isso fico surpreso", disse o artista, em entrevista via Zoom para Splash.

Ao centro, sentado, o DJ Rennan da Penha, com artista da produtora 'Hitzada' - Divulgação - Divulgação
Ao centro, sentado, o DJ Rennan da Penha, com artista da produtora Hitzada
Imagem: Divulgação

Mesmo com esse progresso em meio aos percalços, Rennan é cético ao falar da relação entre Estado e a cultura do funk no Brasil.

Por recomendação jurídica, Rennan preferiu não entrar em detalhes sobre o seu caso —que permanece na Justiça. No entanto, ele diz acreditar que situações semelhantes à sua, como a dos MCs Poze do Rodo, Negão da BL, Hariel, Pedrinho e tantos outros, que também foram acusados de associação ao tráfico, não deixarão de acontecer.

Acabar com a perseguição ao funk? Aqui no Brasil? Duvido! Nunca vai acabar. Eu cansei de falar algo que está escrachado, está todo o mundo vendo e não vai mudar. A minha indignação é porque tiram as pessoas pobres de burras, ignorantes, sem educação. Quando a pessoa consegue ganhar o mundo com a sua arte, o Estado é o primeiro a tentar calar a boca daquela pessoa.

O DJ reforça também que os sete meses vividos dentro da prisão podem até ser pouco para quem está "de fora", mas que para ele o tempo custou a passar. Diz, ainda, que é visto como uma espécie de "bode expiatório" para quem critica a cultura.

"Tenho vários vídeos de deputado, senador, um monte de cara branco falando: 'Ó, que marginal! Fazendo música para bandido'. Falamos da realidade da favela. É simples: é só mudar essa realidade que as músicas vão mudar. Estamos em 2021 e ainda tem gente achando que o tráfico precisa do baile funk para existir, que uma coisa está ligada à outra."

Por que é tão difícil ver o DJ Rennan da Penha na TV?

Além de agitar dezenas de milhares de pessoas no Baile da Gaiola, as músicas do DJ Rennan da Penha já ocuparam o topo das plataformas de streaming, invadiram as rádios e estavam na boca do povo.

No entanto, ele não tinha espaço nos grandes eventos ou nos programas de TV. O motivo?

Eu tenho certeza de que tem a ver com a cor da minha pele.

Ele se diz incomodado com a falta de reconhecimento. Rennan destaca que alguns DJs remixaram seus trabalhos, e essas novas versões ganharam destaque, abrindo portas para os outros e mantendo, para ele, as portas fechadas.

"Vários programas, vários reality shows incluem minhas músicas, mas eu não vou tocar em nenhum desses lugares. O que me deixa triste é que pessoas que não têm relação nenhuma com as músicas ocupam esses espaços. Fico triste também por saber que não sou o único atingido por isso, outros DJs passam pela mesma coisa. E o público nota, porque se você pesquisar meu nome quando toca minha música nesses programas, o pessoal fica revoltado. É algo injusto", diz Rennan.

O lado geek de Rennan da Penha

Se você acompanha o DJ nas redes sociais já deve ter percebido que ele é um cara geek, que curte anime e é fã da DC. Nascido em 1993, ele diz que está por dentro de tudo da cultura nerd desde então e faz questão de acompanhar tudo de perto —principalmente agora com internet e uma graninha a mais.

Quando olham para a gente, do funk, eles olham só como funkeiro. Não imaginam que gostamos de um teatro, um cinema, algo diferente. Mal enxergam que sou fã de hip-hop, que está ali do lado. Eu era o nerd pobre, não tinha dinheiro nem para comprar uma revista. Começaram a notar isso depois que falei sobre 'Snyder Cut', porque fiquei bolado com a versão da 'Liga da Justiça' de 2017 e elogiei essa nova versão mais recente.

Balançar o funk --de novo!

Nascido e criado no Complexo da Penha, o DJ não gostava de funk. O negócio dele era o hip-hop, principalmente o americano. Fã do cantor 50 Cent —com direito a tatuagem da G-Unit, grupo fundado pelo rapper—, ele virou DJ Rennan da Penha ao ver um DJ de baile conduzir a galera.

Não é que eu não gostava, eu não suportava funk. Eu era apaixonado por hip-hop e não deixava nenhum outro ritmo entrar na minha vida. Até que um amigo me levou para um baile na Penha e vi aquela coisa de o DJ agitar a galera. Depois daquele dia, eu já comecei a fazer minhas loucuras.

Ele se apaixonou pelo ritmo e começou a mergulhar nas produções. Um dos seus primeiros trabalhos de grande repercussão foi o "Arrocha da Penha", com o MC Flavinho.

Porém, o que colocou Rennan "no mapa" foi o funk 150 BPM. A vertente do funk que acelerou o BPM (Batidas Por Minuto) do tradicional 130 para o 140, teve em Rennan um dos principais expoentes. Mas o artista nega o rótulo de fundador ou inventor da coisa.

"O que aconteceu foi que o funk de São Paulo estava em alta, e os MCs focavam em produzir por lá, deixando os DJs do Rio sem conteúdo. Em alguns bailes, já estava rolando essa cena de acelerar algumas músicas —primeiro em 145 BPM. O DJ Polyvox foi o primeiro a produzir uma música em 150 BPM, lá por 2015", explica.

Não fui eu quem inventei e não foi ninguém. A sigla, o BPM, existem muito antes de eu nascer.

Junto com o sucesso do 150 BPM, surgiu o fenômeno do Baile da Gaiola, que virou referência no Brasil no quesito baile de rua, levando até 25 mil pessoas por final de semana ao Complexo da Penha, onde o evento era realizado, com direito a excursões de todo o Brasil.

Mas Rennan não quer ficar agarrado às glórias do passado. Ele quer mais.

Eu espero mudar o funk do Rio, ele precisa ser transformado a cada três anos. O funk daqui é o único que pode mudar direto, porque ele tem uma parada diferente, se encaixa com todos os ritmos