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Livros eróticos com CEOs como protagonistas dominam lista de mais vendidos

Cena do filme "Cinquenta Tons de Cinza" (2015), de Sam Taylor-Johnson
Cena do filme "Cinquenta Tons de Cinza" (2015), de Sam Taylor-Johnson
Reprodução

Ana Carolina Silva e Gabriel Nanbu

De Splash, em São Paulo e Santos

19/04/2021 04h00

Dez anos depois do lançamento da série de best-sellers "Cinquenta Tons de Cinza" de E. L. James —na qual o empresário Christian Grey se apaixona perdidamente pela mocinha Anastasia Steele—, romances eróticos envolvendo CEOs de grandes empresas continuam bombando no Brasil. Sim, em pleno 2021.

No momento da elaboração deste texto, o ranking brasileiro dos 10 ebooks mais vendidos na Amazon tinha cinco títulos com essa temática. A maioria destas histórias é escrita por mulheres, que têm como alvo justamente o público feminino.

Dá-lhe um festival de capas com homens de terno!

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Você deve estar se perguntando: como assim 'romances com CEOs'?

Usamos como exemplo "A Menina Inocente do CEO", segundo lugar na lista de mais vendidos na última semana. A trama acompanha um empresário arrogante que muda sua perspectiva de vida ao se apaixonar por uma jovem "meiga e persistente".

Em papo com Splash, a autora Aline Damasceno explicou por que este tipo de história faz sucesso há décadas, muito antes de a temática ser popularizada pela trilogia "Cinquenta Tons". Ela é formada em Museologia e começou a escrever em 2020, quando trancou um mestrado em História.

As leitoras fantasiam com a segurança do CEO, com um homem protetor e carinhoso. Hoje, o público feminino pode comentar abertamente sobre seus desejos sexuais.
Aline Damasceno
reprodução/Grupo Editorial Portal - reprodução/Grupo Editorial Portal
Capa de um dos livros escritos por Alice Damasceno
Imagem: reprodução/Grupo Editorial Portal
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Seus livros "A Menina Inocente do CEO" e "A Paixão do CEO" (publicados pelo Grupo Editorial Portal) venderam 10 mil exemplares no formato digital. Aline acha que a sexualidade tem deixado de ser tabu —e ela nem leu "Cinquenta Tons!"—, apesar de ainda ver preconceito contra a literatura erótica.

No século 18, já havia literatura erótica. Pessoas têm desejos e fetiches, e a gente tem de ler o que nos dá prazer. É um tabu da literatura de que as pessoas estão se livrando.
Aline Damasceno
Divulgação - Divulgação
Cena de "Cinquenta Tons de Cinza", filme de 2015 adaptado a partir do livro de mesmo nome
Imagem: Divulgação

Mas não é problemático e machista?

Bem, enquanto a trama de "Cinquenta Tons" foi criticada por retratar um relacionamento abusivo (romantizado pela narrativa de E. L. James), Aline diz ter a preocupação de mostrar "relacionamentos saudáveis" em seus livros. A literatura aprendeu com o tempo.

Eu me importo mais com a protagonista feminina do que com a masculina. Da minha parte, procuro criar homens que respeitem suas parceiras e as valorizem intelectualmente.
Aline Damasceno
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E onde estão as leitoras? O que pensam?

Algumas delas reconhecem que esse tipo de história pode ter problemas, já que nem todos os autores têm a consciência de Alice Damasceno, mas Miriã Mikaely afirma que ama livros "clichê" com CEOs. Ela é dona do blog Capítulo Treze e já leu dezenas deste tipo.

reprodução/Instagram @blogcapitulotreze - reprodução/Instagram @blogcapitulotreze
Miriã Mikaely é dona do blog "Capítulo Treze" e fã de literatura
Imagem: reprodução/Instagram @blogcapitulotreze

O primeiro livro do gênero devorado por ela quando tinha 14 anos foi justamente "Cinquenta Tons de Cinza". Hoje, aos 23, ela faz muitas críticas à trama e se preocupa em indicar romances eróticos com CEOs que não sejam "babacas" (palavra usada por ela).

Para lidar com os traumas, o Christian faz com que as pessoas que gostam dele sintam dor. É muito problemático, a gente até romantizava: 'nossa, tadinho do cara'. Hoje em dia, não.
Miriã Mikaely
Reprodução - Reprodução
O ator Jamie Dornan interpreta Christian Grey em "Cinquenta Tons de Cinza"
Imagem: Reprodução
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Ela admite que boa parte das narrativas de CEOs ainda mostra homens possessivos e relações tóxicas, mas acredita que isso tem mudado. Hoje em dia, algumas histórias até colocam as mulheres em pé de igualdade (embora poucos livros invertam essa dinâmica de submissão).

As autoras estão quebrando esse padrão, trazendo mocinhas menos salváveis e acanhadas. Trazem advogadas, rivais, diretoras... Uma pessoa que vai bater de frente com ele.
Miriã Mikaely
Divulgação - Divulgação
Hoje em dia, muitas leitoras reconhecem que o casal de "Cinquenta Tons" era problemático
Imagem: Divulgação

Durante a conversa com Miriã, a equipe de Splash ficou curiosa para entender como histórias com mocinhas submissas (não só na cama) podem atrair uma leitora empoderada. Sem julgamentos, é claro, já que cada um pode ler e escrever o que bem entender na ficção.

Juro para você, eu adoraria que um CEO quisesse me sustentar [risos]. É uma idealização muito fora da realidade, mas fico me imaginando no lugar da menina, comprando tudo aquilo.
Miriã Mikaely
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Elas quase sempre se referem às "leitoras" e "autoras" no feminino porque as mulheres ainda são ampla maioria neste subgênero do romance literário. Seja por vergonha ou falta de costume, homens leem e escrevem pouco erotismo, mas, no Brasil, há exceções como G. R. Oliveira e Yule Travalon.