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Príncipe Philip: onde 'The Crown' acertou e errou sobre o marido da rainha?

Mariana Araújo

Colaboração para Splash, em São Paulo

09/04/2021 11h54Atualizada em 09/04/2021 13h31

Príncipe Philip, o duque de Edimburgo, morreu hoje, aos 99 anos. Com uma vida longa e marcada por eventos históricos extraordinários, ele se converteu em uma das figuras mais interessantes e polêmicas da realeza britânica.

Não à toa, a série "The Crown", da Netflix, frequentemente tem o marido da rainha Elizabeth 2ª em primeiro plano, movimentando as principais tramas. Mas o quanto desse retrato é realidade ou mito?

Caracterizada como uma obra de ficção, a produção aborda boas histórias, comprovadas ou não ao longo dos anos pelos jornais da época, para criar um registro de como a família real era enxergada pela sociedade mundo afora. Muitos dos boatos mais controversos, no entanto, nunca foram confirmados ou publicamente refutados pelo Palácio de Buckingham.

Apesar de alguns desses mistérios então continuarem, indefinidamente, sem resposta, outros já foram resolvidos por historiadores e experts na coroa. Confira o que é fato ou ficção em "The Crown".

Um príncipe sem coroa

Fato. Antes de se tornar o consorte de Elizabeth 2ª, Philip já era realeza, mas sem todo o luxo e a pompa que normalmente são atribuídas aos títulos. Herdeiro da coroa da Grécia e Dinamarca, ele cresceu no exílio, depois que seu tio já havia perdido a guerra contra os turcos e o direito a reinar. Philip cresceu em internatos pela Europa com o apoio da avó materna e do tio, que eram membros da nobreza britânica e descendentes da rainha Vitória. Enquanto isso, sua mãe foi admitida em uma instituição psiquiátrica após ser diagnosticada com esquizofrenia e o pai passou a viver no sul da França. Seu avô foi o primeiro a se naturalizar cidadão britânico e abandonar o sobrenome de origem alemã Battenberg ainda durante a Primeira Guerra por uma adaptação, Mountbatten, temendo o sentimento antigermânico na Europa. Foi o casamento com Elizabeth que restaurou a estabilidade na vida do príncipe.

Ele lutou para que os filhos tivessem seu sobrenome?

Provável fato. Embora não haja nenhum documento histórico que prove que foi mesmo Philip quem pressionou a coroa pela mudança de protocolo, não é comum que um monarca escolha incorporar o sobrenome de seu cônjuge à casa real. Elizabeth era a herdeira da casa de Windsor e, ao assumir a coroa, passaria o nome da família aos seus descendentes. No entanto, segundo o biógrafo Gyles Brandreth no livro "Philip and Elizabeth: Portrait of a Royal Marriage" (Philip e Elizabeth: Retrato de um Casamento Real, em tradução livre do inglês), o príncipe teria se queixado em certo ponto. "Não sou nada mais do que uma maldita ameba. Sou o único homem no país que não pode dar seu nome a seus próprios filhos". Em 1960, ela decidiu que os herdeiros sem título do casal então não teriam o nome de um, nem de outro, mas, sim, a composição deles: Mountbatten-Windsor.

Elo com os nazistas

Fato. Durante uma das cenas de "The Crown", o célebre primeiro-ministro Winston Churchill afirma que as irmãs de Philip não estariam presentes no seu casamento com a rainha Elizabeth porque eram casadas com nazistas. A alfinetada pode até ter não acontecido, mas carrega um fundo de verdade: três das quatro irmãs do príncipe Philip tiveram associação com o partido nazista e nenhuma delas esteve presente durante a cerimônia. Sua mãe, a princesa Alice, no entanto, é reconhecida por ter abrigado uma família de judeus gregos durante a invasão alemã em Atenas.

Ele traiu a rainha com uma bailarina

Não se sabe. O príncipe era conhecido pelo seu charme desde os tempos de solteiro e, ao longo dos anos, tabloides britânicos publicaram, por diversas vezes, histórias sobre supostas traições. Nenhuma delas, no entanto, conseguiu provar que Philip chegou a ser infiel. A bailarina russa Galina Ulanova, de quem Elizabeth desconfia em "The Crown" de fato existiu e excursionou pelo Reino Unido nos anos 50, mas não há evidência de que eles tenham se relacionado. O próprio consultor histórico da série, Robert Lacey, explicou à revista People que o episódio serviu para ilustrar as especulações que existiam no início do casamento real. "As pessoas frequentemente comentavam: 'ele deve ter sido infiel'. Mas não há provas sólidas disso".

Ele relutou em se ajoelhar diante da rainha na coroação

Provável mito. A cena também incorporada a série mostra um príncipe que luta para ter sua autonomia reconhecida, mas não há nenhuma prova de que Philip tenha questionado a autoridade de Elizabeth como figura de Estado. O expert na realeza Christopher Wilson aponta que é, inclusive, bastante improvável que um homem que venha de uma monarquia como Philip não reconhecesse a necessidade do cerimonial. "Eu duvido que o príncipe Philip tenha alguma vez dito essas palavras a sua mulher porque ele veio de uma casa real que já tinha tomado de empréstimo tanto dos rituais e protocolos da família real britânica. Ele conhecia bem o que era esperado dele em público e estava preparado para seguir as regras" disse ao Yahoo britânico.

A relação próxima com o tio, Lord Mountbatten

Fato. Philip e o tio mantiveram uma relação próxima durante toda a sua vida e ele fez parte de decisões e momentos decisivos na vida do duque de Edimburgo com o peso de uma figura paterna. Foi a influência do Lord Mountbatten sobre o rei George 6º, pai da rainha Elizabeth, que historicamente resultou no primeiro encontro entre os dois primos distantes que eventualmente se casariam e viveriam por mais de sete décadas juntos.

Ele foi responsável por enviar Charles a um colégio interno

Fato. O príncipe Philip foi mesmo aluno do internato Gordonstoun, na Escócia, como é retratado na série. Ele considerava que a experiência tinha sido formativa para seu caráter e era bastante claro o seu entusiasmo de que Charles pudesse ter a mesma educação. O príncipe de Gales, no entanto, chegou a afirmar publicamente que o local era "o inferno na Terra". As diversas discordâncias entre Charles e Philip nunca foram discutidas em público, mas se tornaram conhecidas ao longo dos anos através de gestos e documentos, como o fato de que Charles matriculou William e Harry em Eton, outra instituição nobre e mais próxima de casa, e através das cartas do duque de Edimburgo à princesa Diana. Por falar nisso...

Sua relação próxima com a princesa Diana

Fato. O príncipe parecia ter empatia com as dificuldades que uma pessoa criada longe dos muros do palácio enfrentaria ao entrar para a família real. Embora não haja relato ou registro de que Philip e Diana tenham ido à caça juntos, é bem documentada a amizade entre os dois. Segundo a biografia "Prince Philip Revealed" (Príncipe Philip Revelado, em inglês), de Ingreid Seward, "quando Diana se juntou à família real, foi Philip que veio ajudá-la, sentando ao lado dela em jantares formais e conversando com ela enquanto ela aprendia a arte da conversa fiada". Durante a crise no casamento dela com Charles, o duque de Edimburgo também deixou claro seu apoio a ela. "Eu não consigo imaginar ninguém, em sã consciência, deixando você pela Camilla", escreveu ele em uma de suas cartas vazadas à imprensa. Em outra, Philip ainda diz: "Charles foi bobo ao arriscar tudo [para ficar] com Camilla para um homem da posição dele. Nós nunca nem sonhamos que ele pudesse querer te deixar por ela. Uma possibilidade dessas nunca nem mesmo entrou em nossas cabeças".

O príncipe estava envolvido no escândalo de Profumo

Mito, oficialmente. Na série, Philip aparece distante do palácio nos anos 60 e teria se envolvido nas festas regadas a sexo e bebida dadas por John Profumo, secretário de Guerra à época, que se relacionou com Christine Keeler, uma jovem de 19 anos. O escândalo aconteceu de verdade, mas o palácio de Buckingham sempre negou que o duque estivesse presente nas festas ou tivesse qualquer conhecimento do que acontecia por lá.

Aquele papo "em crise" com os astronautas da Apollo 11

Mito. Na terceira temporada, o príncipe está em crise de meia-idade. Ex-piloto, ele se vê entusiasmado com a chegada do homem à Lua e fica obcecado para bater um papo a sós com os três astronautas, do qual ele sai decepcionado por buscar respostas para sua própria vida. A verdade é que, os tabloides da época realmente retratavam um príncipe em crise, mas não há registros de Philip tenha entrevistado os astronautas. Ele teria apenas os conhecido durante a recepção no Palácio de Buckingham e não manifestou um interesse particular no feito histórico.