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Como repórter pegou avião com traficante e se aproximou de Bibi Perigosa

Repórter Gabriela Moreira, do SporTV
Repórter Gabriela Moreira, do SporTV
Reprodução/Instagram

Felipe Pinheiro

De Splash, em São Paulo

29/10/2020 04h00

A história de Bibi Perigosa (Juliana Paes) e Rubinho (Emílio Dantas) em "A Força do Querer" mexeu com as recordações da jornalista Gabriela Moreira, do SporTV. A trama de Gloria Perez é inspirada na história real do livro "Perigosa" (2017), escrito por Fabiana Escobar: a Bibi em carne e osso.

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Repórter policial

Ao assistir a uma cena da novela, Gabriela se lembrou de quando acompanhou, na época como repórter do jornal "Extra", a prisão de Saulo de Sá, conhecido como Barão do Pó da Rocinha. Em "A Força do Querer", o traficante ganhou o nome de Rubinho.

Rubinho (Emilio Dantas) é preso no esconderijo em "A Força do Querer" - João Miguel Júnior/TV Globo - João Miguel Júnior/TV Globo
Rubinho (Emilio Dantas) é preso no esconderijo em "A Força do Querer"
Imagem: João Miguel Júnior/TV Globo

Carnaval inesperado

Era véspera de Carnaval, e ela foi à redação do jornal —onde começou como estagiária. Estava pronta para, depois do expediente, curtir a folia no tradicional bloco Imprensa que Eu Gamo, do Rio de Janeiro. Os planos de Gabi, no entanto, mudaram radicalmente.

Confirmei as informações de que o Saulo seria preso [em Maragogi, Alagoas]. Meus chefes falaram: compra a próxima passagem de avião. Eu queria que o mundo acabasse porque estava em clima de Carnaval. Mas sabia que era uma prisão importante.

Início da missão

Acompanhada da fotógrafa, a repórter de 26 anos embarcou rumo a Recife, para onde o traficante seria levado. A cobertura marcou o início de sua carreira. As duas chegaram a tempo de ver a entrada de Saulo na delegacia, onde ele ficaria durante a noite, antes de ser levado ao Rio.

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A repórter Gabriela Moreira aos 26 anos, quando cobria jornalismo policial - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A repórter Gabriela Moreira aos 26 anos, quando cobria jornalismo policial
Imagem: Arquivo pessoal

Atrás do furo de reportagem

Gabriela comprou duas passagens no mesmo voo de Saulo, mas nada é tão simples, não é? Ela só conseguiu reservar assentos distantes do traficante. E ainda tinha um agravante: uma repórter do jornal concorrente também estava no voo.

Quando é voo comercial, geralmente a polícia leva o preso no fundo da aeronave. Eu só consegui comprar assento no início. Pensei: 'E agora? Eu vou tomar um furo. Do que adianta estar no mesmo voo e não estar colada no Saulo?'

Saulo de Sá Silva, o Barão do Pó da Rocinha, está preso desde 2008. À direita, Rubinho (Emilio Dantas), o traficante de "A Força do Querer" - Eduardo Naddar/AGIF / Folha Imagem e Fabio Rocha/Globo - Eduardo Naddar/AGIF / Folha Imagem e Fabio Rocha/Globo
Saulo de Sá Silva, o Barão do Pó da Rocinha, está preso desde 2008. À direita, Rubinho (Emilio Dantas), o traficante de "A Força do Querer"
Imagem: Eduardo Naddar/AGIF / Folha Imagem e Fabio Rocha/Globo

Qual foi a estratégia?

Tentar trocar de lugar com o passageiro sentado à frente de Saulo. Ela ri quando se recorda desse momento:

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Era uma senhora. Falei: 'A senhora não quer trocar de lugar comigo?'. Ela disse: 'Não, estou bem aqui'. Expliquei que estava trabalhando, mas ela não arredou o pé. Apelei: 'Atrás da senhora está um dos maiores traficantes do Rio de Janeiro. Ele está preso. Quer mesmo ir sentada na frente dele?'

Destemida ela!

Gabriela ficou em pé praticamente o voo inteiro, mas conseguiu falar com Saulo, que, é claro, estava algemado. Ao final, não satisfeita, colocou um papel com seu telefone no bolso do traficante.

E quem era no outro lado da linha? Ela mesma: Bibi Perigosa!

Mas a repórter jamais poderia desconfiar.

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Falei para ela de cara: 'Não faço ideia de quem seja seu marido'. Se ele é juiz, delegado, promotor, advogado ou até bandido, meu telefone está no bolso dele porque eu busco informações. Sou repórter e vivo disso. Não que eu precisasse dizer, mas sou casada e não quero nada com seu marido.

E Bibi ficou uma fera, certo? Errado!

Ela se desarmou. Disse: 'Obrigada, já achei que ele estava me traindo mais uma vez'. Fiquei curiosa:'Quem é o seu marido?'. E ela: 'É o Saulo'. 'Então você é a Bibi!'

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Barraco no morro

Com a experiência no jornalismo policial, a repórter estava por dentro de detalhes da vida do então casal e sabia da curiosidade que o público tinha a respeito dos dois. Conseguiu, então, marcar uma entrevista com Bibi Perigosa —bem como conversar com Saulo no voo.

Abordei o assunto Bibi com Saulo no avião, porque no jornalismo policial ela é uma figura. Por exemplo: tem a curva do S na Rocinha, que é muito conhecida. O Saulo, de fato, era muito mulherengo, e ela fez algo para bloquear o trânsito e chamar a atenção enquanto ele era o chefe do morro.

Virou o jogo

Gabriela conseguiu, então, uma entrevista com Bibi Perigosa, que aconteceu pessoalmente no prédio onde ela morava, no Rio Comprido (zona norte do Rio). Elas se falaram outras vezes, mas a repórter conta que sempre teve cuidado.

Se a polícia monitorava ela, era bem provável que me monitorassem por tabela. Toda vez que ela pegava o telefone, eu tinha medo de ela estar grampeada. E eu conhecia os policiais que estavam investigando o Saulo, então era complicado. Não podia de modo algum vazar informações da polícia.

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Encontro no shopping

Depois de um período sem se falarem, Bibi voltou a ligar e marcou uma conversa com a repórter no Fashion Mall, em São Conrado. Começava a ganhar corpo a ideia de escrever a biografia que, mais tarde, ganharia a tela da Globo em formato de novela.

Ela me procurou para que eu a ajudasse a transformar o blog dela em um livro. Expliquei que estava disposta a escrever, mas sem glamorizar. E que trouxesse informações relevantes a respeito da criminalidade na Rocinha. Essa ideia morreu, e ela escreveu o livro do jeito que queria.

O resto é história...