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A incrível história da DJ que perdeu a capacidade de compreender música

A Dj Tokimonsta
A Dj Tokimonsta
Divulgação

Leonardo Rodrigues

De Splash, em São Paulo

28/09/2020 04h00

Imagine o pesadelo: um dia você acorda e percebe que perdeu a capacidade de entender o que é música. De Beatles a Mozart, tudo vira barulho. Essa condição neurológica rara, que parece ter saído da série "House", já acometeu poucas pessoas no mundo. E uma delas é a produtora e DJ Tokimonsta.

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Talvez você tenha visto a Toki, que nasceu em Los Angeles, tem 32 anos e se chama Jennifer Lee, na série documental "Explicando", produzida pela Vox e disponível na Netflix. A história dela é fascinante.

Todo o "BO" começou em 2015, quando ela percebeu algo estranho no corpo. Sem explicação, seu pé havia ficado dormente. O motivo: Jen fora diagnosticada com Síndrome de Moyamoya, uma doença perigosa e rara que afeta a circulação sanguínea do cérebro e pode levar à morte.

A DJ Tokimonsta - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Ela então precisou fazer oito delicadas cirurgias cerebrais, entre dezembro de 2015 e janeiro de 2016. E, logo depois da primeira, acordou sem conseguir falar nem compreender o que diziam a ela. Era como se estivesse perdida em um país estrangeiro sem dominar o idioma.

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Para tentar entender o que estava acontecendo, ela resolveu colocar uma de suas séries favoritas, 'Portlandia'. E a música de abertura, —ouça abaixo— que amava, soou como um som estridente e metálico, se qualquer definição. O que estava acontecendo? Só imagine o que é passar por isso.

Nós conversamos com a Tokimonsta, hoje totalmente recuperada, para relembrar o que aconteceu. Ela não consegue eleger o pior momento do processo da perda de sua musicalidade, este "superpoder" que todo mundo tem e nos define como seres humanos.

Eu sentia apenas como se estivesse dentro de uma caixa de ruído, sem conseguir decifrar esse ruído. Não há como explicar essa sensação na prática. Ser incapaz de fazer algo que é um componente tão básico da vida. Música, pra mim, virou barulho. Não dava para detectar melodias.
Tokimonsta a Splash

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E como ela se curou?

Após muita discussão, os médicos decidiram retirar artérias das laterais do couro cabeludo dela e transplantá-las para a parte superior do cérebro. Assim, a irrigação cerebral começaria do alto, não da base. A força da gravidade daria uma forcinha. Mas a cura não era garantida.

As raízes cerebrais começaram a crescer, e os processamentos primários estavam intactos (...) Mas os processamentos complexos, para entender música e fala, que precisavam do córtex, haviam sumido. E montar esses circuitos complexos era impossível.
Gery Steinberg, neurocirurgião que operou a DJ

Mas o melhor aconteceu

Contrariando prognósticos, Jennifer se curou em questão de semanas. Para os médicos, em termos simplificados, o cérebro dela se "reajustou e reaprendeu" a funcionar mesmo com circulação sanguínea limitada. A capacidade de adaptação do nosso corpo humano é inacreditável.

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Toki então voltou para casa feliz só de estar viva, já capaz de compreender a fala e música. Mas aí enfrentou outro problema: o bloqueio criativo. Ela não conseguia mais pensar como DJ e precisou dar um tempo antes de voltar ao estúdio. Foi quando criou a música abaixo.

Não por acaso, ela se chama 'I Wish I Could' (algo como 'Quem me dera poder'). E ela conseguiu mesmo! Ficou incrível

Em apenas três meses, Toki voltou a se apresentar em grandes eventos e a produzir. Desde que se submeteu a bateria de cirurgia, já lançou três álbuns.

Sempre tentei não perder a perspectiva durante a recuperação. Sou muito grata por poder voltar a ter uma vida plena. Quando você está à beira da morte, seu primeiro instinto é se preocupar com a própria vida. E só depois você começa a pensar em todas as outras coisas.
Tokimonsta

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A gente ainda perguntou para ela o que mais mudou para a artista Tokimonsta depois de passar por uma experiência tão sensorialmente forte e única. E a DJ explica que hoje dá mais valor à vida, às pequenas coisas e à própria sensibilidade, que serve de combustível sonoro.

Quero explorar as regiões mais longínquas da minha criatividade. Quero fazer música da qual me orgulhe e me satisfaça. Sei que é clichê, mas o amanhã nunca é garantido. Quero saber que, se eu for embora amanhã, irei embora orgulhosa da música que fiz e da vida que vivi.

E para celebrar mais uma vez seu renascimento, ela lançou esta semana mais um álbum, o enigmático "Oasis Nocturno". Escuta aí.

Depois de tudo isso, precisamos falar: a Toki é incrível!