Roberto Sadovski

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Opinião

'Os Observadores' é fantasia sobrenatural que não chega a lugar algum

Um sobrenome de peso pode fazer maravilhas para uma carreira em Hollywood. Que o diga Ishana Night Shyamalan. "Os Observadores" marca a estreia na direção da jovem cineasta após trabalhar em projetos do pai famoso —ela assina a segunda unidade em "Tempo" e "Batem à Porta", além de escrever e comandar alguns episódios de "Servant". Existe, contudo, um abismo a largada e o pódio.

Adaptado do livro do escritor irlandês A.M. Shine, "Os Observadores" é um conto de fadas sombrio que faz a ponte entre folclore secular e ansiedade moderna. É louvável a ideia de transformar essa 'mistureba' em um terror gótico com camadas e reviravoltas - bem ao estilo de Shyamalan pai. A execução, contudo, se perde na estrada das boas intenções.

Quem também se perde é Mina, personagem de Dakota Fanning. Incumbida de entregar uma espécie rara de papagaio a um cliente no interior da Irlanda, ela se embrenha em uma estrada erma e precisa explorar os arredores quando seu carro para de funcionar. Logo, o veículo some. Barulhos sinistros parecem envolver a floresta sufocante. O fiapo de luz do dia aos poucos é engolido pelas trevas.

Mina é, então, conduzida por uma mulher misteriosa até um bunker em meio à mata, ocupado por outros dois desconhecidos. Uma das paredes da estrutura é um imenso espelho de face única. Ela logo entende as regras do jogo: quando a noite cai, criaturas na floresta se aproximam do lugar, observando seus ocupantes sem nunca ser vistos. Violar as normas significa atiçar a fúria dessa plateia macabra. As consequências são letais.

Dakota Fanning em 'Os Observadores'
Dakota Fanning em 'Os Observadores' Imagem: Warner

Como todo filme de terror baseado em confinamento, como "Cubo", "Rua Cloverfield, 10" ou "O Nevoeiro", os personagens em "Os Observadores" precisam não só planejar sua fuga, como também se defender de "ameaças" internas. O espelho - e as criaturas - servem para expôr a personalidade de cada um. Nas entrelinhas, o verdadeiro terror está encarando sua imagem, e não à espreita do outro lado.

Essa sutileza, contudo, se perde na condução pesada de Ishana Shyamalan. Como diretora, ela parece não ter nenhuma curiosidade sobre a engrenagem do universo que escolheu retratar. O clima soturno garante bons 15 minutos iniciais, mas o texto sem sentido e desnecessariamente solene ilumina, tão somente, uma narradora passiva e distante de uma história que precisa desesperadamente de um ponto de vista.

Em meio a essa aridez de ideias, Dakota Fanning e Georgina Campbell (outra ocupante do bunker) contornam como podem as deficiências do roteiro e a frouxidão da direção. "Os Observadores", entretanto, parece disposto a se autossabotar com uma trama exponencialmente confusa, que vê sua ideia inicial piorar ao explicar cada revelação de forma canhestra. É exaustivo.

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É compreensível que Ishana Shyamalan, que cresceu em uma dieta de filmes de terror e no set dos filmes do pai, tenha optado por uma fantasia gótica como primeiro passo em sua nova carreira. "Os Observadores" mostra que ela consegue compor belas imagens, mas lhe falta habilidade para conferir a cada frame autenticidade, poesia ou relevância. Um sobrenome abre muitas portas em Hollywood. Talento, porém, não é hereditário.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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