Roberto Sadovski

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Opinião

'Bad Boys: Até o Fim' é uma máquina do tempo bombástica para os anos 1990

"Bad Boys: Até o Fim" é puro estilo e zero substância. Absolutamente nada faz sentido nessa nova aventura ancorada por Will Smith e Martin Lawrence. A trama mal se sustenta em sua lógica interna, que por sua vez ensaia um fiapo de consistência emocional como mera desculpa para costurar cenas de ação bombásticas e irreais.

Ainda assim, o filme assinado pela dupla Adil e Bilall é um grande barato, o tipo de espetáculo barulhento e bombástico que define a série desde sua concepção. "Até o Fim" ignora toda evolução social e cultural que o mundo experimentou desde 1995, quando "Os Bad Boys" chegou aos cinemas como representante legítimo de uma era de exageros, abraçando cada convenção de um gênero tão hermético como o das duplas policiais.

A verdade é que Mike Lowrey (Smith) e Marcus Burnett (Lawrence) são sobreviventes. Se parcerias como Riggs e Murtaugh, Tango e Cash ou Lee e Carter evaporaram e hoje são somente combustíveis para produções que desconstroem o gênero - como o genial "Dois Caras Legais" e os dois "Anjos da Lei" -, os detetives da polícia de Miami seguem firmes e bem-sucedidos sem alterar uma vírgula sequer de sua fórmula vencedora.

A repetição é tão gritante que descrever a trama chega a ser vergonhoso, mas vamos lá. Para limpar o nome do falecido capitão Howard (Joe Pantoliano), que vê seu legado manchado com uma acusação de corrupção, Lowrey e Burnett enfrentam uma gangue de traficantes e mercenários brutais, terminando eles mesmos na mira da polícia. Uma pitada de drama familiar aqui, cenas de ação que desafiam a física acolá, e o palco está armado. Sobem os créditos.

Martin Lawrence e Will Smith em 'Bad Boys: Até o Fim'
Martin Lawrence e Will Smith em 'Bad Boys: Até o Fim' Imagem: Sony

Adil e Bilal são herdeiros dedicados do estilo Michael Bay de direção. A câmera, que já era vertiginosa, ganha mais agilidade não só com o uso de drones, mas também com uma geringonça operada pelo próprio Will Smith. Em certos momentos, a imagem salta do close de seu rosto em meio ao um tiroteio para um ponto de visto ao estilo "Counter Strike" que coloca a plateia ainda mais no centro da ação. Nada vai me convencer que "Batgirl", dirigido pela dupla, foi parar no cofre da Warner por ser "inassistível".

A perfumaria técnica - e narrativamente inconsequente - é claramente um dos pilares de "Bad Boys: Até o Fim". O outro é a química irresistível de Smith e Lawrence. Mesmo nos momentos mais absurdos - que não são poucos - os astros mantêm a bola no jogo com uma combinação de carisma e cara de pau. Não existe aqui nenhum compromisso com realismo, as emoções são sempre superficiais, e mesmo assim é difícil não torcer para a dupla - ou para o filme.

Se o uso da nostalgia como motor da cultura pop não demonstra nenhum sinal de fadiga - mês que vem "Um Tira da Pesada 4" vem coroar o movimento -, "Bad Boys: Até o Fim" ganha pontos por não ter o menor constrangimento em ser exatamente o que ele é: um filme de ação desavergonhadamente tosco. Ok, as duplas policiais no cinema já seguiram o caminho do dodô. Will Smith e Martin Lawrence, porém, parecem não ter recebido esse email. Mas, quer saber? Bom para eles!

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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