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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Blade Runner': A obra-prima que enxergou o futuro faz 40 anos

Harrison Ford em "Blade Runner - O Caçador de Androides" - Warner
Harrison Ford em 'Blade Runner - O Caçador de Androides' Imagem: Warner
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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

24/06/2022 04h00

Ridley Scott já estava exausto quando chegou ao set de "Blade Runner" para seu primeiro dia de filmagem. A jornada para adaptar o livro de Philip K. Dick já passara por um roteiro com o qual o estúdio não estava contente, um orçamento montado a toque de caixa e um astro que não enxergava olho no olho com seu diretor.

O clima era tenso. Depois de dois filmes rodados do outro lado do Atlântico - o drama "Os Duelistas" e a ficção científica "Alien - O Oitavo Passageiro" -, Scott ia trabalhar pela primeira vez em Los Angeles e com uma equipe de Hollywood.

Ele entrou no estúdio, que abrigava um cenário belíssimo, uma sala imensa no interior da Tyrel Corporation, e disparou: "As colunas foram montadas ao contrário, desmontem tudo e refaçam". Virou as costas e partiu, deixando a equipe atônita e um atraso no cronograma já no primeiro dia.

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Harrison Ford como Deckard: Brigas com o diretor e narração em off imposta
Imagem: Warner

Em retrospecto, é correto afirmar que Ridley Scott estava certo. Não só sobre as colunas de cabeça para baixo em seu cenário, mas também na interpretação do futuro enxergado por Philip K. Dick no livro "Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?". Rebatizado "Blade Runner", o texto foi materializado em uma obra que, quatro décadas depois, tornou-se um dos filmes mais influentes e importantes da história.

Não foi dessa forma, porém, que os executivos da Warner enxergaram o projeto quando assistiram à sua primeira versão. Os engravatados esperavam uma aventura de ficção científica aos moldes de "Guerra nas Estrelas", com carros voadores, ciborgues assassinos e um detetive que salva a mocinha no final.

O que eles viram, no entanto, foi um filme de ritmo lento, um estudo filosófico sobre o que é ser humano. Uma ficção científica em que a ação importa menos que os conflitos internos de seus personagens. Um drama futurista embalado em um mundo fantástico, crível, sujo e desolador.

Os executivos, por óbvio, entraram em pânico. Com a data de lançamento se aproximando, eles acreditavam ter uma bomba incompreensível em mãos. Para "consertar" o filme, eles removeram Scott do comando e recuperaram uma narração em off que pudesse "explicar" a trama. Para somar insulto à injúria, trocaram o clímax dúbio por um final feliz em uma estrada verdejante sob o céu azul.

Não fez muita diferença. Lançado em uma temporada carregada de vários tons de ficção científica, de "E.T. - O Extraterrestre" a "Jornada nas Estrelas II - A Ira de Kahn" a "O Enigma de Outro Mundo", "Blade Runner" não empolgou a crítica e demorou a encontrar seu público, estacionando em uma bilheteria que mal cobriu seus custos de produção. Fim.

Então, algo curioso aconteceu. Ao ser lançado em VHS, "Blade Runner" passou a ser reavaliado pelo mesmo público que antes o rejeitara. Em uma década em que o entretenimento passava por uma mudança em forma e proposta, os temas levantados por Scott ressoaram profundamente em quem buscava na ficção científica reflexão, e não uma simples injeção de adrenalina.

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O design revolucionário e atemporal de 'Blade Runner'
Imagem: Warner

Em 1992, uma cópia de trabalho do filme foi exibida em São Francisco, sem a narração em off e com o final original restaurado, renovando o interesse em "Blade Runner". Quinze anos e algumas versões depois, o próprio Ridley Scott lancou o "corte final" de seu filme. Brilhante e visionário como em sua concepção.

"Visionário" é uma palavra usada hoje como ferramenta de marketing. Poucos cineastas, porém, traduzem à perfeição seu significado. Ridley Scott entendeu que a trama de "Blade Runner", um neo noir simples em sua estrutura, seria o veículo perfeito para dar suporte a uma estética revolucionária.

O episódio das colunas é emblemático no cuidado primoroso com detalhes em "Blade Runner". Inspirado por histórias na revista em quadrinhos francesa "Métal Hurlant", especialmente as ilustradas por Jean "Moebius" Giraud, ele enxergou a Los Angeles de 2019 como "Honk Kong num dia ruim".

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Sean Young como Rachael: O dilema moral da inteligência artificial
Imagem: Warner

Sua visão tornou-se realidade com os desenhos do artista conceitual Syd Mead. Uma equipe brilhante de direção de arte e de efeitos visuais executou o traço de Mead, resultando em uma cidade de céu perenemente poluído, castigada por uma chuva incessante, com arranha-céus a perder de vista dividindo espaço com painéis publicitários onipresentes.

Não havia nada limpo ou lapidado. A Los Angeles de "Blade Runner" é um lugar sujo, feio e impressionante, um pesadelo urbano em que as inovações arquitetônicas são erguidas por cima do que resta da cidade velha. Um lugar esquecido pela civilização, habitado por gente de verdade. O clima ambígui é amplificado pela trilha hipnótica de Vangelis.

É nesse futuro que Scott enxergou terreno para desenvolver sua história. O livro de Philip K. Dick tratava de recursos ambientais e da possibilidade de ascensão social, temas usados pelo primeiro roteirista do projeto, Hampton Fancher. O diretor gostou da base mas dispensou Fancher, colocando David Peoples para lapidar suas ideias.

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Los Angeles em 2019, vista pelos olhos de 1982: poderia ser qualquer nmetrópole hoje
Imagem: Warner

"Blade Runner" tornou-se, então, um filme noir moderno, uma história de detetive em que o protagonista se perde em um mistério maior do que ele. Harrison Ford, já um astro depois de "Guerra nas Estrelas" e "Os Caçadores da Arca Perdida", assumiu o papel de Deckard, o "caçador de andróides" do título.

No futuro de "Blade Runner", seres sintéticos, batizados replicantes, são criados para auxiliar a humanidade em uma infinidade de tarefas, de construção civil a combate armado, passando a objetos de prazer. Dotados de inteligência articifial, porém, essas máquinas se rebelam com seus criadores, restando a caçadores como Deckard, ou "blade runners", localizá-los e exterminá-los.

Existe aí uma narrativa que poderia, sim, render uma aventura divertida e descartável. Scott, porém, queria explorar temas mais profundos com os replicantes. A pergunta inicial pode ser "o que é ser humano?", mas o filme vai além, questionando o que significa ter emoções, o que é alma, como reagiríamos ao ficar de frente com Deus.

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Ridley Scott dirige Harrison Ford em 'Blade Runner'
Imagem: Warner

Quem melhor abraçou esses dilemas foi Rutger Hauer. No papel do replicante Roy Batty, ele retorna à Terra ao lado de outros companheiros, certo de que será caçado, porque precisa entender quem ele é. Replicantes, como Roy ou sua companheira, Pris (Daryl Hannah), tem vida útil de 4 anos. Assim como todos nós, eles querem mais tempo de vida.

A deles é, afinal, breve. Replicantes são adultos recém-nascidos, incapazes de lidar com a avalanche de emoções com as quais são bombardeados, e buscar experimentar a todas antes de sua morte precoce. Eles não são humanos, mas é fascinante ver suas tentativas em imitar comportamentos humanos, do senso de humor desconfortável a demonstrações de carinho, passando enfim à ultraviolência.

Em meio à caçada, Deckard é apresentado a Rachael (Sean Young), a princípio a assistente do criador dos replicantes, depois revelada ela mesma uma androide. Mais ainda: Rachael não faz ideia que não é humana, não faz ideia que é um ser artificial. Ao se apaixonar por Deckard, que devolve o sentimento com fúria, eles criam um paradoxo tão fascinante quanto envolvente.

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Roy Batty (Rutger Hauer) descobre o valor da vida
Imagem: Warner

Nos últimos 40 anos, as entrelinhas em "Blade Runner" foram objeto de análise por apaixonados por cinema, ávidos por respostas a questões deixadas no ar. A maior delas é a natureza do próprio Deckard. Ridley Scott acredita que o próprio protagonista também era um androide; Harrison Ford discorda, daí a fonte de parte de sua rusga. O filme "Blade Runner 2049", lançado em 2017, parece ter resolvido essa dúvida.

Questionar a natureza de nossa realidade não é um tema iniciado por "Blade Runner". Mas sua combinação com a ambientação distópica, talvez a representação de um futuro mais influente no cinema desde "Metrópolis", que Fritz Lang dirigiu em 1927, provou ser uma mistura de influência indiscutível.

O DNA de "Blade Runner" pode ser visto em "O Exterminador do Futuro". Nos animes "Akira" e "Ghost in the Shell". No futuro estéril de "Gattaca", ou no caos de "Estranhos Prazeres". Está na explosão urbana de "O Quinto Elemento", nos cantos sombrios de "Cidade das Sombras". Na violência da inteligência artificial de "Ex_Machina" e da série "WestWorld". Em cada poro de "Matrix".

Assistir a "Blade Runner" em 2022 é encarar, mais uma vez, o espelho de nossas imperfeições. A jornada de Roy Batty o fez enxergar o valor da vida; seu conflito com Deckard fez o detetive redescobrir sua própria humanidade.

As questões morais da obra, entretanto, persistem. Com a tecnologia do novo século tão onipresente na rotina do homem moderno, raramente paramos para pensar em suas implicações e consequências.

A busca pela inteligência artificial é uma realidade, mesmo que o alerta levantado há décadas por visionários e futuristas encontrem ouvidos surdos. Ainda somos, afinal, humanos. Imperfeitos, como "Blade Runner", que encontrou seu propósito ao contar com o tempo. Mesmo que ele pareça se perder, como lágrimas na chuva.