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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Tom Cruise volta triunfante ao passado no espetacular 'Top Gun: Maverick'

Tom Cruise em "Top Gun: Maverick" - Paramount
Tom Cruise em 'Top Gun: Maverick' Imagem: Paramount
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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

17/05/2022 08h39

Tom Cruise inventou a viagem no tempo. "Top Gun: Maverick" é uma aventura empolgante, irrefreável e emocionante que não tem a menor vergonha em ser antiquada.

Pelo contrário: o filme abraça as convenções e as armadilhas que já eram manjadas em 1986 e, exatamente como fez seu antecessor, embala tudo num pacote de ação explosiva, emoção sincera e puro deleite cinematográfico.

Como resultado, "Maverick" é um pedaço de entretenimento que supera de longe o "Top Gun" original. Os avanços visuais criados pelo diretor Tony Scott quase quatro décadas atrás, que cravaram seu filme como um pedaço da história pop, são aqui substituídos por foco, intensidade e uma dose cavalar de nostalgia.

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Jennifer Connelly mantém os pés de Tom Cruise no solo em 'Top Gun: Maverick'
Imagem: Paramount

No cenário cinematográfico do século 21, em que o cinema de ação ficou mais sofisticado em forma e conteúdo, conduzido muitas vezes por um desenho geopolítico global em constante mutação, um filme como "Maverick" é ousado por ser uma contradição.

Ao simplificar os riscos em sua história, concentrando-se em uma trama linear e esquemática, o diretor Joseph Kosinski (que trabalhou com Cruise em "Oblivion") seguiu um caminho simplista que, embora perigoso na superfície, mostrou-se perfeito para promover uma continuação do filme de 1986.

No centro de tudo, obviamente, está Tom Cruise. Ao longo de sua carreira, o astro foi refratário em repetir personagens. As exceções foram Ethan Hunt e Jack Reacher - o primeiro por ele ser o dono da bola chamada "Missão: Impossível, o segundo por algum motivo indizível.

No novo "Top Gun", contudo, ele entra com entusiasmo a mil. Nas mãos de Cruise, o capitão Peter "Maverick" Mitchell, que parecia ter concluído seu arco dramático 36 anos atrás, retorna com uma história que em nenhum momento parece forçada.

Em "Top Gun", o original, ele era o piloto talentoso, mas impulsivo, enviado para a escola de treinamento da marinha para aprimorar seu talento - e baixar sua bola. Daí em diante o roteiro seguia a lista básica de como escrever um filme de ação.

Começa com o rival que lhe dá um desafio para provar que é o melhor. Passa pelo romance com uma instrutora, que lhe coloca entre o amor e o dever. Atinge o clímax com o melhor amigo, um homem de família, morrendo tragicamente durante um exercício no ar.

Quando surge uma ameaça no fim do segundo tempo, para garantir sequências aéreas de combate de encher os olhos, "Top Gun" já foi da arrogância à culpa, chegando na redenção de forma explosiva. O público em 1986 pirou, fazendo de Cruise um astro e do filme a maior bilheteria do ano.

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O diretor Joseph Kasinski no set de 'Top Gun: Maverick'
Imagem: Paramount

"Top Gun: Marevick" repete quase todos os pontos narrativos à perfeição. O texto de Ehren Kruger e Eric Warren Singer, temperado com a mão esperta de Christopher McQuarrie, capricha ao equilibrar os momentos que disparam o gatilho da nostalgia com a óbvia noção de passagem do tempo.

Não que o tempo parece ter avançado quando "Maverick", em sua cena inicial, espelha a do filme de 1986 (muito marmanjo vai abrir as torneiras já aqui). São caças de combate perfilando em um porta-aviões, depois desfilando no ar, um prólogo que nos prepara para descobrirmos o que aconteceu a Maverick nessas três décadas.

O capitão segue na marinha, mas optou por ser piloto de testes para não galgar a hierarquia militar. Desafiando os limites em jatos experimentais, ele se mantém no ar, e não atrás de uma mesa. Não é a instituição ou a patente que o move, e sim a adrenalina, a "necessidade por velocidade".

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Rooster (Miles teller) é o elo com o passado trágico de Maverick
Imagem: Paramount

O que faz de "Maverick" um filme à frente de "Top Gun" é ter um objetivo. Se o inimigo antes era aleatório, desta vez os melhores pilotos da marinha, uma nova geração igualmente arrogante e segura de si, tem uma ameaça clara, uma missão para se infiltrar em território inimigo e destruir uma instalação para enriquecer urânio.

Maverick, então, retorna à Top Gun como instrutor. Sua reputação não agrada o comandante da base, Cyclone (Jon Hamm, que devia por lei fazer mais filmes), mas as ordens vieram do topo, do almirante Tom Kazanski (Val Kilmer), que como Iceman era rival de Maverick e entende que a missão sem ele será um fracasso.

Daí, "Maverick" mergulha fundo na nostalgia. Quer cena em que os pilotos cantam num bar perto da base aérea? Temos. Que tal uma partida amigável de futebol na praia (não é vôlei, mas tudo bem), com gente suada, corpos descamisados e laços fraternais estreitados? Temos também. Treinamento com sequências aéreas absurdas? Ô!

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As câmeras especiais criadas para filmar nos caças em 'Top Gun: Maverick'
Imagem: Paramount

O diretor Joseph Kosinski, que criou câmeras especiais para ser encaixadas no cockpit dos caças, fez Tom Cruise equilibrar o papel de observador e protagonista. Sinal dos tempos. Maverick abraça sua idade e seu papel ao entender que é preciso ganhar a confiança dos pilotos e evitar que eles cometam erros em uma missão claramente suicida. Por outro lado, entende-se que ele não vai voar no ataque, mas o texto torna isso inevitável: ainda é, afinal, um filme de Tom Cruise.

O romance com Jennifer Connelly, personagem citado mas nunca mostrado no original, cria uma âncora para Maverick, que agora contempla sua mortalidade com um olhar diferente de 36 anos atrás. Ele é intempestivo, mas agora entende que tem algo além do tempo a perder. O drama ganha um círculo completo com a presença de Rooster (Miles Teller), filho de Goose (aquele que morreu por acidente no filme original), também piloto de combate. que entra em choque com Maverick

Estes conflitos em "Top Gun: Maverick" são rasos como um pires. Como a rivalidade entre os pilotos, que remete a uma fantasia de masculinidade hoje embolorada. O próprio inimigo é referido como uma "nação rebelde", suas naves tecnologicamente superioras conduzidas por pilotos com capacetes de lentes escuras, anônimos como nos caças TIE em "Star Wars".

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Tom Cruise em 'Top Gun: Maverick': astro como profissão há 36 anos
Imagem: Paramount

Nada disso, entretanto, faz a mínima diferença. Assim como no cinema de ação de 1986, antes de "Duro de Matar", de "True Lies", de "Matrix" e do próprio "Missão: Impossível" de Tom Cruise, não há nenhuma engrenagem em "Maverick" que não exista unicamente para alavancar a ação ou despertar emoção.

Os botões, portanto, são ajustados ao máximo para injetar duas horas de adrenalina e nostalgia. Não há uma dúzia de conexões como os filmes da Marvel. Não existe o desafio às leis da física de "Velozes & Furiosos". Sobra emoção genuína e honestidade: em "Top Gun" não há um fiapo de cinismo ou ironia.

É um retorno ao passado preocupado unicamente com a diversão, arquitetado para mostrar que ainda é possível criar um filme grandioso usando uma estrutura familiar - o terceiro ato é tão fora da casinha que constrói um momento de catarse com o retorno do caça já aposentado F-14 Tomcat.

Tom Cruise, ainda o maior astro de cinema do planeta, sabe exatamente o que seu público quer. Sem a menor vontade de antagonizar, entrega o pacote completo - sim, ele queria pilotar um F-18, mas a marinha americana achou melhor não. Tudo bem. Assista, se puder, na maior tela possível, no cinema com o som mais trovejante e cristalino. "Top Gun: Maverick" é um espetáculo. Talvez o maior que você verá este ano.