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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'A Fratura' erra ao buscar humor na tensão de um hospital isolado pelo caos

Pio Marmaï em "A Fratura", de Catherine Corsini - Imovision
Pio Marmaï em 'A Fratura', de Catherine Corsini Imagem: Imovision
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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

06/05/2022 03h29

Dá para entender o que a diretora Catherine Corsini quer fazer com "A Fratura". Ao criar fricção social em um hospital público de Paris, enquanto do lado de fora o caos explode com o movimento dos coletes amarelos, ela busca sintetizar os problemas da França moderna em um ambiente claustrofóbico e diverso.

Seria didático se não houvesse o problema em separar suas intenções como realizadora do barulho, literal, que desfila por pouco mais de uma hora e meia de filme. A cacofonia de uma sala de emergência pode deixar a experiência mais realista. Ao mesmo tempo, perde-se o fator humano que possa causar qualquer conexão.

O movimento dos coletes amarelos surgiu na França ao final de 2018 de forma espontânea. A causa foi o aumento de impostos do governo de Emmanuel Macron, que caiu como uma bomba na mistura que já trazia reformas fiscais e sociais que terminariam por minar o poder de compra da classe trabalhadora.

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Um momento de rara paz entre o casal Raf (Valerie Bruni-Tedeschi) e Julie (Marina Foïs)
Imagem: Imovision

A resposta foram manifestações que se espalharam nas cidades francesas, envolvendo centenas de milhares de pessoas. A escalada dos eventos por quase vinte semanas colocou os "coletes amarelos", ítem de segurança adotado como símbolo por quem ir às ruas, terminou em prejuízos de milhões de euros e, principalmente em Paris, choques com a polícia.

É nesse contexto que um casal em crise, Raf (Valerie Bruni-Tedeschi) e Julie (Marina Foïs) vão parar no pronto-socorro quando a primeira fratura o cotovelo depois de uma queda na rua.

Esse mesmo mesmo setor de emergência do hospital recebe o caminhoneiro Yann (Pio Marmaï), recebido com estilhaços de uma bomba de efeito moral na perna enquanto ele participava dos protestos.

A divisão de "A Fratura" em duas narrativas em choque é uma decisão inteligente, que teoricamente nos apresentaria dois lados de um mesmo país fragmentado, unidos em uma situação-limite que pudesse gerar nesse microcosmo o ruído dramático para que Corsisi desenvolvesse sua trama.

Na prática, porém, o filme foi encoberto pelo barulho. Não há uma âncora clara para guiar o público ao longo da narrativa. Em vez disso, o filme apresenta uma coleção de personagens irritantes e exagerados, sem a menor leveza de contornos humanos, retratados como arquétipos da "burguesia" e do "proletariado".

Como se essa redução já não fosse desinteressante o suficiente, Corsini aumenta o tom no humor ácido. É uma ferramenta louvável para contar uma história, mas ela se perde na indefinição dos conflitos e na resolução fácil para o impasse criado entre Raf e Yann, que começam antagonizando entre camas e cadeiras de roda e terminam realizando, juntos, um parto em meio ao caos.

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Gatilho de 'A Fratura', o movimento dos coletes amarelos incendiou a França em 2018
Imagem: Imovision

Longe do melodrama de seus núcleos dramáticos principais, porém, existe em "A Fratura" um filme político, complexo e envolvente gritando para ser descoberto. A derivação da fórmula consolidada por Luis Buñuel no clássico "O Anjo Exterminador", em que um grupo isolado aos poucos abre mão das convenções sociais, encontra um paralelo vibrante na sala de emergência do hospital.

Nesse ambiente, Corsini sai de sua zona de conforto e desenha tensão real, como que antevendo o esfacelamento do sistema de saúde em nível global nos primeiros momentos da pandemia do Covid. Não por acaso, o grande destaque entre os coadjuvantes é a enfermeira Kim, interpretada por Aïssato Diallo Sagna, que não é atriz por formação, e sim profissional de saúde.

Para deixar a situação ainda mais aguda, "A Fratura" aos poucos deixa a destruição do mundo exterior, representada por manifestantes e pela polícia ávida a exercer seu pequeno poder, entrar no mundo hermético do hospital.

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Aïssato Diallo Sagna, que interpreta a enfermeira Kim, é profissional da saúde na vida real
Imagem: Imovision

O que falta em distanciamento histórico, contudo, sobra em desconforto. Com o humor como arma dramática, o filme perde força e ameaça tornar-se uma farsa sobre o momento político delicado da França contemporânea, não indo além de ampliar o retrato do caos neste recorte social.

Do lado de cá, só podemos torcer para o sufoco e o martírio terminarem. O que seria mais ou menos como estar em situação limite dentro do setor de emergência de um pronto-socorro real. Se o objetivo de "A Fratura" for, por fim, refletir justamente essa sensação, a missão foi cumprida.